Desde março de 2020 que tudo mudou com o aparecimento da pandemia Covid-19. O sector cultural foi e continua a ser um dos mais afetados, já que parou quase por completo e conta com escassos apoios. A Bandas de Música não são exceção e viram a sua atividade parar de um momento para o outro com o cancelamento das atuações em concertos, arruadas, missas e procissões em festas religiosas e tradicionais.

O Discurso Directo falou com responsáveis das bandas do concelho de Arouca – Banda Musical de Arouca, Banda Musical de Figueiredo e Sociedade Filarmónica Santa Cruz de Alvarenga, bem como da Banda Musical Flor da Mocidade Junqueirense, de Vale de Cambra, no sentido de perceber como se estão a adaptar neste novo contexto de pandemia. Contactamos ainda a Sociedade Artística Banda de Vale de Cambra, mas esta não conseguiu enviar as respostas em tempo útil.

Banda Musical de Arouca (BMA)

“A Banda Musical de Arouca está a enfrentar a pandemia como mais um desafio que tem de ser superado”, começou por dizer Fernando Rui Brandão, presidente da direção. Referiu ainda que num ano normal a banda tem atividades de fevereiro a dezembro, com uma média de 40 atuações anuais. “Com a pandemia deixamos de fazer a tradicionais festas e romarias assim como grandes concertos que realizávamos anualmente, no entanto adaptamos à situação e temos realizado alguns concertos de pequenos grupos de ensemble, sendo que as nossas últimas atuações foram o concerto de Natal com a orquestra ligeira e o concerto de Ano Novo, ambos gravados, sem público e passados em direto nas redes sociais”, contou.

Apesar da pandemia a BMA não está parada, promovendo os pequenos concertos já referidos, bem como a escola de música que se encontra a funcionar via online.

A nível de apoios, a banda conta com o patrocinador e sócios, bem como com a União de Freguesias de Arouca e Burgo e Câmara Municipal “que nos tem apoiado nas atividades que propomos para manter a chama viva da música e da cultura musical em Arouca”. Já por parte do Governo “o apoio no âmbito desta pandemia é zero”.

Fernando Rui Brandão afirmou que a maior dificuldade tem sido a falta de convívio e partilha entre todos: “a banda é uma família muito grande, mas que não pode estar toda junta e o sentimento de ausência e a saudade tem sido o mais difícil de ultrapassar”. “Tenho mantido o contacto com vários elementos, mas com os mais velhos, que já estão em casa há muito tempo, tenho mantido principalmente o contacto telefónico. É claro que o ambiente entre todos é de um estado vazio, falta alguma coisa, falta o convivo entre todos. Mas o mais importante é que todos estão com um sentimento e vontade de ultrapassar a pandemia e podermos voltar o mais breve a estarmos todos juntos”, declarou.

O presidente da direção da BMA considera que “a cultura é importantíssima para todo o desenvolvimento de uma sociedade” e que, no caso específico das bandas filarmónicas, “é uma escola para a vida”, onde são desenvolvidas “competências e aprendizagens individuais em ambiente de grupo e todas estas entre várias gerações”.

Fernando Rui Brandão acredita que quando tudo voltar ao normal “vamos regressar ainda com mais garra, o sentimento de saudade faz com que tenhamos mais vontade e certamente iremos dar ainda mais valor ao tempo que passamos juntos”.

Sociedade Filarmónica Santa Cruz de Alvarenga (SFSCA)

Também a Sociedade Filarmónica Santa Cruz de Alvarenga se encontra parada desde março: “houve várias tentativas de

recomeço de ensaios, mas todas elas sem efeito, tanto por agravamento do estado pandémico como por prudência da Direção. Procurámos manter, em primeiro lugar, a saúde e a segurança dos músicos. Continuámos com a Escola de Música em funcionamento, embora adaptada, recorrendo às novas tecnologias e, sempre que possível, com aulas presenciais, cumprindo todas as normas de higienização e segurança aconselhadas pela DGS”, afirmou José Mendes, presidente da direção.

