As presidenciais de 2021 foram no mínimo insólitas. Em primeiro lugar, a presença do militar Eduardo Batista no boletim de voto é a prova de que este país, por vezes, consegue fazer jus à máxima queirosiana de que Portugal é “uma choldra ignóbil”. Para uma candidatura à Presidência da República são necessárias 7.500 assinaturas, porém Eduardo Batista entregou apenas 11 no Tribunal Constitucional, e apenas 6 destas foram consideradas válidas. Segundo o periódico Público, as assinaturas que Batista conseguiu incluíam um camarada militar, um amigo e a sua família. A somar, Batista não regularizou devidamente a burocracia necessária para a formalização da própria candidatura, pelo que a sua corrida a Belém foi considerada anulada. Não obstante, a Comissão Nacional de Eleições decidiu imprimir os boletins de votos com um candidato fantasma. O surrealismo não se manifesta só na pintura.

Muito se escreveu sobre estas presidenciais, conjeturando-se sobre as próximas Eleições Legislativas de 2023, porém creio que pouco se pode prever. Em primeiro lugar, uma boa parte dos portugueses, quer em território nacional quer no estrangeiro, não votaram. A abstenção rondou os 60,5 %, ou seja, somente 4.262.651 portugueses (39,24%) exerceram o direito de voto, em contraste com 6.601.564 cidadãos que não se pronunciaram democraticamente. Comparativamente com as presidenciais de 2016, estas eleições contaram com menos 477.907 votantes, o que é impressionante. Obviamente, o cenário pandémico justifica este aumento abstencionista. O medo, a preguiça, o descontentamento, o comodismo, fizeram o seu papel. É a maior abstenção de todo o sempre da democracia portuguesa. Em suma, eu questiono: estamos a ver o quadro todo? Eu creio que não. Há intenções de voto latentes em várias franjas sociais, que podem distorcer por completo a nossa perceção do eleitorado português. Como seriam estas presidenciais se estes eleitores votassem? Não sabemos. Os parcos dados destas presidenciais só nos podem conduzir à extrapolação, caso queiramos fazer futurologias para as próximas Eleições Legislativas.

Em segundo plano, estas eleições provaram que o voto português não é tão ideológico como pensamos. Talvez o caso mais paradigmático seja o de Marisa Matias. Para onde foram os votos da Marisa Matias nestas presidenciais? Em 2016, Marisa conseguiu 469.582 votos (10,12%), ficando em terceiro lugar. Marisa competia com dois candidatos de peso à esquerda, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, e conseguiu um resultado bastante positivo. Porque não o conseguiu agora contra Ana Gomes, João Ferreira e com o advento da extrema-direita? Segundo um estudo do Público, 28% dos eleitores do BE inquiridos admitiram dar o seu voto a Marcelo Rebelo de Sousa, um candidato de centro-direita. Na mesma sondagem, Ana Gomes recolhia 17 % das intenções de voto e Marisa Matias apenas 13%. Concomitantemente, a extrema-direita cresce quase inexplicavelmente em distritos de tradição esquerdista, obtendo o segundo lugar em distritos como Évora e Beja. Por exemplo, em 2016, a esquerda, somando os votos de Sampaio da Nóvoa, Edgar Silva, Marisa Matias e Maria de Belém, obteve 56,71 % (40.059 votos) no distrito de Évora, sem nenhum candidato de extrema-direita. Nestas presidenciais, André Ventura obteve 20,4% com 7.908 votos, quase superando as votações de Ana Gomes, Marisa Matias e João Ferreira juntos (20,62%, 8.136 votos). Se subtrairmos os votos de Ana Gomes, André Ventura tem mais 3.806 votos que Marisa Matias e João Ferreira juntos (4.102 votos). Apesar da abstenção, o crescimento do Chega no Alentejo é inegável.

Por fim, o professor Marcelo Rebelo de Sousa é o grande vencedor destas presidenciais com 60,70%, cooptando votos de todas as áreas ideológicas. Um verdadeiro candidato catch all. A esquerda sai derrotada, ora pela popularidade de Marcelo, ora pelo número candidaturas dentro do seu domínio político, o que fracionou o seu eleitorado. André Ventura não alcançou os objetivos a que se propôs, apesar de ter ficado em segundo lugar em 11 distritos continentais e na Madeira. Como todos os bufões e políticos populistas “trumpestidos”, André Ventura subestimou os seus adversários e apostou numa retórica patusca e demagógica, recorrendo aos mecanismos do argumentário de tipo futebolístico cmtivizado aquando os debates. Os seus discursos histriónicos galvanizaram a estranha osmose de direitas que é o Chega – um convívio entre neossalazaristas, ultramontanhistas, velhos conservadores, sociais-democratas e centristas dissidentes, oportunistas sem convicções, evangélicos pentecostais e indivíduos que nunca leram uma página sobre a história do século XX. Contudo, não podemos negar o avanço dos “portugueses de bem”.