“Permanecer em casa”, este é o lema que o Governo, especialistas e toda a sociedade tem no fundo repetido, vezes sem conta, para que toda a gente cumpra estas mágicas palavras. Já todos reparamos que só a partir do confinamento é possível conter esta ameaça, no entanto, a questão na qual é realmente necessário refletir baseia-se na simples questão “será que o ficar em casa significa o mesmo, a nível de sobrevivência económica, para toda a gente?”. Alguém que tenha obrigatoriamente de estar no local de trabalho para realizar o seu serviço, ou que a área sobreviva do consumo e visita de pessoas, como os restaurantes, padarias pastelarias (turismo e restauração), não vão estar tão seguros, economicamente, como a pessoa que realize teletrabalho a partir de casa ou que tenha o seu posto de trabalho garantido, simplesmente porque a área de negócios não se viu afetada com a pandemia.

Os restaurantes e padarias de Arouca não estão, sem dúvida, a passar um momento bom. A crise está a ser longa e piores dias se avizinham, desta feita, o DD decidiu compreender como tem sido o percurso de 4 estabelecimentos do nosso concelho, desde o primeiro encerramento, em Março do ano passado, até ao momento atual. O snack bar Barbelho, Café Portela, Confeitaria Rainha 1 e Padaria requinte/Restaurante Manjar deram o seu contributo e testemunho de como é gerir um negócio em pleno “fogo cruzado”.

Testemunho de Filipe Sousa, sócio gerente do Restaurante Barbelho

Filipe Sousa sócio gerente do restaurante Barbelho revelou que aquando da obrigatoriedade de fecho do primeiro lockdown já todos os restaurantes de Arouca, assim como o seu estabelecimento, tinham fechado portas por pelo menos 15 dias. Confessou não saber o que por aí vinha na altura em termos de saúde pública, dessa forma, conta que estiveram o mês de abril em layoff e em Maio abriram para take away, “que na altura era o que estava permitido”.

“A partir daí acompanhamos e impusemos sempre as medidas que são impostas pela DGS e pelo Governo, embora ache algumas dessas medidas meramente políticas e que em nada ajudam a planear o dia-a-dia de quem está ainda a trabalhar. Ou seja, não há um plano coeso de quem legisla, os horários estão em constante modificação e, neste momento, nem uma garrafa de água se pode vender. Isto não ajuda absolutamente em nada e torna muito mais difícil gerir os recursos humanos, os stocks, etc.”, desabafa.

O gerente garante que, apesar de todos estes entraves, o estabelecimento tem conseguido manter todos os funcionários a trabalhar, mas em horário reduzido, e que apesar do volume de faturação ter caído substancialmente trabalham todos os dias (Seg. a Dom. das 11h-14-:30h e das 18h às 21:30h).

“Na minha opinião vamos ter uma recuperação lenta e difícil. Obrigado a todos os que nos ”visitam” e ligam para fazer as suas encomendas.”, finaliza Filipe Sousa.

Alberto Costa, Café Portela

Alberto Costa é filho do fundador do Café Portela e tem estado à frente do negócio, situado na freguesia de Moldes, nos últimos anos. À semelhança do primeiro testemunho, afirma que quando foi anunciado o fecho da restauração, numa primeira vez, decidiu fechar o estabelecimento juntamente com os seus familiares para darem o exemplo à restante restauração.

“A reação foi esperar que a situação melhorasse para podermos voltar a trabalhar como tínhamos feito até então. Sabemos o quanto é difícil gerir este tipo de negócio, em concreto, devido a todas as limitações e “ataques” que nos têm sido feitos.”, proferiu.

No seguimento do tema aproveitou para frisar que os maiores obstáculos com que se têm deparado, atualmente, são os pagamentos mensais permanentes, que têm de cumprir, como a luz, água… Alberto Costa considera que as mediadas impostas pela DGS e pelo Governo são desequilibradas, não têm ponderação nem racionalidade e “o elo a atacar é sempre o mesmo.”