Num ano normal, a SFSCA tem em média 12 atuações em festas e romarias que incidem, maioritariamente, na zona Norte e Centro, mas também em outras partes do país e organiza cerca de 3 concertos ao longo do ano: Concerto de Apresentação, Concerto direcionado para Sócios/Simpatizantes e Concerto de Natal. Participa ainda em várias atividades culturais. A última atuação da Banda foi em dezembro de 2019, com o Concerto de Natal e Apresentação do Maestro Pedro Almeida.

Com o intuito de manter a normalidade possível, a Escola de Música encontra-se em funcionamento e “procurámos manter o contacto com os Músicos, Alunos, Sócios, Patrocinadores, Comissões de Festas e todos os Amigos e Simpatizantes da Filarmónica. No início do presente ano, alguns dos nossos elementos participaram, em uníssono, juntamente com outros elementos das restantes bandas concelhias, no Concerto de Ano Novo, promovido pela Câmara Municipal de Arouca. Estamos, também, a trabalhar numa proposta de revisão aos Estatutos e pretendemos, brevemente, finalizar a publicação do livro da nossa instituição”, fez saber José Mendes.

A Sociedade Filarmónica Santa Cruz de Alvarenga conta com o subsídio da Câmara Municipal de Arouca e com o subsídio da Junta de Freguesia de Alvarenga, com as cotas dos Sócios, apoios dos Patrocinadores, propinas dos alunos da Escola de Música e com alguns donativos anónimos.

Apesar dos apoios, José Mendes enumera algumas dificuldades: “em termos monetários, manter a Escola de Música em funcionamento é uma dificuldade. Apesar dos Encarregados de Educação pagarem uma proprina mensal, esta só abrange cerca de ¼ da despesa geral. Além disso, tem sido também complicada toda a logística interna e manutenção e reparação dos instrumentos, da casa de ensaio e das viaturas, assim como honrar com o Maestro o seu ordenado que, embora já reajustado, continua a ser uma despesa significativa nas nossas contas. Para fazer face a todas estas despesas, os apoios referidos anteriormente ficam aquém do necessitado. Outra das nossas maiores dificuldades que, já antes da pandemia, se fazia sentir, é a limitação da nossa casa de ensaio. A nossa casa de ensaio tem cerca de 50m2 com 2,5m de altura. Se já é pequena para 50 músicos, o que seria ao manter a distância de 2m de músico a músico, aconselhada pela DGS… É completamente impossível! Atualmente, precisávamos de uma sala com o quádruplo do espaço, para podermos ensaiar em segurança, sala essa inexistente na freguesia. Manter os nossos elementos unidos e motivados para que não se desapeguem da filarmónica é, também, para nós, um ardúo desafio”.

O presidente da direção da banda contou ainda que o ambiente que se vive entre músicos e restantes membros é de preocupação. “Partilhamos a vontade de nos reunir novamente nos ensaios, concertos ou atividades culturais mas, por outro lado, manifestámos preocupação com a nossa saúde e com a dos que nos rodeiam. Ainda estamos longe de ver a luz ao fundo do túnel e, até lá, há muito trabalho que tem de ser feito de modo a manter e honrar a nossa coletividade”.

José Mendes é perentório ao afirmar que “a cultura é a identidade de um povo, de uma sociedade. Através da cultura, cultivamos conhecimento e bons costumes. A cultura, para nós, é uma excelente escola de como se deve viver em sociedade, aprendendo valores tão ricos como a partilha, a união, a confraternização, a amizade, a humildade, a responsabilidade, a ajuda ao próximo, entre outros”.

O responsável refere que a direção tudo fará para que, quando puderem regressar, seja “com mais “garra” do que terminámos, mantendo a ambição de alcançar os grandes palcos nacionais e internacionais, engrandecendo o tão bom

nome da nossa coletividade e da nossa freguesia”.

Sociedade Filarmónica Santa Cruz de Alvarenga

Banda Musical de Figueiredo (BMF)

“A Banda Musical de Figueiredo está a enfrentar esta pandemia com incerteza relativamente ao futuro. Como se sabe esta situação deixou-nos de pernas e braços atados, tivemos que nos reinventar e adaptar para poder-mos fazer algo de forma segura para todos e sem por em risco a saúde dos nossos músicos, alunos, professores, maestro, dirigentes, associados e amigos e como tal foi uma luta diária que ainda continuamos dia após dia”, afirmou José Barbosa, presidente da direção.

