Nos últimos anos tem-se falado muito de árvores e de florestas, pelas razões de todos conhecidas: alterações climáticas, grandes incêndios florestais, perca de importantes manchas florestais na Amazónia para a exploração agropecuária, diminuição drástica da biodiversidade, extinção acelerada de espécies raras e protegidas, diminuição de água potável e diminuição da qualidade geral do ar.

É globalmente aceite que as árvores são necessárias para a descarbonização e que a humanidade tem de reduzir a sua pegada, poluindo menos e gastando menos recursos.

Apesar de todos aparentemente estarmos conscientes deste problema que coloca em causa a nossa própria sobrevivência, há mistérios que me parecem difíceis de entender.

Face a alguns acontecimentos, interrogo-me muitas vezes por que ardem quase sempre as mesmas áreas florestais? Por que é tão difícil gerir as explorações florestais? Por que não pagam mais impostos os eucaliptais que geram mais rendimento, em menos tempo e mais prejudicam os solos, a biodiversidade, aumentam as probabilidades de incêndio e consomem mais água? Por que não se aposta na transformação de madeiras mais nobres como o castanheiro e o carvalho? Por que não se incentiva a plantação e manutenção de montados? Por que o Estado deixou de ter guardas florestais? Por que estão as matas florestais nacionais quase ao abandono? Por que estão a ser cortadas árvores centenárias em avenidas, ruas, vilas e cidades, a pretexto de regenerações urbanas e de repavimentação e alargamento de passeios? Por que são cortadas árvores de grande porte para serem substituídas por outras espécies novas? Por que se projetam espaços de carregada nudez betuminosa quando podemos tê-los verdes, luxuriantes e musicados pela passarada? Porque se redigiram leis a limitar a distância das copas das árvores relativamente às casas e a aldeias, se na maioria das situações o cumprimento é impossível e coloca em causa direitos dos proprietários?

Tenho a sensação que grande parte afirma gostar de árvores só para servir conveniências e que, à primeira oportunidade, empunha a motosserra a pretexto que as árvores sujam, crescem muito, largam folhas, tapam o sol e escondem as vistas…

Desconfio que algumas árvores são cortadas pelo valor que têm no mercado…

Com o abate de árvores centenárias fica a perder o ambiente, a qualidade do ar, a estética, a poesia dos espaços e a alma das pessoas que com tanto betão se torna cada vez mais cinzenta…

Há largas décadas, tínhamos a tradição de plantar cedros, plátanos, sobreiros, carvalhos, azevinhos, oliveiras, tílias, japoneiras e magnólias em estradas, praças, recintos festivos, adros, igrejas, escolas e nos jardins das casas. Algumas, poucas infelizmente, sobreviveram até hoje e ostentam orgulhosamente o seu porte que nos permite adivinhar a sua longevidade. São árvores centenárias que gostam de ser abraçadas…

Mas pergunto: com tantos abates de árvores centenárias que tem havido um pouco por todo o lado que árvores mais velhas resistirão?

Como eu gostava que houvesse mais árvores monumentais, daquelas que obrigam a várias pessoas para as abraçar… Que extraordinários são os jardins do Palácio de Cristal, o Jardim Botânico, o jardim da Casa Allen, as ruas do Passeio Alegre, o jardim da Cordoaria e da Sophia, no Porto… Em Arouca, o jardim do Parque Municipal, do Ribeiro de Gondim, do Milenium… Em Alvarenga, o recinto da Capela de Santo António, o largo de Trancoso, os jardins e monte da Vila Guiomar, a árvore centenária dos Botelho…

As árvores são um importante património natural, cultural e imaterial que urge proteger, mas há tantos mistérios para revelar e desconstruir…

Texto de Margarida Rocha