No que toca a despedimento e redução de pessoal, Alberto afasta essa hipótese, visto este ser um negócio familiar. “O pessoal continua a ser o mesmo pois estamos a falar de um negócio familiar. Vamos vendo. Encerramento se Deus quiser nunca acontecerá, se nos deixarem continuaremos a lutar, repito se nos deixarem continuaremos nossa caminhada, que felizmente começou em 1976. Seremos sempre o café Portela, orgulhosamente um tasco, sempre um tasco. O povo arouquense é forte, o seu comércio é forte e se Deus quiser vai voltar a sorrir, cada qual à sua maneira irá reagir com força”, acrescentou Alberto Costa.

Frederico Rocha, confeitaria Rainha 1

“Quando se tem quebras na casa dos 50% a 60%, todos os dias são um desafio e todas as decisões tem um elevado grau de risco. São dias para os quais ninguém está preparado, o que faz com que todas as decisões sejam muito mais ponderadas. Com muito esforço, conseguimos encontrar um equilíbrio que nos permitiu cumprir as nossas obrigações com fornecedores e colaboradores.”, foram as palavras do Srº Frederico Rocha um dos sócios da confeitaria Rainha 1.

A seu ver o Governo não está a ter uma tarefa fácil, e apesar de este tomar decisões com as quais não concordam, acredita que foram analisadas e ponderadas com as informações que este tem em seu poder. Salientou ainda o esforço geral que têm feito para que os clientes se sintam em segurança, e possam frequentar diariamente o seu estabelecimento, no entanto, considera que as restrições não deveriam ser tão severas.

“Acionamos o lay off simplificado. Temo-nos aguentado como podemos, dia após dia, há um esforço e dedicação por parte de toda a equipa, fundamental para enfrentarmos este tipo de situações. Todos os dias surgem novas restrições quer para as empresas quer para os cidadãos, vivemos num clima de muita incerteza, logo é difícil dizer se um dia destes teremos que encerrar provisoriamente, no entanto, até à data não foi colocada essa hipótese por nós.”, revela.

Frederico Rocha adiantou ao DD que o negócio por eles explorado assenta na qualidade dos produtos e que o grande desafio desta pandemia é fazer chegar os produtos aos clientes que não se podem deslocar. Desafio esse que assegura estar a ser conseguido, através do seu serviço de entregas, pois estão a apostar mais no contacto com o cliente através de outros meio, que não o presencial.

“Depende de todos nós combater este vírus, todos nós podemos reforçar a nossa atenção no dia-a-dia e ajudar a quebrar a propagação do vírus. Acreditamos que a curto prazo irão surgir boas notícias. Em relação ao povo arouquense, apelamos para que comprem localmente os seus bens, mais do que nunca é importante dar vida ao comércio local. Saúde a todos.”, foram os votos da Confeitaria Rainha 1.

Carlos Pereira, Padaria Requinte e Restaurante Manjar

A Padaria Requinte e Restaurante Manjar, negócios detidos por Carlos Pereira, sócio gerente, também têm feito os possíveis para manter o equilíbrio entre agradar o cliente, proteger o cliente, manter os colaboradores e gerir o orçamento.

Segundo Carlos Pereira as decisões mais complicadas foram as relacionadas com o restaurante e com o facto de ser permitido trabalhar em Take Away.

“Pesar na balança ter a porta aberta para prestar esse serviço, que não era de forma alguma compensatório, e deixar aqueles clientes diários na mão, não foi uma decisão fácil. Também se colocava alguma expectativa relativamente à passagem dos clientes de mesa para o take away, mas concluímos que são tipo de consumos completamente diferentes e tirando um caso ou outro, não encontramos uma relação assim tão linear entre os dois serviços. O mercado em Arouca também se tornou demasiado pequeno para prestar exclusivamente esse tipo de serviço e é uma ilusão pensar que poderia funcionar para todos os restaurantes que tinham porta aberta. Uns talvez tenham tido mais sucesso do que outros em função das decisões de cada um, mas acredito que ninguém está satisfeito e as expectativas têm obrigatoriamente que ir muito além disso. Lay off a 100% foi a nossa decisão mais complicada.” Adiantou Carlos Pereira.

