Em 2 de Agosto de 1970 era dada a notícia, através do jornal local «Defesa de Arouca», de que Arouca iria receber a visita do Presidente da República, no dia 15 de Setembro daquele ano.

Logo no número seguinte, o mesmo jornal dizia: “Arouca rejubila com esta visita, muito honrosa para a nossa terra, à qual nos referiremos mais detidamente no próximo número”.

Nesse número entre outras coisas dizia: “Como é natural dado o relevo do acontecimento, despertou entre toda a população do concelho, o maior interesse e grande contentamento a notícia a que temos dado o destaque que merece, respeitante à visita a este concelho do Venerando Chefe do Estado Almirante Américo Tomás.

Do nosso conhecimento e em visita oficial é a primeira vez que um chefe de Estado se desloca a Arouca, circunstância que nos sensibiliza ainda mais e afervora o nosso entusiasmo por uma tal deferência 1.

Foram três dias que o então Chefe de Estado, fez ao Distrito de Aveiro, começando logo no dia 13 em Aveiro, no Congresso dos Bombeiros e inauguração de um monumento aos mesmos, seguindo depois para a Murtosa, onde inaugurou o hospital e um busto ao Prof. Pinto Barbosa (um ilustre filho da terra), passando por Ovar, Cesár e depois Arouca, já no dia 15.

Nesse dia pelas 11 horas, chegou ao Chão de Ave, formando-se aí um cortejo automóvel até à vila de Arouca, onde por volta das 11,30 horas, deu início a uma visita ao Museu de Arte Sacra, em que foi acompanhado pelo Juiz da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda, Professor Alberto Brito, e demais entidades, civis e religiosas.

Durante o percurso, foram feitas algumas passadeiras com serradura de madeira e verdes de plantas, tendo à sua passagem pelo Burgo, actuado a Banda Musical de Figueiredo.

Já na vila, a Banda Musical de Arouca executou o Hino Nacional à sua chegada, sendo também presente o Conjunto Etnográfico de Moldes.

No adro da igreja do Mosteiro, foi feita no pavimento, em flores, uma grande bandeira nacional, que o Presidente admirou.

Foi uma recepção verdadeiramente apoteótica, ouvindo-se, durante o desfile a pé, pela então avenida Dr. Oliveira Salazar, constantemente “viva o sr. Almirante Américo Tomás”, ao que respondia um imenso coro “viva”.

Seguiu-se um café, servido no Mosteiro, e por volta das 13,30 horas foi servido a toda a comitiva e convidados, um almoço servido nos Claustros do Mosteiro.

Esta visita teve bastante destaque na imprensa diária, nomeadamente no «Jornal de Notícias», do Porto, com uma grande fotografia na primeira página, e reportagem na página seguinte e na página dez.

Ao almoço foram feitos discursos pelas pessoas representativas das entidades, o Prof. Joaquim Brandão de Almeida, vice-presidente da Câmara Municipal; o Dr. Francisco Vale Guimarães, Governador Civil de Aveiro; o Professor Alberto Brito, Juiz da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda; e por fim o Dr. Joaquim de Pinho Brandão, deputado e presidente concelhio da A.N.P., que expuseram ao Chefe de Estado as várias carências de que Arouca padecia.

No seu discurso, o Professor Alberto Brito lembrou a visita ao Mosteiro, em 2 de Maio de 1943, pelo Presidente do Conselho de Ministros, Dr. Oliveira Salazar, e que a partir dessa data o Governo começou a investir na recuperação do Mosteiro, que se encontrava em ruínas numa parte da ala sul, e a conclusão dos claustros, entre outras obras de conservação.

O repórter do «Jornal de Notícias» insurge-se contra o facto do Professor Doutor Alberto Brito, se ter esquecido de nomear o nome do Dr. Simões Júnior, que estava presente, que muito tinha feito pela história de Arouca, e de um modo especial pelo Museu, pois até foi ele que em 1943, na visita de Salazar, o tinha acompanhado e exposto todas as necessidades de que padecia o Mosteiro, e tinha acompanhado ao longo dos anos o seu restauro, nestes termos: “A seguir, prestou homenagem a todos quantos contribuíram para segurar os haveres do mosteiro, nomeadamente à mais velha serviçal do Convento, já falecida, sem esquecer aqueles que ultimamente muito ou pouco fizeram em benefício do Museu de Arte Sacra. Mas omitiu, imperdoavelmente, a figura do ilustre arouquense sr. dr. Manuel Rodrigues Simões Júnior, que sempre foi conhecido por director do mesmo e que, como historiador, muito contribuiu para o engrandecimento daquele museu. Foi uma falta, sem dúvida imerecida, para mais na presença do atingido, pessoa a quem Arouca tanto deve”.

Acaba o mesmo jornal por finalizar a visita nestes termos: “Eram 19 horas quando o chefe de Estado por entre densa multidão e vibrantemente aclamado iniciou a viagem de regresso a Lisboa”.

O jornal «Defesa de Arouca», logo no número a seguir à visita, transcreve partes dos discursos que foram feitos, começando logo na primeira página, a abrir o texto: “É muito difícil, se não impossível, descrever com o devido relevo o que foi a apoteótica recepção prestada ao Chefe de Estado, Almirante Américo Tomás, na visita que realizou a Arouca no pretérito dia 15 do corrente” 2.

Passados pouco mais de 3 anos, dá-se o 25 de Abril de 1974, e muitos dos que o ovacionaram e trabalharam para que a sua visita fosse um êxito, foram logo aderir à nova situação política, inscrevendo-se nos novos partidos.

Alguém disse um dia: “só os burros é que não mudam…”.

1 Jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 774, de 29-8-1970.

2 Jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 777, de 19-9-1970.