Portugal e o mundo estão a passar uma das maiores provas de fogo de sempre. A pandemia de Covid-19 afetou a vida de todos os cidadãos de uma forma brutal, isto acontece porque o nosso quotidiano está a sofrer alterações profundas a todos os níveis. Ninguém esperava que algo que ninguém pode ver ou tocar pudesse alterar os nossos hábitos, rotinas ou contactos de uma forma tão radical. No entanto, é facto que, há já quase um ano que lidamos com esta realidade e o Discurso Direto decidiu mostrar a maneira como este flagelo está a afetar uma das franjas mais frágeis e ao mesmo tempo mais fortes da nossa sociedade, ou seja, quais as repercussões que o coronavírus está a ter no ensino dos jovens e na sua vida pessoal, e também dos respetivos encarregados de educação e docentes, que vivem no concelho de Arouca. Como as medidas sanitárias de combate à Covid não permitiram a deslocação e o apuro no domicílio dos intervenientes dos factos para a realização desta reportagem, estes fizeram chegar os seus testemunhos à redação.

Os testemunhos dos alunos

Bárbara Castro tem 12 anos, anda no sétimo ano, vive em Moldes e na sua curta existência e percurso académico nunca passou por um ano letivo tão atribulado como o último. Nos últimos 10 meses esta é a segunda vez que a Escola Secundária de Arouca (à semelhança do resto do país) encerra e os alunos se vêm obrigados a ter aulas à distância, e pela via online (para quem possuiu computador). Quando questionada sobre a forma como tem lidado com estes encerramentos Bárbara afirma que tem lidado bem e mal ao mesmo tempo.

“ Por um lado, este segundo encerramento acaba por ser mais parecido com uma pausa na atividade letiva do que o confinamento de março. Tenho mais tempo para conciliar os trabalhos com outras atividades que gosto de fazer, ao contrário do que aconteceu no ano passado onde a carga de trabalhos e as aulas não o permitiam. Por outro lado, neste período, tem sido mais difícil abstrair-me das notícias alarmantes que todos os dias vejo na televisão e continuar a fazer a minha vida normal”, adiantou a estudante.

A jovem também salientou que um dos maiores obstáculos com que se tem deparado desde o início da pandemia, no que respeita à aprendizagem e ao estudo, foi a falta de interação com os professores. Justifica esta situação com a dificuldade que existe em conseguir expor as dúvidas nas aulas não presenciais, pois numa sala as aulas tornavam-se mais interessantes e didáticas, na sua opinião.

“Tem sido essa a principal dificuldade, a concentração durante as aulas, pois torna-se complicado distinguir o espaço de trabalho e o espaço de brincadeira, visto que estes se fundem.”

Bárbara confessou que antes era um pouco difícil estar a par de toda a tecnologia requerida para acompanhar as aulas online e das plataformas destinadas ao ensino, mas que com o hábito esta tornou-se uma realidade fácil de aceitar.

“Penso que a informação acaba por chegar na mesma aos alunos mas sinto que necessitei de melhorar muito a autonomia com que desenvolvia os trabalhos porque já não temos o contacto tão próximo com o professor”.

Um dos tópicos trazidos à conversa centrou-se em quais os constrangimentos que existiram quando os alunos ainda frequentavam o ensino presencial mas tinham de ir de máscara para o estabelecimento de ensino, não podiam tocar ou aproximar-se dos colegas e permanecer certo tempo dentro das salas e nos intervalos. Perante este assunto Bárbara confessou que o que lhe fez mais confusão foi o facto de, apesar de poder estar com os colegas, esta convivência não podia ser feita da mesma maneira que antes.

“Nos intervalos não podíamos estar tão próximos e tínhamos de estar de máscara o que transformava um momento de descontração num momento de receio de contágio. Outro aspeto que me meteu alguma confusão foram as aulas lecionadas com máscara, porque por vezes dificultava a nossa compreensão em relação ao que professor explicava.”

De lembrar que o vírus SaRs.CoV-2 não deixa apenas sequelas físicas, vários especialistas têm alertado sobre os traumas que esta pandemia está a deixar nos jovens adultos e mesmo adultos e na necessidade urgente que existe no acompanhamento psicológico permanente. Bárbara Castro, pessoalmente, revela que para ela não tem sido muito difícil de lidar com esta situação porque vive numa aldeia e pode fazer atividades ao ar livre e em segurança.

“Acredito que se morasse numa grande cidade seria muito mais difícil de lidar com toda esta situação.”

A jovem estudante aproveitou para deixar uma mensagem que na sua opinião é mais um conselho. Ou seja pediu para os jovens e o resto dos cidadãos respeitarem as regras para que não “seja preciso mais um ano inteiro da vida de todos nós, vivido pela metade.”

Lara Pereira tem 12 anos, anda no sétimo ano e vive na Ponte de Telhe e confessa que tem lidado bem com estes momentos de interrupção letiva, afirma ter tido calma e paciência, pois sabia e sabe estamos a passar um momento difícil.

