Lembrar-nos-emos deste período pelo modo como alteramos a nossa rotina pós-moderna. Os nossos hábitos mais simples e tradicionais desapareceram por momentos, ao passo que a nossa dependência pelos dispositivos do admirável mundo novo se consolidou. Descobrimos que podemos viver sem estes prazeres proustianos, mas seremos necessariamente mais felizes? Com certeza que não – a nossa vida perdeu cor. Deixamos de vivenciar uma certa aleatoriedade que a vida nos dá, esquecendo temporariamente a beleza das pequenas coisas. Os nossos hábitos mundanos são na verdade cornucópias sensoriais e culturais, que otimizam os nossos sentidos e humanizam a nossa mundividência. Encomendar o nosso jantar através de uma aplicação do telemóvel pode ser cómodo, mas estamos a perder uma experiência cultural extraordinária: a azáfama da clientela impaciente; os gritos histéricos das crianças que brincam em torno das mesas retangulares; o som de um bife a grelhar; o tilintar das panelas e dos talheres; as descrições deliciosas dos cardápios gordurosos; o olhar analítico dos fregueses sobre os demais rótulos da garrafeira; os arrufos sobre a atualidade política e futebolística à mesa; preenchem o nosso imaginário gastronómico e pré-covídico. Até quando a beleza das pequenas coisas nos parecerá distante?

Ao mesmo tempo, os cientistas sociais olharão para este período com curiosidade. A juventude cosmopolita deixou de viajar pelas principais cidades da boa civilização europeia, sentindo-se presa num mundo muito menos globalizado. Os livros que ficaram por ler, ou pelo cansaço ou pela recomendação de terceiros, ficaram parcialmente lidos. Os trabalhadores terciários aprenderam a fazer pão caseiro. A sociedade instruiu-se mais avidamente através das plataformas de streaming, descobrindo atonitamente o quão vetusta é a monarquia britânica e o quão nefasta foi a implosão da central nuclear de Chernobil. Os munícipes aperceberam-se da diversidade paisagística dos seus concelhos, onde, apesar de tudo, há sempre um belo recanto para comtemplar. A palavra “postigo” surgiu inadvertidamente no nosso vocabulário citadino, a par de “zaragatoa”, “calamidade”, “letalidade” e “assintomático” (segundo o dicionário Priberam, estas são algumas das palavras mais pesquisadas no ano de 2020). O conhecimento passou a ser lecionado através de ecrãs, afastando os professores e as crianças da experiência humana que é o espaço escolar. A leitura das expressões faciais também desapareceu momentaneamente, sendo difícil a um comerciante saber se o cliente está satisfeito ou se os nossos amigos acharam verdadeiramente graça a uma piada por nós proferida.

Neste contexto, há também espaço para o ridículo, para o bizarro, para o prosaico e para o patético. É admirável como, candidamente, alguns cidadãos da nossa praça baixam a máscara para comunicar melhor com os caixeiros de supermercado. É sociologicamente interessante observar como o nosso temperamento latino desvaloriza o raio de ação das nossas forças de segurança, ou nos impele a furar os óbices dos principais percursos pedonais. É igualmente gritante verificar como as máscaras são as novas beatas e como os cães se tornaram novamente o melhor amigo do homem. Os portugueses também começaram a valorizar as suas matas, explorando temerariamente os eucaliptais que ladeiam as estradas secundárias dos seus concelhos. A somar, o espírito inquisitorial quinhentista ainda está bem vivo na nossa sociedade, onde familiares e amigos trocam acusações sobre os seus mais recentes convívios sociais. Por fim, o meu preferido: o comprovativo “em casa” que as redes sociais nos proporcionam. Aparentemente é possível informar aos nossos amigos e familiares que estamos em casa e a cumprir escrupulosamente as normas covídicas, dando um ar responsável, progressista e ponderado. São de facto tempos deliciosos para os humoristas de teclado. Ah! Já me esquecia! Evitem comer gomas na via pública e não se esqueçam da mensagem substancial “vai ficar tudo bem”(arco-íris).

Texto de Miguel Brandão