No ano de 2019 a Banda Musical de Figueiredo teve 20 saídas e, para 2020, estavam previstas um total de 25 atuações, entre saídas e atuações de iniciativa própria, sendo que não se chegaram a realizar. “Destas atuações a grande incidência são dentro do concelho de Arouca, tendo algumas saídas para os concelhos vizinhos de Vale de Cambra, Oliveira de Azeméis, Castelo de Paiva, mas também um pouco por todo o país. Temos uma festividade na freguesia de Talhas em Macedo de Cavaleiros que somos presença assídua nos últimos 4 anos. Portanto podemos dizer que somos uma banda das terras de Arouca que faz chegar a sua música um pouco por todo o país”.

Também a escola de música da BMF continua a funcionar, em regime de telescola, “com algumas dificuldades resultantes do sistema em si, que não tem o mesmo dinamismo de uma aula presencial, no entanto estamos atentos sempre no sentido de melhorar”, referiu José Barbosa, acrescentando que têm sido realizadas algumas atividades via online, “tendo sido a última pedido a músicos e amigos da banda para publicarem na página do facebook fotos relativas a momentos que foram vivenciando ao longos dos anos”.

No que diz respeito a apoios, a Banda Musical de Figueiredo conta com a ajuda do “Município de Arouca, da União de Freguesias de Arouca e Burgo, assim como de outros apoios a nível privado, que sempre nos apoiaram ao longo dos anos, mas que neste momento se tornam insuficientes para fazermos face a todas as despesas e compromissos”.

José Barbosa afirma que o ambiente neste tempo de pandemia é de ansiedade: “os músicos encontram-se ansiosos por poderem voltar a estar reunidos e partilhar esta arte que é a música. Como se sabe a Banda Musical de Figueiredo é um grupo de amigos e como todos os grupos de amigos anseiam por se encontrarem e partilharem aquilo que mais gostam de fazer; neste momento sinto os músicos e todos os que estão de toda e qualquer forma ligados a nós, neste patamar de ansiedade e com alguma tristeza à mistura pela situação que vivemos”.

“Sinto que vamos voltar com uma garra reforçada. As pessoas sentem falta de estarem todos juntos a fazer música e estão a valorizar a liberdade que tínhamos no passado, estão a acumular as energias para o regresso. Portanto acredito que vamos voltar mais fortes do que nunca”, declarou a concluir.

Banda Musical de Figueiredo

Banda Musical Flor da Mocidade Junqueirense (BMFMJ)

“A pandemia veio alterar radicalmente as atividades da banda. Tivemos que nos adaptar em todos os sentidos, desde logo ao nível da direção. Começamos a reunir quinzenalmente, via zoom, para podermos ir trabalhando de acordo com as medidas que iam sendo tomadas. Os objetivos passaram a ser estabelecidos a curto prazo, pensados de acordo com as medidas em vigor, para que todos os músicos continuassem a ter o mesmo objetivo comum, de manter viva a história desta banda centenária. Ao longo do ano fizemos algumas atividades online, nomeadamente a gravação e lançamento de vídeos através das redes sociais, garantindo que os instrumentos não ficavam parados e o espírito de grupo não desvanecia. A partir de setembro começamos a ensaiar presencialmente, após a elaboração de um plano de contingência, e da nossa sede ser preparada para cumprir todas as medidas em vigor. Os ensaios permitiram-nos preparar um concerto realizado em outubro, que foi transmitido em live-streaming, com a banda dividida em dois grupos, de forma a manter o distanciamento dos músicos em palco. Após este concerto começamos a pensar no já tradicional concerto de Natal. Contudo, com o agravamento do número de casos na nossa região, foi necessário voltar a suspender temporariamente os ensaios e cancelar o concerto. Ainda assim, a quadra natalícia não podia passar em branco: gravamos duas músicas, com vídeo, acompanhada de cantora, músicas que foram depois publicadas nas redes sociais. Desta forma a conseguirmos levar um pouco de música a todos os que nos acompanham. Foi necessário adaptar também a atividade da escola de música, garantido a motivação dos alunos e até a captação de novas inscrições. As aulas de instrumento e formação musical passaram para o regime online, garantindo a segurança de todos, mas também permitindo a continuidade do trabalho de aprendizagem dos novos músicos. Desta forma, foi possível manter as habituais audições de final de ano e de Natal, ainda que online. Neste momento mantemos as reuniões quinzenais, estando já a pensar no próximo ano, sabendo que trará novamente vários desafios, os quais estaremos prontos a enfrentar”, começou por explicar a direção.

