Já quase há um ano que os portugueses lidam com a palavra confinamento e tudo o que ela engloba. Quase um ano depois de ter sido decretado o primeiro confinamento o país volta a fechar-se em 2021, situação que dura há sensivelmente quatro semanas. Aqueles que podem trabalham em casa, ou pelo menos tentam, e lutam para manterem a saúde mental e física, outros que necessitam mesmo de se deslocar para os seus locais de trabalho, por exercerem uma atividade que só se realiza exclusivamente com a sua presença, tentam vencer a rotina e os perigos a que estão expostos, mais do que qualquer um. Não esquecendo quem viu os seus locais de trabalho e as suas rotinas e regras laborais completamente alterados pela pandemia e que tentam, atualmente, adaptar-se a um novo ambiente. As formas de praticar o trabalho estão a mudar diariamente, com este contexto epidemiológico e esta situação requer um esforço coletivo, assim como, uma adaptação geral para uma realidade laboral que nunca mais será a mesma.

Marisa Duarte Auxiliar de Ação Educativa-Arouca

 “O meu trabalho ficou muito mais difícil, pois as escolas tiveram de se adaptar a este novo tempo, as regras ficaram muito apertadas, a vigilância dos alunos é feita de uma forma mais rigorosa. A desinfeção dos espaços é feita de uma forma sistemática.”, realça a jovem ,(36 anos), auxiliar de ação educativa, há 8 anos, e neste momento a trabalhar na Escola secundária de Escariz.

Marisa conta que na escola onde trabalha têm alunos desde o 5º ao 12º ano, e segundo a sua experiência o que se torna mais difícil é conseguir que os mais pequenos tenham comportamentos responsáveis. “Existe a constante necessidade de alertá-los para que nos recreios mantenham as máscaras, mantenham a distância, desinfetem ou lavem as mãos o mais possível. Nós funcionários ficamos com uma responsabilidade acrescida. Na manutenção dos espaços a desinfeção é muito rigorosa, não podemos correr riscos.”, acrescentou.

A auxiliar educativa expôs que no seu local de trabalho todos têm funções bem definidas, todos têm um plano diário que foi realizado de acordo com o horário dos alunos, desde a vigilância de recreios à desinfeção dos espaços. Reafirmou ainda que em março de 2020 foram-lhes dadas várias indicações de como deveriam funcionar, assim como uma formação dada por elementos do exército de como deviam fazer a desinfeção e a importância do uso de máscara.

No que respeita ao facto de viver em Arouca, afirma que gosta muito viver no concelho “, é verdade que tenho amigos e familiares que vivem em meios urbanos e para eles foi bem mais difícil, tenho dois filhos e consigo mantê-los bastante ocupados com atividades que não conseguia numa zona urbana, eles podem ir saltar, correr e sujar-se no quintal quando o tempo o permite, irem á oficina do pai e darem asas à imaginação com o que encontrarem.”

Confessou que tem uma rotina, que tenta conciliar o trabalho e as aulas das crianças durante a semana e ao sábado e domingo fazem atividades caseiras como torneios de domingo, pinturas, receitas e tentam estar o máximo de tempo possível longe de um ecrã. “O que me preocupa mais nesta altura é a incerteza de tudo e a escola dos meus filhos. O aproveitamento não é o mesmo, todas as atividades que tinham como escape tal como o futebol ou a piscina, atividades essas onde eles socializavam, estão paradas, só restam as tecnologias e as redes sociais. Hoje temos dependência de tecnologia para tudo, tudo tem de ser feito online, a maior parte dos problemas são resolvidos por via internet ou telefone. Conheço pessoas próximas que têm comércios locais e estão a passar dificuldades porque não podem trabalhar e dependem desse rendimento para sobreviverem e pagar as suas contas. O que será de nós se não podermos fazer coisas simples e que nos fazem felizes como sentar numa numa esplanada e beber um café enquanto os nossos filhos brincam ali perto e as pessoas passam e param para falar um bocadinho.”

Sara Castro Engenheira Industrial-Arouca

“Sara Castro, 24 anos. Fui técnica de melhoria contínua no grupo Polisport S.A, durante 1 ano, e de há outro para cá que sou bolseira de investigação na Universidade de Aveiro.”, apresenta-se.

Desde março de 2020 que Sara, por indicação da Universidade de Aveiro, se encontra em teletrabalho. Revela que na sua profissão não são exigidos horários rigidamente fixos, no entanto, como estava habituada a seguir um ponto decidiu continuar nesse formato.

“Com o teletrabalho foi necessário reajustar esses horários dedicados, sendo que passou a existir uma mistura de rotinas pessoais com profissionais. Outra grande diferença marcante para mim passou pela inexistência presencial de colegas de trabalho e de um ambiente profissional e dedicado, o que claramente trouxe novos desafios.”, confessou a jovem. Referiu ainda que com a chegada da pandemia tanto ela como a restante equipa, que trabalham como analistas de processos de negócios, tiveram um grande entrave pois deveriam analisar os processos fisicamente nos locais destinados, e com a chegada da pandemia a coisa mudou de figura. “Todos tiveram de reajustar e o que seria um projeto 100 presencial passou para um projeto 95 % online.”

