Nunca se falou tanto da saúde mental e do seu impacto nos jovens, mas será que já estamos a agir ou estamos apenas a assobiar para o lado?

As preocupações com a saúde mental são uma constante nas sociedades contemporâneas intensificando-se em períodos de crises sociais, económicas ou sanitárias, como é o caso daquela que vivemos hoje provocada pelo vírus SARS-CoV-2. Os impactos na saúde, os constrangimentos à circulação, as dificuldades financeiras ou as limitações nos contactos físicos afetaram toda a vivência diária nos contextos laboral, familiar ou social, mudando radicalmente a forma como as comunidades se organizam e como se vivenciam hábitos individuais e coletivos que até então eram dados como garantidos e inquestionáveis.

A busca pela proteção da vida e a luta contra a doença alteraram todas as dinâmicas interpessoais levando a ajustes, reajustes, adaptações e mudanças para as quais não estávamos preparados, deixando-nos ainda mais vulneráveis e trazendo um conjunto de dúvidas e inseguranças que podem gerar descompensações em vários níveis da nossa vida, tendo implicações diretas na nossa saúde mental, nomeadamente no que concerne à existência de sintomas depressivos e à vivência de situações de ansiedade.

Ausência de liberdade, falta de contactos, escassez de espaços de socialização e momentos de lazer, diminuição da atividade física ou excessiva exposição aos ecrãs pela via digital são fatores potencialmente graves para a manutenção da saúde mental da população em geral, situação que se agrava nos mais jovens que, pela sua condição, vivenciam situações de maior vulnerabilidade, conduzindo a perturbações psicológicas e sociais que acabam por afetar e colocar em causa o seu ajustamento psicológico, principalmente naqueles que já apresentavam algum tipo de debilidade. As dificuldades económicas, os obstáculos no acesso equitativo à educação pela via digital ou as situações de precariedade no emprego ou de desemprego e consequente perda de rendimentos e de independência – muitas vezes com o retorno a casa dos pais, têm levado a que os jovens se sintam frustrados, desmotivados e sem esperança, vivenciando estados-limite com cenários depressivos ou catastróficos que podem colocar em causa a própria vida.

A família e a escola, mas também o Estado Central, os municípios e as associações da sociedade civil podem e devem ser parte de uma solução que permita evitar estas situações de degradação da saúde mental dos jovens, promovendo espaços privilegiados para uma intervenção preventiva e adequada às suas necessidades, assente num diagnóstico que identifique, de forma eficaz, os fatores de risco e compreenda as causas e comportamentos promotores da doença mental.

A intervenção e a educação em saúde, principalmente na área da saúde mental, devem ser sustentáveis e ter um caráter continuado, devem ser preventivas e precoces, começando na infância e sendo reforçadas ao longo de toda a adolescência, com avaliações regulares aos projetos, procedendo aos ajustes necessários para que se possa alcançar uma maior e melhor resposta aos problemas dos jovens, potenciando os fatores protetores como o desenvolvimento de competências pessoais, sociais e emocionais.

A implementação eficaz de projetos de literacia para a saúde mental, com um forte investimento na formação e capacitação das famílias e das comunidades, a desmistificação de preconceitos, o debate aberto de ideias e a não banalização ou desvalorização deste fenómeno podem ser a solução para evitar situações de doença mental nos mais jovens. Ao mesmo tempo, o reforço de programas e projetos de empoderamento de crianças e jovens, com recurso a práticas educativas e pedagógicas que sejam simultaneamente informativas e formativas, com recurso a metodologias ativas e participativas, capazes de envolver, capacitar e responsabilizar todos os intervenientes neste processo podem permitir antever os problemas e promover a saúde e a qualidade de vida de todos.

Agir de forma concertada e no imediato permitirá evitar os impactos de uma saúde mental debilitada nos mais jovens e as consequentes marcas na construção de um presente e futuro que devem ser marcados por processos de emancipação felizes e experiências de vida enriquecedoras e saudáveis.

Texto de Cátia Camisão