A última atuação presencial da BMFMJ foi em dezembro de 2019, no concerto de Natal, sendo que num ano ‘normal’, faz cerca de 30 atuações um pouco por todo o país.

No sentido de manter a banda ativa, a direção tem tentado promover várias atividades: “desde que a pandemia tomou conta das nossas vidas, que a nossa preocupação passou e passa por planear e desenvolver atividades que possam manter o nosso grupo ativo e coeso. A esse propósito lançamos alguns desafios aos nossos músicos, alguns deles de carácter interno, outros mais direcionados para a comunidade em geral. Alguns desses exemplos são os vídeos que promovemos internamente, onde gravamos individualmente alguns trechos de reportório que planeávamos poder executar assim que a pandemia nos permitisse, outros desses trabalhos passaram por realizar alguns ensaios, dividindo a banda em dois grupos para que fossem cumpridas as regras sanitárias impostas pelas autoridades, nos períodos em que o confinamento era mais ligeiro e que deram como resultado um concerto em livestreaming em outubro e a gravação de dois vídeos em dezembro que partilhámos com a comunidade em geral. Para além disso, continuamos com a nossa escola de música em funcionamento pleno, ainda que a maior parte do tempo em regime online. Não nos resignamos e procuramos constantemente adaptar-nos às circunstâncias e criar novos e diversos desafios, para que o vínculo que temos com a nossa banda continue vivo e forte como é nosso apanágio”.

Em relação a apoios a banda Junqueirense “conta com poucos apoios quer camarários, quer dos mecenas. Anualmente contamos com o apoio ao associativismo disponibilizado pela câmara municipal, apoio esse que mal dá para colmatar as despesas anuais que a banda tem com a manutenção da sede e instrumentos. Quanto aos apoios que o Governo tem disponibilizado são claramente insuficientes. As verbas despendidas pelo Governo já não são muitas face a outras áreas e mesmo assim estes apoios são canalizados e controlados pelos artistas mais influentes, pelas orquestras nacionais ou outras que têm protocolo anual com o estado. Sendo que praticamente nenhum valor chega às ditas bandas filarmónicas”.

A direção da banda Junqueirense afirma que as principais dificuldades se prendem com “a inexistência de uma sala de ensaio, que possa apesar das restrições sanitárias permitir que o grupo possa trabalhar em conjunto e o sentimento de frustração e incerteza que sentimos que se vai apoderando do grupo à medida que o tempo passa”, acrescentando que o ambiente é de expectativa de se poderem voltar a reunir. “Os ensaios estão suspensos, as cadeiras vazias, a sede continua fechada, mas os instrumentos não estão parados. Alegra-nos o facto de nesta coletividade, se trabalhar para um bem comum, e o bom ambiente que se vive é motivo para querermos voltar a estar juntos para assim continuarmos a desenvolver esta arte divina que é a música”.

A direção acredita que o regresso vais ser feito “com mais garra e determinação do que nos tempos pré-pandemia. Estes confinamentos demonstraram que toda a estrutura que compõe a banda Junqueirense sente a falta dos ensaios, das festas, dos convívios e de todas as restantes atividades que a filarmonia nos proporciona. A adesão às atividades realizadas pela banda de forma virtual (vídeos, audições, tertúlias) foi muito positiva, mas, quando houve oportunidade de realizar ensaios, ainda que em grupos pequenos, os músicos aderiram em força, demonstrando que o gosto pela música e o “amor à farda” e àquilo que a banda Junqueirense representa não desapareceu. Apesar da distância e de todas as dificuldades, esta família continua unida pelos laços de amizade, companheirismo e entreajuda que definem esta instituição centenária e que certamente irão perdurar no tempo. Aquilo que mais queremos é, sem dúvida, juntarmo-nos, fazer música e levar o bom nome da nossa terra de norte a sul do país, com alegria e união, sem renegar ao profissionalismo e empenho que colocamos sempre nos nossos compromissos”.

Banda Musical Flor da Mocidade Junqueirense