Desabafou ainda que nesta segunda quarentena que o cansaço psicológico está a notar-se mais porque toda a gente anda mais desmotivada, para além disso os projetos foram ameaçados, os budgets reajustados, as pessoas já não estão em sintonia, e que existem desafios que têm de ser ultrapassados.

Sara adiantou ainda que teve de separar a vida pessoal da profissional reservando um espaço da casa 100% para o trabalho, acrescenta que tenta dormir 8h diárias, alimentar-se bem, tenta arranjar-se todas as manhãs, (como se fosse sair de casa) e depois de almoço, antes de regressar ao trabalho, vai até ao jardim para respirar e espairecer. Adiantou ainda que já fez confinamento na cidade (Aveiro) e agora em uma zona mais rural (Arouca), e que ambos os locais têm vantagens e desvantagens. “Claro que não tinha tanto espaço livre sem sair de casa como tenho em Arouca. Aqui posso passear à vontade e respirar ar puro sempre que me apetecer sem me preocupar com nada. Mas na cidade também nada me proibia de dar uma corrida ou uma caminhada para desanuviar como faço cá. E também como via mais pessoas na rua, tinha uma sensação de solidão menor. Para mim o pior da cidade é a noção e o pensamento constante da presença de um vírus e dos mil e um cuidados a ter. Ainda não tinha saído do prédio e já estava cheia de preocupações. Aqui na aldeia se não for pelas notícias, até nos esquecemos que algo de errado está a acontecer “ (ri-se).

Sara Castro termina o seu testemunho dizendo que, nesta altura, como está confinada à tanto tempo, já sente falta de tudo. Das reuniões de fim de semana com a família, de estar com os amigos, com os quais contacta por videochamada mas afirma não ser a mesma coisa, e do namora o qual não vê há mais de um mês por serem de cidades diferentes. “Claro que todas estas coisas acabam por pesar muito no nosso bem-estar emocional. Tento-me sempre reinventar apesar de ter consciência que há sempre alguma coisa que acaba por ficar em standby.”, termina.

Isabel Mota auxiliar de ação direta-Castelo de Paiva

Isabel Mota é ajudante de ação direta num lar em Castelo de Paiva, há 10 anos, tem 48 e realça que as pessoas no seu local de trabalho andam mais tristes, desde que começou a pandemia, e nota que existe um maior cuidado na higienização pessoal e dos espaços.

O maior obstáculo que aparentemente enfrentou foi o uso da máscara por longos períodos, a qual só tirava para almoçar. “O uso da máscara também afetou os comportamentos e gerou uma quebra de afetos por não podermos ver as feições da pessoa, nem estar muito tempo no mesmo espaço.”

Isabel admite que ter de se adaptar a outras valências, para substituir colegas, também não lhe foi fácil, assim como as quebras e pausas no trabalho devido ao confinamento. Afirmou que a sua rotina é imprevisível, tendo apenas como certo a realização do transporte de formandos para o local da formação, pela manhã. ”O restante dia tem algumas situações previstas, mas sempre suscetíveis a alterações.”, acrescentou Isabel.

A auxiliar de ação direta confessou que a falta que sente dos amigos é imensa e que jantares ocasionais com amigos e reuniões de família tornaram-se quase proibidos “No meu caso, o tempo passou a ser mais focado para a família do agregado, para o trabalho, a horta e televisão. Tenho andado bem e a tentar manter um pensamento positivo em que irá ficar tudo bem.”

Margarida Soares Operadora de Loja-Vale de Cambra

Margarida Soares vive em Vale de Cambra, trabalha num local considerado de bem essencial, em atendimento ao público, e admite não ter sentido grandes alterações com a chegada da pandemia, tirando certos cuidados que se começaram a ter, tais como, o distanciamento social e a higienização das superfícies com mais regularidade. Margarida continua a trabalhar presencialmente e com a chegada da pandemia tem atendido pelo postigo, (tendo este tipo de comércio o privilégio de ter esta opção com menor contacto). Confessa que, neste momento, realiza a rotina casa/trabalho e que, fora isso, apenas se desloca ao supermercado para realizar as compras essenciais.

“Vivo numa zona urbana, e por sorte no centro, o que facilita algumas coisas, por exemplo o acesso a farmácias, cuidados de saúde ou a entrega de take away ao domicílio. Num meio rural, acredito que seja mais difícil a adaptação à nova realidade.”, acaba por afirmar Margarida. O maior obstáculo que a vale cambrense admite ter prende-se com o encerramento das escolas/creches, visto que nem ela nem o companheiro se encontrarem em teletrabalho e que desta forma têm de se organizar para ficarem com o seu bebé de 10 meses.

Explica que com uma criança em casa acabam por não ficar com tempo livre para eles próprios, e que neste momento, já sentem muito falta da família, de festejar datas especiais, conviver, abraçar, sair para tomar café e conversar. ”Temos saudades da normalidade e de ir de férias, ao fim de semana tentamos tirar sempre 20 min para “desconfinar”,fazer uma caminhada e respirar ar puro.

A jovem mostrou ainda a sua preocupação a nível social, mais precisamente, ao nível do desemprego, que na sua opinião acredita que irá atingir números acentuados. No que toca a saúde e bem estar crê, repetindo as palavras de esperança, que “tudo vai ficar bem”, apesar de que, como afirmou, adaptações a esta nova realidade irão ter cada vez mais de se instalar.

Marisa Duarte-Auxiliar de Ação Educativa