O voto constitui o maior e mais poderoso instrumento de construção e mudança política e social. Sempre que não estamos totalmente satisfeitos com as políticas implementadas pelos Órgãos de Soberania que nos governam, cabe-nos uma solução: dedicar os nossos esforços para mudar aquilo com o qual não concordamos, nunca esquecendo um princípio fundamental, o da salvaguarda da democracia.

“A democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo”, quem o afirmava era Abraham Lincoln e nunca, como agora, fez tanto sentido refletirmos sobre esta frase. O povo é, efetivamente, a base da democracia e todos nós somos responsáveis pelo atual sistema democrático em que vivemos, uns de forma mais direta, ocupando cargos de decisão e assumindo uma postura mais ativa na sociedade, outros de forma mais indireta, abstendo-se de ser parte dos processos. Em comum todos têm a responsabilidade de serem membros de um todo, partes de um coletivo que tem o dever de cuidar de todos os elementos da sua comunidade, sem distinção de classe, género, sexualidade, raça, etnia, nacionalidade ou confissão religiosa.

O momento em que vivemos reveste-se de particular exigência e nunca é demais sublinhar que é decisivo que todos votemos nas próximas eleições presidenciais e que o façamos em consciência, pela salvaguarda do nosso futuro.

Em democracia, o ato de votar é talvez o mais nobre e o mais livre de todos. O voto é a melhor forma de reivindicação de políticas públicas mais eficazes. Ao contrário, a abstenção prejudica todos os portugueses. Se não votarmos a democracia perde força e a alternativa à democracia passa por totalitarismos e ditaduras que nenhum de nós pode, sequer, equacionar como mera possibilidade longínqua. Não votar tem consequências. A abstenção não significa uma perda total e efetiva de direitos, mas sim uma demissão da nossa função maior enquanto cidadãos.

Estas eleições Presidenciais trazem-nos uma realidade desconhecida no nosso país até aqui, o crescimento abrupto de uma extrema direita que se diz “anti-sistema” e que se alimenta de discórdias, divisões, ódios e discriminações, de um mediatismo exagerado e de um imediatismo incapaz de solucionar os desafios de um país livre e democrático.

Historicamente os candidatos “anti” – anti-sistema, anti-política, anti-pluralismo… são, na escala da transformação social, política e económica, os que menos hipóteses têm de conseguir transformar o sistema político. É, por isso, que o nosso voto deve ser um voto útil e não um voto de protesto, devemos mobilizar-nos para votar pela igualdade, pela liberdade, pela justiça social e pelo bem-comum, sem marginalizações ou discriminações, votando em candidatos que vão para além das vãs promessas do aqui e do agora, do populismo e de meia dúzia de ataques vis, de frases feitas e sem qualquer sentido que são repetidas ao expoente da exaustão.

Derrotar Trump, Bolsonaro, Salvini, Le Pen ou Orbán e todos os que com eles partilham ideias de radicalismos e extremismos desrespeitadores dos direitos humanos é um desígnio de todos os que são pró-democracia. Precisamos de reforçar a nossa união enquanto portugueses, enquanto povo que sempre lutou e viveu unido pela defesa de liberdades e garantias, de recriar uma sociedade onde todos se sintam estimados e ouvidos, onde estejamos próximos e sejamos parte integrante do poder político, onde possamos ser cidadãos de pleno direito.

E neste contexto tão complexo, de que forma podemos salvaguardar e consolidar o nosso regime democrático? Com democracia!

O voto consciente é somente o primeiro passo rumo à efetividade e consolidação da cidadania e, consequentemente, da democracia. Depois de elegermos os nossos representantes temos de continuar nosso processo de participação ativa em todos os momentos – seja integrando movimentos cívicos como associações e clubes, seja em manifestações ou greves, seja assinando petições ou participando em órgãos consultivos de nível local ou em atividades cívicas de caráter mais pontual -, para que as nossas vozes sejam ouvidas, as nossas necessidades satisfeitas e os nossos anseios concretizados. Não podemos desejar ser ouvidos ou participar apenas de 4 em 4 ou de 5 em 5 anos, temos de querer ser parte dos processos de decisão sempre.

Deixar a uma pequena minoria as decisões sobre o presente e o futuro da nossa vida coletiva é um erro com custos demasiado elevados e muito difíceis de reverter.

A abstenção não é solução. O voto de protesto não é solução.

A única solução é o voto útil, um voto com pensamento no coletivo e na capacidade de construção de futuros plurais para o nosso país.

Cátia Camisão