Em 15 de Agosto de 1498, na capela de Nossa Senhora da Piedade da Sé, Lisboa, a rainha D. Leonor, com o seu conselheiro e confessor Frei Miguel Contreiras, da Ordem da Santíssima Trindade, funda a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que, depois e ao longo dos séculos, se implantou por todo o País e nas possessões portuguesas espalhadas pelo Mundo, nomeadamente na Ásia: Goa, Macau e Japão; e no Rio de Janeiro, Brasil, entre outras.

Arouca também não ficou de fora na criação de tão útil e necessária instituição, para valer aos mais desprotegidos na vida, que nos seus estatutos que seguia, como era normal, os da Misericórdia de Lisboa, continham as orientações fundamentais, designadas pelas «14 obras de misericórdia», que tinham 7 corporais: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir aos enfermos; remir os cativos e visitar os presos; e enterrar os mortos; e as 7 espirituais: dar bons conselhos; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os tristes; perdoar as injúrias; sofrer com paciência as fraquezas do próximo; e rogar a Deus por vivos e defuntos.

Foi seu principal fundador Lourenço Teixeira de Quadros, nascido na Quinta de São Pedro, desta vila, e baptizado a 1 de Abril de 1586, na igreja paroquial da então freguesia de São Pedro do Mosteiro de Arouca. Foram seus pais Sebastião Teixeira e Maria Henriques de Quadros. Era neto paterno de Gonçalo Fernandes Mendes e Brites Vieira; e materno de António Zuzarte de Almeida e Filipa Henriques. Faleceu a 17 de Dezembro de 1636, na Quinta de São Pedro1.

Casou com Filipa Soares natural da freguesia de São Nicolau, Vila da Feira, filha de Simão Tavares e Catarina de Leão. Neta paterna de João Dinis Leite e Catarina Tavares; e materna de Pedro Soares de Albergaria e Filipa de Pinho.

Não tiveram descendência, que se conheça.

Teve uma vida relativamente curta (50 anos), mas de grande actividade, na causa dos mais desfavorecidos. Logo aos 24 anos, com os seus irmãos mais velhos, António Teixeira, Jerónimo Teixeira e Inácio Tavares; além de outros parentes mais ou menos próximos e mais algumas pessoas devotas, lançou-se na grande obra da fundação da Misericórdia, cujo pedido foi formalizado a 5 de Julho de 1610, em Lisboa, por Jorge Cardoso: «Confiados alguns moradores desta vila de Arouca na Misericórdia Divina, que ajudaria seus bons intentos, movidos por pessoas zelosas, e religiosas; quiseram ordenar a Confraria da Santa Misericórdia, para nela, conformando-se com a possibilidade da terra e com a imitação das mais do Reino, servirem a Deus Nosso Senhor…»2. O Alvará de Confirmação foi concedido a 2 de Outubro daquele ano.

Lourenço de Quadros foi também Familiar do Santo Ofício, de que teve Carta a 22 de Novembro de 16253.

Logo, nos seus princípios, a Santa Casa começou a dar assistência a quem precisava. Assim no ano seguinte à sua instituição, foi assistida na Misericórdia, em trabalhos de parto Isabel Gonçalves, natural da freguesia da Sé, Lisboa, que juntamente com seu marido Diogo do Souto, iam em romaria a Santiago da Galiza e tiveram Isabel, baptizada nesta vila a 24 de Junho daquele ano, pelo padre Diogo Dias de licença do cura da freguesia João Teixeira, sendo padrinhos João Rodrigues, procurador, e Maria Antónia, hospitaleira: « 24 dias do mes de Junho de 611 baptisou o p.e dioguo dias de L.ca do cura Jm.º Tx.ra a isabel f.ª de dioguo do Souto e de Isabel glz naturõs da cidade de Lx.ª freigueses da Ce, os pais andando ẽ romaria a Santiaguo de gualisa e achandose nesta villa pario aqui no ospital a molher, e forão pp. Jm.º roĩz procurador e m.ª Ant.ª ospitaleira»4.

Em 1612 era construída a Igreja da instituição por um devoto: «DEVOTI FECERE – AN – 1612», como se encontra no lintel da igreja.

Não temos elementos que nos provem quem foi o devoto que contribuiu para a sua construção. Mas pensamos que seguramente, foi Lourenço de Quadros Teixeira até porque, na medida em que não tinha filhos, mais deve ter despendido dos seus bens, em prol da Misericórdia.

Assim a Santa Casa da Misericórdia de Arouca é a mais antiga associação de pessoas de Arouca.

Hoje a Santa Casa da Misericórdia de Arouca, presta um serviço imprescindível a toda a população arouquense, principalmente nos cuidados de saúde e amparo na velhice.

1 A.D.A. – Regist. Paroq. freg. Arouca. Livro de Baptismos n.º 1 (1581/1596), fls. 64; e Livro de Óbitos n.º 20 (1613/1690), fls. 39.

2 SIMÕES JÚNIOR, Manuel Rodrigues – «Arouca Subsídios para a sua Monografia», jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 1658, de 24-6-1988.

3 LIMA, Jorge Hugo Pires de Lima – O Distrito de Aveiro nas Habilitações do Santo Ofício, págs. 71 e 72, vol. XXXVIII, Aveiro 1972, revista «Arquivo do Distrito de Aveiro».

4 A.D.A. – Regist. Paroq. freg. São Bartolomeu de Arouca. Livro de Baptismos (1599/1612), fls. 143v.

Por: Alberto de Pinho Gonçalves