“Os maiores obstáculos com que me deparei foi ter aulas online pois como era a primeira vez que o fazia, e não estava habituada, a aprendizagem não era igual como acontecia na escola”

A jovem salientou que tirou todas as dúvidas que tinha, mas acredita que a aprendizagem não era igual à que acontecia na escola, e que por esse mesmo motivo podia ter tido menos dúvidas, porque a matéria não estava tão bem organizada e faltou comunicação. Lara confessou que o que lhe causou mais constrangimento nesta forma menos ortodoxa de aprendizagem, mesmo quando estava a ter aulas presenciais, era o facto de ver toda a gente na escola (colegas e professores) de máscara e não puder abraçar os seus “amigos”.

“Pessoalmente não tenho estado ansiosa e não tenho conhecimento de nenhum amigo que esteja”, de frisar que Lara deixou bem claro que o que está a faltar é a comunicação, seja ela entre colegas ou professores.

A estudante do secundário aconselha a que todos fiquem em casa e se protejam, pois acredita que só assim tudo voltará à normalidade, “se todos colaborarem”.

Encarregados de Educação falam sobre os constrangimentos deste novo confinamento

Fernanda Figueiredo é encarregada de Educação de Bárbara Castro e tem 47 anos, no seu ponto de vista o segundo encerramento das escolas tem sido mais complicado que o primeiro.

“As pessoas estão cada vez mais saturadas deste vírus e dos constrangimentos que ele traz para as nossas vidas. Sinto que isto também me tem afetado. O novo encerramento das escolas é necessário mas vem mais uma vez trazer para casa e para os pais as responsabilidades que antes estavam nos estabelecimentos de ensino. A nível profissional a pandemia também trouxe alguns aspetos negativos, visto que trabalho na área das limpezas domésticas. Com o confinamento não me é possível exercer o meu trabalho tanto quanto gostaria”.

Para a encarregada de educação o facto de a sua filha ficar mais distraída e mais focada na TV e nas brincadeiras do que nos deveres escolares é uma condicionante e sente-se obrigada, como relatou, a chamá-la mais vezes à atenção. Fernanda adiantou ainda que o seu dia-a-dia tornou-se mais frenético porque para além das tarefas habituais que realizava, relacionadas com a casa e com a sua profissão, redobram-se as responsabilidades parentais.

Fernanda acredita que os métodos de ensino que arranjaram para substituir as aulas e as avaliações revelaram-se eficazes adequando-se às necessidades dos alunos. Na sua opinião a disciplina de Educação Física foi a mais prejudicada com o ensino à distância, porque não havia maneira de garantir que todos os alunos faziam os exercícios, acredita por isso que muitos negligenciaram a atividade física.

Revelou ainda a sua preocupação em relação ao ambiente que se criou na escola aquando as aulas presenciais. “Durante este período sinto que ela continuava a gostar de ir para a escola apesar de tudo, o que é bom. Mas vejo que costumava chegar a casa mais cansada e mais abatida no final do dia. Penso que as regras implementadas nas escolas são fundamentais e tranquilizam muito os pais, mas tornam a escola num local de muita tensão onde as crianças se sentem pouco à vontade. O que faz com que as regras às vezes sejam deixadas um pouco de lado”, confessou a encarregada de educação.

Fernanda não deixou de referir que sentiu algumas mudanças significativas “mudanças nos hábitos alimentares e nos comportamentos, contudo, nada de anormal para a idade e para a situação que vivemos. “Sei que estes tempos estão a ser muito difíceis para pessoas com problemas mentais que viram as suas situações piorarem devido às circunstâncias. Principalmente para os jovens, faixa etária onde a interação social é muito importante para o desenvolvimento.”

Finalizou o seu testemunho agradecendo o trabalho dos professores  e auxiliares que, a seu ver, tudo têm feito para melhorar a aprendizagem dos alunos e para que estes não se sintam desligados da escola num período tão adverso como este. “Quero também deixar um apelo a todas as pessoas (e leitores deste jornal) para se cuidarem e assim também cuidarem de todos os outros”.

A encarregada de educação de Lara Martins afirma que lidou com bastante dificuldade aos dois encerramentos da Escola Secundária de Arouca, no que diz respeito às aulas presenciais. Céu Coelho tem 43 anos e admite que os maiores obstáculos relativamente à aprendizagem da Lara foram nas aulas presenciais, visto que ambas não estavam habituadas à metodologia utilizada, situação que causou uma estagnação na evolução da adolescente. Céu admite também ter mais responsabilidade com a filha em casa.

“Acho que as dúvidas não têm sido todas tirada pois é mais difícil conseguir tirar dúvidas a ter aulas online do que presenciais”, proferiu a educadora. Céu afirmou que o facto de a filha ter de ir de máscara para a escola lhe deixou marcas porque além disso teve de ver os amigos todos de máscara, coisa que nunca tinha acontecido, além de ter de ficar muito tempo dentro da sala de aula sem espaço nem liberdade.

“Sinto que a Lara tem andado com muita ansiedade.”, finalizou a encarregada de educação meio que em jeito de resumo para a situação que estão a passar no momento.

Céu Coelho aproveitou para advertir para todos ficarem em casa e se protegerem, lançando palavras esperançosas: “se todos colaborarmos, tudo pode voltar à normalidade”.

