Controla as tuas chamadas ou as tuas redes sociais? Faz-te sentir mal com o teu corpo? Implica com a roupa que vestes? Quando sais com amigos passa o tempo a enviar-te mensagens? Impede-te de falares com outras pessoas? Não te dá espaço? No final de cada discussão fica sempre uma ameaça no ar?

Se houver pelo menos um sim a uma destas perguntas, é um sinal claro de que algo está errado.

As relações são e devem ser encaradas como pilares da nossa construção coletiva, capazes de nos enriquecer emocionalmente, proporcionando momentos de felicidade, num processo conjunto de construção de vivências satisfatórias para ambos, assente no amor e na comunicação, em sonhos e projetos estruturados a dois, alicerçados no respeito e na liberdade individual. Contudo, e em sentido inverso, são cada vez mais as relações que resvalam bem para lá dos limites do aceitável, criando espaços de sofrimento e angústia, de repressão, dor e desrespeito, em lugares que deveriam ser de segurança, alegria e bem-estar.

No caso concreto dos jovens, os dados atuais mostram que o número de casos de violência no namoro tem vindo a aumentar, ano após ano, fazendo com que estes experienciem relações de intimidade abusivas, marcadas pelo desconhecimento ou desvalorização das formas de violência a que podem ou estão sujeitos. Existe uma dificuldade clara em estabelecer limites e compreender os vários tipos de violência existentes, daí a importância de definirmos e difundirmos estes conceitos, de forma clara, para que consigamos prevenir situações de abusos ou violências no namoro. Não podemos continuar a considerar como normal o controlo, os ciúmes, as críticas e as agressões. Este é um crime público e, por isso, cabe-nos a todos, enquanto conhecedores de casos de violência, alertar as vítimas e fazer a devida denuncia às autoridades.

Os episódios de violência no namoro tendem a ser desvalorizados, seja pela ideia errada de que o que aconteceu foi irrelevante, de que estamos a exagerar ou de que não volta a acontecer porque gostamos muito de quem está ao nosso lado. Importa que sejamos capazes de identificar os comportamentos violentos nas relações, impondo limites claros, prevenindo situações de abusos e promovendo relacionamentos saudáveis. Segundo a APAV – Associação de Apoio à Vitima, a violência no namoro é definida como um ato de violência, pontual ou contínua, cometida por um dos parceiros (ou por ambos) numa relação de namoro, com o objetivo de controlar, dominar e ter mais poder do que a outra pessoa envolvida na relação. A violência pode ser física, sexual, verbal, psicológica ou social, tendo objetivos muito claros: magoar, humilhar, controlar e/ou assustar o outro.

Os dados de 2020 indicam que a PSP recebeu 6 queixas de violência no namoro por dia e mostram que 58% de jovens que namoram ou já namoraram reportam já ter sofrido de pelo menos uma forma de violência por parte do/a atual ou ex-companheiro/a; e 67% de jovens consideram como natural algum dos comportamentos de violência que sofrem ou sofreram. Este estudo aponta para números extremamente elevados no que diz respeito à aceitação, tolerância e legitimação de formas específicas de violência, como a violência psicológica ou a social, exercidas, por exemplo, através de atitudes de controlo nas redes sociais, na forma como se vestem ou nos hábitos de convívio – dados de 2020 do Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta e da Associação Plano i.

Ter explosões de raiva imprevisíveis e regulares e culpar o outro por esse comportamento agressivo ou tentar denegrir a sua imagem, manipular para conseguir o que se quer, controlar o telemóvel ou as redes sociais, não deixar o companheiro/a sair com amigos e criticá-los, obrigar a mudar o comportamento para o/a agradar, criticar, desvalorizar, humilhar ou ignorar as necessidades do outro, exigir e/ou divulgar fotografias íntimas, empurrar, puxar o cabelo, dar uma estalada ou bater, forçar relações sexuais ou criticar o corpo do namorado/a, dizendo-lhe como deve ou não ser a sua aparência, são exemplos claros de violência, geradores de um sofrimento profundo e duradouro, que afetam negativamente o bem-estar, a auto-estima e a saúde mental de quem deles é vítima.Por desconhecimento ou desvalorização, são muitos os jovens que consideram aceitável a violência no namoro. Reconhecendo que esta é uma experiência muito complexa e difícil de ultrapassar, o primeiro passo é conseguir perceber o que está a acontecer, reconhecendo os sinais que demonstram a violência existente na relação, não devendo nunca haver lugar para o sentimento de culpa por parte da vítima, face ao que aconteceu ou está a acontecer. Procurar ajuda é o ponto de partida para a libertação, seja através do recurso às linhas de apoio à vitima, totalmente confidenciais e com profissionais experientes e comprometidos no apoio, seja com recurso a um amigo ou familiar mais próximo com quem se possa desabafar e procurar apoio.

Acreditar e construir relações saudáveis, assentes no respeito e na tolerância é uma luta e um desafio que é de todos. Cabe a cada um de nós ser responsável por acabar com as relações abusivas, erradicando todas as formas de violência nas relações, sejam elas de amor ou de amizade. Precisamos de cultivar e apostar na prevenção primária da violência no namoro, promovendo relacionamentos saudáveis, assentes no respeito pela singularidade e vontade do outro, pelas suas necessidades e interesses.

Que a vergonha e o desconhecimento não nos impeçam de ter a coragem e a força necessárias para sair de relações abusivas. Que seja hoje esse dia, o dia da libertação definitiva.

Amar não é sofrer.

O ciúme, o controlo, a crítica e a agressão não são amor, são tão só e apenas, violência.

Se te faz sofrer é porque afinal não era amor.

Cátia Camisão