Nasceu na antiga rua Darca a 1 de Dezembro de 1895. Filho de Domingos José da Silva e Margarida Emília. O pai natural do Couto de Cucujães, Oliveira de Azeméis, veio para Arouca, como almocreve e vendedor de sardinhas; era filho de Custódio da Silva e Joaquina Rosa; e a mãe natural da freguesia do Burgo, filha de José de Pinho e Engrácia Emília.

Foi uma das figuras típicas da nossa vila de Arouca, durante o século XX.

A sua imagem está bem viva, nas gerações mais velha de Arouca, recordando-o no seu local de trabalho, ao cimo da Praça, junto a um dos bancos, que servia para os seus clientes se assentarem enquanto ele lhes engraxava os sapatos.

Cedo começou como modo de vida no comércio de peixe que era o ofício de seu pai.

Foi cumprir o serviço militar e fez parte do Corpo Expedicionário do Exército Português, na Flandres, França, na I Guerra Mundial.

Como aconteceu com os seus camadas de armas, também ficou afectado com os gases usados na dita guerra, por parte doa alemães, na medida em que os soldados portugueses participaram numa guerra para que não estavam preparados e iam mal equipados. Guerra em moldes modernos para a época, e com técnicas destrutivas até então desconhecidas.

Depois da guerra e, anos mais tarde, assentou “arraiais” na Praça; e tinha como modo de vida o ofício de engraxador de sapatos.

Diariamente, como muitos outros, emborcava algum vinho, que o punha num estado bastante alegre. Então cantava durante horas. A “Laurindinha vem à janela, ver os soldados que vão p’ra guerra…”, era uma das suas favoritas.

Mas não fazia distúrbios, o que normalmente não acontecia com outros na situação de embriaguez.

Mas como em tudo na vida, há sempre uma excepção; e um dia travou-se de razões com outra figura da nossa Praça e o caso foi parar a Tribunal.

Mas melhor do que eu para descrever o acontecimento, é António Tavares dos Reis, nascido e criado na Praça (hoje já não pertencendo ao número dos vivos), que numa das suas crónicas que habitualmente mandava para o «Jornal de Arouca», da cidade do Rio de Janeiro, Brasil, onde estava radicado, que viveu aquela época.

É duma dessas crónicas que tiramos o excerto sobre o ocorrido:

«Uma certa tarde, em plena Praça Brandão de Vasconcelos, surgiu uma violenta discussão entre o João Silva, de apelido “João Bicha” e o “Farola”, um pobre homem de recados. Já bastante alcoolizado, João Bicha agrediu o “Farola” com um canivete, na altura das nádegas, que sangraram abundantemente. João Bicha foi detido, tendo posteriormente respondido em processo judicial. E no dia do julgamento e como era pobre, o Juiz nomeou José Clemente como defensor oficioso do arguido. Conhecedor dos homens, José Clemente obteve a absolvição do agressor. Após a inquirição das testemunhas, o defensor oficioso proferiu mais ou menos estas palavras: “Meritíssimo Juiz: João Bicha é um pobre mas alegre, trabalha todos os dias ao cimo da Praça engraxando sapatos, e além disso foi um combatente da Primeira Guerra Mundial. Hoje é um neurótico de guerra. Peço a V. Ex.ª a sua absolvição”. E esta foi concedida.

Terminado o julgamento, alguns amigos foram felicitar o sr. José Clemente pelo êxito da sua defesa. Como era homem muito comunicativo e alegre, respondeu que valera a pena passar muitas noites sem dormir quando estudava na Universidade de Coimbra»1.

Ora esta do José Clemente Ribeiro ter andado a estudar em Coimbra, era uma piada, pois ele… apenas tinha a instrução primária.

O João da Silva casou a 13 de Abril de 1923, com Estefânia da Conceição, do lugar de Pinheiro, desta freguesia de Arouca, onde nasceu a 25 de Fevereiro de 1893, viúva de Jerónimo Tavares Ferreira.

Depois de muitos anos na companhia de sua esposa (que se dedica ao comércio de peixe e frutas), de quem teve vários filhos, arranjou outra mulher, com quem viveu bastantes anos, e de quem teve também alguns filhos.

Mas acabou por vir a falecer na companhia de sua mulher e da filha Custódia da Silva, na rua Alexandre Herculano, desta vila, a 17 de Janeiro de 19702.

1 Jornal de Arouca, n.º 158, de 31-10-1983.

2 Jornais Gazeta de Arouca, n.º 599, de 26-5-1923; e Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 744, de 24-1-1970.

Por: Alberto de Pinho Gonçalves