Em Abril de 1974 aconteceu-nos a liberdade, a democracia, o desenvolvimento e a conquista de direitos sociais, após vivermos 48 anos com a epidemia da ditadura, sem liberdade e sem direitos.

Durante dezenas de anos, várias gerações de portugueses deram o melhor de si – muitos foram presos, outros tiveram de abandonar a sua família e o seu país e alguns deram a sua própria vida – na luta contra a ditadura e pela liberdade e desenvolvimento. A sociedade portuguesa estava impregnada com um descontentamento generalizado tão grande e tão sofrido, que aquele 25 de Abril quase parecia impraticável. Nesse dia os sorrisos, os abraços e a alegria eram intermináveis, enquanto em todos os rostos florescia a esperança. O 25 de Abril não é apenas uma data ou um acto, mas sim um processo. Abril abriu as portas da liberdade e da esperança a um povo amordaçado e abriu caminho à instauração de um regime democrático do qual resultaram transformações profundas na sociedade portuguesa. A Revolução de Abril representa muito mais que uma mudança na história de Portugal, representa um grande salto no desenvolvimento político, social e civilizacional do país.

Recordar Abril é reconhecer que conquistamos liberdade, democracia, escola pública, segurança social, serviço nacional de saúde, ordenado mínimo, subsídio de desemprego, contratos de trabalho, justiça, serviços públicos, poder local, cultura, desporto, entrada na União Europeia, participação das mulheres na vida pública e direito aos direitos. Mas recordar Abril é também não aceitarmos retrocessos nem ver sonhos e projetos adiados. Estamos em Abril, vivemos tempos de grande dificuldade, exigência e de uma crise sem paralelo, que também devem ser tempos de solidariedade, unidade e transparência.

Aos 46 anos de liberdade e democracia surgiu uma pandemia sanitária, já há mais de um ano, com consequências e duração ainda imprevisíveis, mas para a qual já apareceram várias vacinas num curto espaço de tempo. Vamos aguardar com cautela, precaução e esperança a imunidade de grupo. É, pois, de salientar que a pandemia arrastou consigo a pandemia económica e social, para as quais ainda não há vacina nem remédio até porque ainda estamos mergulhados na pandemia sanitária e com todos os meios direcionados na sua eliminação.

O mundo vai enfrentar a mais severa crise económica e social que alguma vez conheceu em tempo de paz com consequências generalizadas e devastadoras, embora não sejam iguais para todos. Mais desemprego, mais pobreza, mais desigualdade, mais precariedade, mais sofrimento entre os idosos, mais problemas mentais, doentes e pessoas com deficiências mais vulneráveis, minorias mais desprotegidas e novas formas de desigualdade na passagem do ensino presencial para o ensino online. Importa, pois, que os programas de apoio pós-covid apliquem políticas integradas que abordem em simultâneo o emprego, a defesa dos rendimentos e dos direitos sociais e não deixem ninguém para trás.

Mas todos os problemas existentes, antes deste vírus ter tomado conta do planeta, persistem. Até poderão estar a agravar-se. O problema das alterações climáticas agudiza-se todos os dias, podendo tornar-se numa pandemia sem retorno. O mundo inteiro devia concentrar-se, o mais depressa possível, no seu combate. Afinal, a pandemia pelo vírus Sars Covid-2 e as alterações climáticas não terão feito caminhos separados. Já muitos cientistas equacionaram e a Universidade de Cambridge confirmou que as alterações climáticas podem ter impulsionado o aparecimento do coronavírus que provoca a covid-19. Temos urgência em fazer as pazes com a natureza para enfrentar a crise climática, envolvendo todos em geral e, em particular, os jovens, pois o tempo está a esgotar-se. É a maior ameaça coletiva e do planeta que continua a andar mais depressa do que nós próprios. É uma ameaça existencial para o planeta e para as nossas próprias vidas.

A ciência mostra-nos que as alterações climáticas são a maior ameaça ambiental do séc. XXI, podendo ter consequências trágicas, se nada for feito para as inverter.

Texto de Rosa Morais