A rádio continua a ser um dos meios de comunicação social que atinge as maiores audiências, continuando a adaptar-se às novas tecnologias e a novos equipamentos. A rádio acompanhou os principais acontecimentos históricos mundiais e hoje continua a ser um meio de comunicação fundamental, principalmente nesta pandemia, levando informação a quem não tem outro meio para a ter e, muitas vezes, combatendo a solidão.

No passado dia 13 de fevereiro assinalou-se o Dia Mundial da Rádio. A data foi escolhida pois foi neste dia que a United Nations Radio emitiu pela primeira vez, em 1946, um programa em simultâneo para um grupo de seis países. A data foi declarada em 2011 pela UNESCO e o primeiro Dia Mundial da Rádio foi celebrado em 2012.

O Discurso Directo esteve à conversa com colaboradores de três rádios locais: Rádio Regional de Arouca (Arouca), Caima FM (Oliveira de Azeméis/Vale de Cambra) e Rádio Paivense (Castelo de Paiva), no sentido de perceber de que forma é que a pandemia afetou o funcionamento da rádio, os maiores desafios, a rádio como meio de combate à solidão e o futuro deste órgão de comunicação social.

Rádio Regional de Arouca, 103.2

A primeira emissão da Rádio TV Regional de Arouca foi em 1986 como rádio pirata e, dois anos depois, em 1988, concorreu à aquisição da frequência e alvará de radiodifusão. Atualmente como locutores afetivos a rádio conta com Adelino Pinho e Tony Noites. Ao longo de 35 anos passaram pela rádio vários apresentadores com o seu programa, que contribuíram para a história da Rádio.

Adelino Pinho começou por afirmar que “a pandemia não veio facilitar nada. Em termos da realização de trabalhos, pouco ou nada alterou, a nossa emissão mantém-se feita dentro dos mesmo moldes. A pandemia afetou sim em termos de receitas da publicidade, o único modo de entrada de dinheiro na rádio, o facto do comércio e restauração ter parado, implicou a suspensão de publicidade”, acrescentando que os “apoios às rádios locais por parte do estado e autarquias não existe, o que existe é um trabalho pago pelas entidades responsáveis, governo e autarquias, que comparados com o mesmo trabalho nas rádios, televisões e imprensa escrita nacional é consideravelmente mais baixo. As rádios locais não são devidamente reconhecidas ou recompensadas pelo governo e câmaras municipais, com mais trabalho, uma vez que somos os mais diretos veículos de transmissão de informação ao povo”.

“Temos a noção de que de facto somos a companhia de muitos ouvintes e os ajudamos a combater a solidão, como ouvimos muitas vezes nos programas com participação de ouvintes, que dizem que somos a sua companhia, e claro que nesta altura de pandemia, a rádio é uma mais valia para ajudar os ouvintes a ultrapassar esta fase”, referiu ainda Adelino Pinho. Considera também que a “divulgação da música portuguesa, os noticiários regionais e nacionais, os programas interativos onde se cria uma ligação entre os ouvintes e os locutores e os próprios ouvintes entre eles, além das diversas reportagens em direto, de várias localidades de Portugal assim como no estrangeiro, forma um laço até de afetividade com os ouvintes”.

Adelino Pinho acredita que o futuro das rádios locais está comprometido: “o distrito de Aveiro tinha 27 rádios locais, hoje são pouco mais de uma dúzia. São vários os fatores que levaram a este desaparecimento e eu acho que nos devemos preparar para o que der e vier. A mais recente sondagem da Marktest coloca uma vez mais a Rádio TV Regional de Arouca como uma das mais ouvidas na região entre as denominadas rádios nacionais, o que nos deixa claro, cheios de orgulho, e por isso agradecer aos ouvintes e a todos os anunciantes que mantém a confiança em nós e que nos dão força para continuar”.

