Tanto a esquerda como a direita escolhem os seus símbolos, os seus heróis e as suas efemérides, numa tentativa de perfumar o seu lastro histórico e os seus contributos civilizacionais. Esta perspetiva histórica dual ganhou outros contornos com a revolução de abril e com o pós-modernismo. As duas famílias políticas batalham por um revisionismo histórico que acrescenta muito pouco à cientificidade dos factos. Há uma clara necessidade em apurar quem foram “os bons e os maus da história” e quem “esteve do lado certo da história”, que, consequentemente, se traduz num maniqueísmo laxista, cego, ingénuo e sobretudo pouco rigoroso. Se a esta perspetiva maniqueísta acrescentarmos as nossas convicções políticas mais ortodoxas, a par da nossa mundividência axiológica contemporânea, os nossos juízos sobre o passado serão sempre distorcidos. O controlo do passado é uma batalha muito antiga – o passado é julgador. Como o escritor inglês George Orwell observou: “quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”. A batalha pelo passado em Portugal verificou-se mais recentemente com a morte do tenente-coronel Marcelino da Mata (o militar português mais condecorado de todo o sempre).

Em primeiro lugar, a morte de Marcelino da Mata comprova que Portugal ainda não discutiu verdadeiramente o que foi a Guerra Colonial Portuguesa (1961-1974), passados 47 anos. Marcelino da Mata é um dos exemplos mais paradigmáticos da complexidade deste conflito ultramarino. Independentemente dos juízos que possamos fazer, Marcelino é fruto das suas circunstâncias históricas: Marcelino era português, guineense, africano e europeu – uma consubstancialidade que nos é difícil de compreender, hodiernamente. Não podemos afirmar que a guerra colonial portuguesa foi necessariamente uma guerra entre o homem branco e o homem negro, entre o europeu e o africano, entre o colonizador e o colonizado. A realidade era bem mais complexa. Os luso-africanos dos territórios ultramarinos portugueses estavam profundamente divididos, compreendendo a sua condição social, os seus vínculos à comunidade branca, os seus laços com Portugal, as suas rivalidades étnicas, os seus cultos religiosos e a sua ideologia política. No fundo já era uma guerra civil antes de o ser. Após a descolonização portuguesa, verificou-se inevitavelmente o eclodir de conflitos fratricidas em Angola (1975-2002) e Moçambique (1977-1992). Em 1974, praticamente metade das forças portuguesas mobilizadas no teatro de guerra africano (Guiné, Angola e Moçambique) era composta por tropas de origem africana. Muitos foram recrutados à força, outros serviram Portugal com o intuito de evitar a pobreza extrema. Alguns, como Marcelino da Mata, optaram por combater os movimentos independentistas, sentindo-se simplesmente portugueses.

O Vietname Português foi um conflito periférico, sujo, anacrónico e extremamente violento. Os jovens portugueses, provenientes da província, chegavam ao cais de Alcântara para embarcar numa viagem que lhes roubaria a vitalidade, a inocência, a juventude e por fim a vida, ao serviço de um regime putrescente que sonhava com um Portugal do Minho a Timor. Os seus adversários, os lutadores independentistas, estavam praticamente entregues à morte, lutando e vivendo espartanamente. Tanto Portugal como os movimentos independentistas cometeram os mais hediondos crimes de guerra, num conflito que durou 13 longos anos. Em suma, não há bons, nem maus – há a lei da sobrevivência, numa guerra que nunca é verdadeiramente daqueles que a combatem. A meu ver, são nestes moldes que devemos compreender quem foi Marcelino da Mata.

Texto de Miguel Brandão