Testemunho de um docente

Regina Almeida, professora de Português e Francês: “as primeiras semanas foram particularmente difíceis e stressantes”

Regina Almeida tem 46 anos, leciona há 24 anos, deu aulas em Castelo de Paiva, Tabuaço, Vilela, Campo Maior, Vale de Cambra e nos últimos 13 estabeleceu-se em Arouca onde dá aulas de Português e Francês.

“O encerramento das escolas, no ano passado, originou uma fase de ensino-aprendizagem muito complicada. Foi tudo muito rápido, não tínhamos esta experiência na nossa vida profissional, nem os alunos estavam preparados para as mudanças. No entanto, houve uma tal junção de esforços que num instante estávamos todos online. Não foi um período fácil, pois além de lecionar e de ter muitas questões escolares para resolver, relacionadas com a dinâmica do agrupamento e não apenas com as aulas em si, tinha também os meus filhos nas suas aulas, todas as tarefas de casa…enfim, as primeiras semanas foram particularmente difíceis e stressantes, a escola inundou literalmente a minha vida e parecia não ter tempo para mais nada.”, começou por explicar a docente.

Regina Almeida acredita que a sua primeira experiência de ensino à distância permitiu-lhe adquirir novos hábitos de trabalho muito mais ligados às plataformas digitais, permitindo-lhe um contacto contínuo com os alunos de forma a explorar outras estratégias de ensino-aprendizagem. No entanto, a professora ressalta que o facto de os alunos assistirem às aulas a partir de sua casa, fez com que muitos se desligassem das rotinas escolares e se afastassem ainda mais da escola.

“Além disso, nem todos os professores (nem alguns alunos) tinham as competências tecnológicas necessárias. E para estes, os primeiros tempos implicaram o aprofundamento das suas competências”, acrescentou Regina Almeida.

Para a professora do secundário, “neste momento, um dos principais obstáculos prende-se com a necessidade de dotar todos os alunos dos instrumentos tecnológicos básicos para que não se verifiquem as disparidades sentidas no ano passado, já que muitos dos nossos alunos não tinham computador, não tinham dados móveis suficientes ou não tinham câmaras nos seus portáteis. Receio, pelo que ouvimos nos jornais, que esta barreira seja sanada atempadamente para que o ensino à distância arranque pleno, de forma equitativa, na data prevista.” 

Relativamente à questão que o Discurso Directo lançou sobre se os alunos não estariam mais estagnados, devido aos meses que passaram com o ensino à distância, Regina Almeida acredita que esta hipótese está fora do baralho. “A vontade de voltar ao presencial era geral e rapidamente os alunos entraram no ritmo. É claro que com a metodologia de ensino por computador o ritmo é outro, os alunos não aprendem da mesma forma, não é certamente tão eficaz como o ensino presencial, em sala de aula, onde o professor se consegue aperceber mais facilmente das dificuldades, das dúvidas, seja pela atitude do aluno, pelo seu olhar, seja porque vemos o que o aluno está realmente a fazer, além disso não tem as distrações típicas de um ambiente familiar.”

A realidade da falta de computadores e das dificuldades económicas no nosso conselho, e mesmo no nosso país, parece ser familiar à docente e esta afirma já ter conhecimento deste facto.

Em relação ao uso de máscara pelos professores e alunos afirmou que numa profissão como a de professor a máscara é uma barreira, e que para se fazer ouvir um professor tem de projetar a voz e repetir várias vezes o que diz. Como é óbvio, o uso da máscara requer um esforço acrescido para Regina Almeida, o que causa cansaço rápido, garganta irritada e respiração ofegante.

“Nas primeiras semanas, ao fim do dia, sentia constantemente dor de cabeça, entretanto, parece que o organismo se foi adaptando e esse sintoma tornou-se mais espaçado. Também os alunos sentem esta barreira, pois muitas vezes temos de lhes pedir que falem mais alto para que eu e os colegas os possamos ouvir com clareza. A ansiedade, talvez se nota essencialmente no facto de não poderem conviver da mesma forma, e não tanto pelos intervalos mais curtos. Quanto mais novos forem os alunos mais se nota essa ansiedade, nomeadamente nos meninos do primeiro ciclo, que não brincam, nem convivem como deveriam.”, acrescentou.

Regina confessou mesmo que este novo normal, no caso dela só é suportável, pois tem a esperança que um dia deixe de ser “normal “e passe a uma lembrança de um breve período negro das nossas vidas… “.

“Cada um tem de fazer a sua parte, cada um de nós tem de se proteger para proteger também os outros; não podemos estar à espera que haja sempre alguém para nos chamar a atenção, temos mesmo que ser polícias de nós próprios. Temos de voltar à consciencialização coletiva que nos uniu há quase um ano atrás e que parece perdida”, terminou a docente em jeito de mensagem para os seus alunos, pais e leitores.

Texto de Ana Isabel Castro

Bárbara Castro e Fernanda Figueiredo, aluna e encarregada de educação
Lara Martins aluna da Escola Secundária de Arouca
Regina Almeida docente de Português-Francês