Rádio Caima FM, 97.1

“Este estado de pandemia afetou bastante e continua a afetar, a atividade e funcionamento da rádio, embora se tenham conseguido ultrapassar algumas destas dificuldades com recurso ao teletrabalho e outras operações de funcionamento, que são efetuadas neste momento remotamente, graças à internet. No entanto, a impossibilidade de contactar as pessoas fisicamente, torna o nosso trabalho muito mais difícil”, afirmou um dos colaboradores da Caima FM, referindo também que “o maior desafio é recuperar níveis mínimos de obtenção de receita ou recursos financeiros, para conseguir manter-nos em pleno funcionamento. É um total efeito bola de neve”.

O colaborador considera ainda que a “rádio é a companhia para muitas pessoas, essencialmente no carro, e eventualmente no trabalho. Nesta altura, em confinamento ainda mais e com certeza ajudará a ultrapassar este estado em que vivemos e a solidão”, referindo que é um meio de ligação com a população.

“A rádio local não desaparecerá, enquanto elemento promotor local. As rádios locais terão sempre o seu lugar, enquanto informadoras e promotoras do espaço local onde se inserem e onde as rádios regionais e nacionais, não chegam. As rádios locais no futuro terão o dobro do trabalho, continuando como até agora, a emitir em sinal analógico em FM para os receptores de rádio, de forma a cobrir a população mais idosa sem recursos às novas tecnologias, e em geral em viagens nas viaturas automóveis e eventualmente em locais de trabalho”, disse ainda a concluir.

Rádio Paivense FM, 99.5

A Rádio Paivense está legalizada desde 1989, mas as emissões experimentais começaram em 1985 e em 1986 já tinha estúdios próprios. É constituída por uma equipa de catorze colaboradores: André Duarte, Adriano Pinheiro, Arlindo Alves, Carla Rocha, Emanuel Damas, Hebert Neri, Joaquim Vieira, João Tavares, José Alberto Caetano, Ludgero Cardoso, Pedro Moura, Rui Novais, Sérgio Caetano e Tiago Monteiro Vasconcelos.

Emanuel Damas, colaborador da Rádio Paivense, afirmou que a pandemia veio afetar o funcionamento da estação em vários domínios: “a redução de facturação, matéria noticiosa drasticamente circunscrita devido às inevitáveis restrições e o trabalho dos profissionais da estação passou a ser o mais desencontrado possível, na tentativa de conter algum possível caso de contágio que possa ocorrer que, até ao momento, não sucedeu com trabalhadores nem colaboradores”.

Referiu ainda que a “aquisição de publicidade pelo Estado, pagando antecipadamente a sua difusão, apesar de ter demorado alguns meses, foi no nosso caso um apoio crucial mas que não passou de balão de oxigénio sofregamente consumido. Tivemos pontualmente acesso a lay-off, um mês, não tendo sido relevante o suficiente. Perdermos dezenas de contratos que estavam negociados para vigorar em meses posteriores a Março de 2020 mas que, evidentemente, não pudemos angariar embora já tivéssemos, em alguns casos, emitido promoções que depois não obtiveram o retorno que estava previsto. Devemos realçar que, apesar de tudo, temos clientes de verticalidade a toda a prova que não nos deixam nunca ficar mal assim como a Associação Comercial e Industrial se tem mantido como uma instituição de grande calibre demonstrando conhecimento, preocupação, atenção e carinho pela actividade radiofónica estando sempre disponível para ajudar a encontrar soluções que, de outra forma, poderiam ser difíceis de encontrar”.

Emanuel Damas considera ainda que as rádios locais “ligam as pessoas”: “em Municípios como o de Castelo de Paiva as rádios são o entretenimento diário para populações que, por vezes, outros não têm. As estações locais ligam as pessoas, fazem-nas sentir parte da comunidade e integradas e são, efectivamente valorizadas. O serviço público que as rádios prestam não é, nem de perto, recompensado e os encargos são muitos”.