Mulheres são mulheres ponto. 8 de março é um dia de luta, não de celebração.

Foi há 164 anos que 130 mulheres foram trancadas e morreram carbonizadas dentro de uma fábrica porque tiveram a coragem de lutar pelos seus direitos e por melhores condições de trabalho. 8 de março é sinónimo de luta e não de festejos.

Cansados de ouvir falar de machismo? Já imaginaram como é viver com ele todos os dias? Já pensaram em todos os preconceitos com que uma mulher lida num dia comum?

Pois então permitam-me que vos dê uma ajuda com alguns exemplos muito concretos:

“O lugar das mulheres é na cozinha!”, “Mas vais sair vestida assim?”, “Estás mais gorda!”, “Estás demasiado magra!”, “É uma maravilha trabalhar com uma cara bonita!”, “Não tens vergonha? Parece mal sair sozinha!”, “A culpa foi dela! Estava mesmo a pedi-las!”. Mas é também muito comum ouvirmos: “Como é ser-se mulher num mundo de homens?”, “Quem manda aqui sou eu!”, “Como assim não sabes cozinhar?”, “Então e os filhos quando chegam?”, “Ah, pois, és mulher, não sabes nem consegues fazer isso.”, “É no que dá deixar as mulheres a mandar, se fosse um homem isto não acontecia!” ou “Que balanço faz do equilíbrio entre a sua vida pessoal e profissional?”.

Aos homens não se fazem estas perguntas porque parece que só a vida das mulheres tem mais do que uma dimensão. Aos homens são se questiona a competência ou o mérito, não se discutem quais foram as suas opções ou escolhas, não se pergunta com quem está ou o que faz, a que horas chega ou como se veste e comporta. Vivemos numa sociedade onde está ainda muito presente a ideia de que o homem deveria impor-se e a mulher deveria calar-se.

Todos os dias há pressão, preconceitos e discriminação sobre as mulheres, seja pela forma como se vestem, pelo aspeto do seu corpo, pela profissão que exercem, pela pressão de casar e ter filhos, pela sua aparente fragilidade física, pelo lugar onde ela pode ou não chegar, pelo que pode ou não fazer ou com quem pode ou não estar. Não podemos nem devemos projetar nos outros as nossas escolhas. Devemos respeitar as suas opções e adaptados às nossas diferenças precisamos de lutar por direitos iguais.

O homem não é mais competente por ser homem, nem a mulher é menos competente por ser mulher. A competência não tem género!

Desempenhar bem uma profissão é uma questão de dedicação, entrega e trabalho.

Porque é que o trabalho doméstico fica à responsabilidade da mulher se ambos têm um trabalho e uma vida lá fora? A limpeza ou a arrumação também não têm género!

Cuidar da casa é responsabilidade de quem lá vive.

Um rapaz pode escolher ser e fazer o que quiser, mas uma rapariga não pode ser nem fazer o que quiser. Porque é que uma rapariga é criada com o pressuposto de que vai ter de se limitar a seguir uma determinada carreira porque “há cursos e profissões que não são para mulheres”?

Os percursos escolares e as profissões não têm género, têm vontade, dedicação e esforço.

Se homem e mulher desempenham o mesmo cargo porque não ganham o mesmo salário? Se homem e mulher são igualmente competentes porque é que é tão difícil às mulheres ascender a cargos de decisão e poder? Porque é que há tão poucas mulheres na política? Porque é que há tantas mulheres vítimas de violência doméstica e no namoro?

164 anos depois continuam as discriminações e desigualdades salariais, as críticas, as ameaças, os abusos, o controlo e os atentados à liberdade e à dignidade. Continuamos a ter mulheres vitimas de violência doméstica e no namoro, vitimas de violações, abusos e assédio, mulheres que são discriminadas, que são precárias e têm baixos salários, mulheres que são sujeitas a trabalhos forçados e que sofrem de assédio laboral, mulheres que não conseguem alcançar cargos de poder e decisão, raparigas que são forçadas a casar na adolescência, meninas que são vítimas de mutilação genital ou mulheres e raparigas vítimas de tráfico e exploração sexual.

Não deixemos que as meninas e meninos que agora nascem e estão a crescer sejam confrontados com estas ideias erradas, vamos desconstruir estereótipos e apostar na formação e na capacitação de todas as crianças e jovens para que possam perceber que somos todos iguais e que o género não determina deveres nem direitos. Vamos construir, em conjunto, uma sociedade mais justa e igualitária, sem preconceitos e desigualdades estruturais.

Se cada um de nós começar hoje mesmo a mudar a sua maneira de pensar e o seu comportamento perante as mulheres, podemos estar certos de que tudo vai mudar. Se nada fizermos ou se nos limitarmos a celebrar o dia 8 de março com ações simbólicas, a discriminação vai persistir.

É uma questão de respeito, justiça e igualdade. Não queremos flores, queremos direitos iguais.

Não esperaremos por amanhã, vamos começar a nossa luta hoje!

Texto de Cátia Camisão