Embora não tenha nascido no concelho de Arouca, pela sua proximidade e casamento (realizado a 13 de Agosto de 1923, com uma senhora de Vila Viçosa), pode considerar-se também como uma figura arouquense.

Para a maioria dos arouquenses José Moreira de Paiva é uma figura desconhecida, mas teve grande destaque no ciclo-turismo nacional.

Nasceu a 23 de Março de 1900, no lugar da Feira, da vizinha freguesia de Nespereira, do concelho de Cinfães. Seus pais foram António Moreira de Paiva e Belmira Pereira da Silva.

Muito novo foi para o Brasil. Regressou mais tarde a Portugal fixando residência em Lisboa, onde exerceu a profissão de alfaiate.

Em 1942 ingressou no Sport Lisboa e Benfica.

Com uma boa compleição atlética, desde muito novo sentiu uma grande paixão pelo ciclismo.

Essa paixão levou-o, já numa idade avançada, em 1942, a ingressar na equipa de ciclo-turismo do Sport Lisboa e Benfica, onde foi inscrito com o n.º 6722.

Em 1947, participa na volta a Portugal, naquela modalidade.

Logo no ano seguinte realiza a mesma volta, na situação individual, em 21 dias.

Levou várias folhas carimbadas do Sport Lisboa e Benfica, que ao passar pelas diversas terras eram assinadas pelos dirigentes das casas do Benfica (quando as havia), clubes locais, postos da G.N.R, regedores, casas comercias, etc., para comprovarem o dia e a hora em que chegava à respectiva localidade, onde muitos, além disso, ainda escreviam palavras de elogio e incentivo por aquele feito.

A primeira das folhas começa com uma introdução da secção de ciclo-turismo do Benfica: «Ás 8 horas do dia 5 de Setembro de 1948 foi por nós dada a partida para um Raid de 2100 Quilometros efectuado pelo Snr. José Moreira de Paiva componente da secção de ciclo-turismo do nosso clube o Sport Lisboa e Benfica.

Ao valoroso e dedicado camarada desejam todos os elementos da secção um êxito completo, e que a sua digressão através das estradas de Portugal, sirva para estreitar mais ainda, os laços de amizade que unem todos os desportistas nomeadamente família benfiquista, espalhada por todo o país e, a quem por intermédio das nossas filiais ele irá saudar.

Saberá mais uma vez, honrar a camisola que enverga, e isso serão os desejos de todos os que pertencem ao seu e nosso querido Sport Lisboa e Benfica.

Pela secção de ciclo-turismo do S. L. B.

António Abrantes Correia».

A sua passagem por Arouca

Ainda no dia 5 chegou a Grândola; Aljezur, 6; Lagos, 7; Loulé, 7; Faro, 7; Vila Real de Santo António, 8; Mértola, 8; Évora, 9; Elvas, 10; Arronches, 11; Vila Velha de Ródão, 11; Fundão, 12; Tortozendo, 12; Guarda, 12; Pocinho, 14; Bragança, 15; Boticas, 16; Monção, 18; Valença, 18; Porto, 19; Nespereira (terra da sua naturalidade), 20; Alvarenga, 20; Castelo de Paiva, 22; Arouca, 22; Oliveira de Azeméis, 22; Aveiro, 23; Mira, 23; Figueira da Foz, 23; Leiria, 24; Marinha Grande, 25; Caldas da Rainha, 26; Alenquer, 26; e Santo António dos Olivais (Lisboa), final da prova, no mesmo dia 26, pelas 18,30 horas.

Foi um feito prodigioso para uma pessoa da sua idade (48 anos), numa época de estradas bastante rudimentares (comparando com as dos nossos dias) e em apenas 21 dias.

Em 1949 fez o trajecto Lisboa-Sevilha-Lisboa, na distância de 1.638 km.

Em Paris

No ano seguinte, chefiando uma equipa de 5 elementos, fez o percurso de 4.040 km., Lisboa-Paris-Lisboa.

Em 1951, em prova individual, Lisboa-Roma-Lisboa, na extensão de 5.168 km.; e Bruxelas-Lisboa, 3.786 km.

A última rainha de Portugal faleceu no exílio, em França, a 25 de Outubro de 1951. Passado um ano José Moreira de Paiva, «… abalou de Lisboa rumo a Versalhes, mais concretamente ao sumptuoso Palácio de Bellevue, onde colheu terra do jardim onde faleceu Sua Majestade a Rainha Senhora Dona Amélia, para a transportar depois numa pequena urna de mogno (construída por artistas nacionais para o efeito) para Lisboa, onde ficaria depositada no Panteão de S. Vicente de Fora, depois de novamente benzida»1.

Os jornais da época fizeram inúmeras reportagens sobre os feitos do sr. Paiva.

Arouca, e em particular Vila Viçosa, devem orgulhar-se de terem tido um homem desta envergadura, como seu filho.

Na Lagoa de Albufeira, Algarve

Depois de uma vida cheia de aventuras no ciclo-turismo, com a idade a pesar, José Moreira de Paiva, regressou a Vila Viçosa, onde levou uma vida mais calma, mas a dar ainda algumas «pedaladas», onde veio a falecer a 4 de Junho de 1986, sendo sepultado no cemitério da mesma localidade.

Cinco anos antes, Carlos Alberto do Amaral Oliveira, fez-lhe uma entrevista, que na parte final, entre outras coisas, diz: «O sr. Paiva, o fadista que outrora fez furor pelas paradisíacas ruelas de Alfama e Mouraria, o ciclista de extraordinária craveira, que envergando a camisola do glorioso percorreu o país e o estrangeiro, levando saudações a toda a família benfiquista e a todos os Portugueses, é hoje um homem esquecido.

Esquecido, porque o tempo não perdoa e os novos pouco querem saber do passado.

Mas nós, aqueles que o conhecemos, que vivemos o seu quotidiano, que sabemos que a sua idade octagenária não o impede ainda de dar a sua pedalada, de calcorrear quilómetros ou pegar num motociclo, não o temos no esquecimento»1.

1 Jornal de Arouca, n.º 105, de 30-6-1981.

Por: Alberto de Pinho Gonçalves