O sócio gerente afirmou ainda que relativamente à padaria, apesar das quebras significativas no serviço de cafetaria e em alguns fornecimentos de pão, o encerramento nunca esteve em cima da mesa. Segundo o proprietário a gestão do pessoal foi sendo feita de acordo com a redução do trabalho e recorreu-se ao lay off, embora de uma forma totalmente diferente da do restaurante.

“Em ambos os negócios, restaurante e padaria, temos tentado levar as coisas a bom porto com uma gestão minuciosa, tendo como objetivo a redução de prejuízos ao máximo. Vamos tentando cumprir com as nossas obrigações com os funcionários e gerindo com os fornecedores de acordo também com aquilo que são as políticas de fornecimento de cada um. A gestão de stock também tem que ser mais rigorosa do que nunca, uma vez que as “regras do jogo” estão constantemente a ser alteradas e não nos podemos permitir de perder mercadoria por falta de prazo de validade, o que mesmo assim vai acontecendo pontualmente.”, explicou.

Em relação às medidas que o Governo está tomar Carlos Pereira confessa que os impostos que paga são os primeiros encargos a saírem da conta e só a seguir processam os restantes pagamentos, isto porque, se assim não fosse não teriam acesso a qualquer apoio e as dificuldades seriam ainda maiores. Adiantou também que, “infelizmente o Governo continua a dar com uma mão e recolher grande parte do que dá com a outra, mesmo antes das verbas atingirem o fim a que se destinam. Os apoios são manifestamente insuficientes, talvez sejam os possíveis, mas vão ter repercussões muito negativas a curto prazo e disso não temos dúvidas.”

Reconhece, todavia, que o negócio que possui é daqueles que para as pessoas poderem consumir o produto no local têm de tirar a máscara, descurando uma das regras básicas que é o uso de máscara.

O gerente em tom de crítica adiantou mesmo que, “não podemos aceitar é que o comportamento de muitas pessoas fora dos estabelecimentos não seja condizente com a realidade que atravessamos e que isso nos prejudica a todos. Pelo que observo em Arouca, a maior parte dos negócios, que são familiares, cumprem e são seguros para os clientes, mas depois existem outros, que não sendo minimamente afetados por esta crise, tendo áreas consideráveis superiores a 200 m2 e capacidade de lotação de 30 pessoas, não fazem sequer um controlo de entradas permanente e aparentemente nada lhes acontece e nem fiscalizados são. Esses, que com um único estabelecimento fazem concorrência direta a todos, é que deviam repensar as suas políticas, e uma vez que podem estar de porta aberta com restrições mínimas, respeitem os outros, é o mínimo que se exige. As autoridades também deveriam estar mais atentas e escolher por vezes os caminhos mais difíceis.”.

Quando questionado sobre se estabeleceram uma data limite até à qual poderiam aguentar esta situação, e se já tinham ponderado o encerramento provisório ou mesmo permanente o gerente afirmou que no seu negócio muitas situações vão sendo ponderadas e faladas mas nunca amadurecidas. Revela que em 10 meses, esta foi a semana que os governantes falaram pela primeira vez sobre esta situação, que se pode prolongar até outubro, o que não é fácil. O discurso do Governo não é animador para Carlos Pereira, admitindo mesmo ter existido mudança de ideias e linhas orientadores pela parte do executivo.

Quando fez uma perspetiva pessoal para o futuro da restauração e turismo no concelho afirmou que, “Arouca sem a componente turística e o regresso a casa de muitos aos fins-de-semana, não é um mercado assim tão grande. Reinventar nestes negócios, com esta crise, nunca será numa perspetiva de criar mais emprego e muito dificilmente manter os existentes, o negócio pode sobreviver, mas o resto não. Podemos estar aqui na iminência de salvar negócios sem salvar pessoas”.

Texto de Ana Isabel Castro

Café Portela
Confeitaria Rainha 1

Padaria Requinte

Restaurante Manjar