O «Pilatos», de alcunha. Ele próprio o diz: “chamo-me Pilatos, porque já era o apelido do meu pai”, nasceu pelas 3 horas da madrugada, de 11 de Agosto de 1904, no lugar do Chorial, da freguesia de Urrô.

Seus pais Dâmaso de Pinho Brandão e Luciana Rosa, jornaleiros, casaram na igreja da Sé Catedral do Porto. O pai, natural de Jugueiros, era filho de Maria, solteira, do mesmo lugar; e a mãe do da Presa do Povo, filha de Manuel de Pinho Raso e Margarida Rosa, todos da freguesia de Várzea1.

Conheci-o era ele um digno funcionário da Câmara Municipal, com o seu típico boné, ao fundo da Praça Brandão de Vasconcelos, a tomar conta dos sanitários que a Câmara aí tinha construído em 1966 (inaugurados em 23 de Setembro de 1966, pelo Ministro da Educação Nacional, prof. Inocêncio Galvão Teles, e pelo Subsecretário de Estado das Obras Públicas, José Filipe Rebelo Pinto)2, destruídos em 2012, para dar lugar ao visual actual da Praça.

Homem de baixa estatura, magro, de olhos pequenos e brilhantes, denunciando pessoa “vivaça”. Era de bom trato com toda a gente.

Foi ocupar um cargo que a maioria das pessoas considerava indigno, e que ele aceitou, arranjado pelo sr. António de Almeida Brandão, Presidente da Câmara, que depois de se responsabilizar para ele poder sair em liberdade do cárcere, foi a forma de o ajudar a ter uma compensação monetária e a ser um honesto cidadão.

A sociedade da época era muita injusta e levou a que aparecessem muitos «Pilatos», por todo o País. Teve uma vida muito atribulada.

A sua fama teve eco um pouco por todo o País (chegou a ter uma quadrilha). As pessoas que foram suas contemporâneas contam imensas histórias, algumas possivelmente um pouco fantasiadas. O certo é que a sua vida foi uma constante aventura.

Em entrevista que deu ao jornal «Defesa de Arouca»3, possível pela gratidão que ele tinha pelo pai do entrevistador, foi contando muito das suas aventuras criminais:

Até aos dez anos fiquei ao cuidado da minha mãe. Depois ela morreu e fiquei só. O meu pai desprezou-me, nunca se importou de mim e comecei a andar de lado para lado. Comia uma malga de caldo aqui, uma sardinha acolá, e dormia nos palheiros ou na palha dos campos até que, aos catorze anos, roubei pela primeira vez”.

A primeira vez que roubou, foi na freguesia de Mançores: “Então roubei em Mansores um bocado de carne, fui preso, e entrei na cadeia catorze meses. Saí quando acabou a sentença e continuei na mesma, mas comecei a ser mais refinado e a acompanhar com outros piores que eu…

Das fugas da cadeia de Arouca diz: “ – Pelo menos três. Duas pelo cano de esgoto, depois de ter experimentado com uma cortiça da minha largura presa por um fio para ver se passava até ao rio. Outra vez foi por um buraco feito na parede e escrevi numa mesa da sala onde era o tribunal: Por aqui passou Pilatos. Roubei a capa do juiz e fui tirar fotografias com ela”.

Nesta fuga pelo buraco feito na parede, contava-se que além de escrever «por aqui passou Pilatos», fez as suas necessidades fisiológicas, em cima da escrivaninha do juiz, levando a sua capa para andar de feira em feira, com um caixote, fingindo ser um fotógrafo; e desta maneira, angariar algum dinheiro. É claro que ele não tirava fotografia alguma, era apenas um expediente para “ganhar a vida”.

Diz ele: “– Andava a monte. Cheguei a viver na capela de Santo André. Ia queimando o soalho p’ra cozinhar e dormia numa cama feita de carqueja debaixo do altar. Estava lá bem quentinho… As galinhas e os coelhos ali de volta é que as pagavam, assadas num espeto de pau. Até que um dia… estava lá muito tranquilo a acender o lume numa manhã de Inverno e bateram à porta. Eram uns roçadores que, ao ver sair fumo por o telhado, pensavam haver fogo na capela. – Safa-te Pilatos: eles a arrombar uma porta e eu a sair pela outra… Outra vez, estava eu a dormir numa moreia, em Cela, e para me apanhar lançaram o fogo a todas as que havia no campo. O coelho havia de sair – pensavam eles. E saiu mas duma moreia que ainda não ardia e a andar como uma bala”.

“ – Ora um dia resolvi casar-me, ou pelos menos fingi casar-me e, então, resolvi descer da serra para arranjar os documentos. Não mos deram e trataram de me deitar a gatázia, mas o pai da cachopa interviu e sempre os arranjei cá para umas contas… Sim, que eu não me queria casar, só queria cá os documentos para o que fosse preciso… Mas qual quê… Tinha eu os documentos no bolso e aparece ordem de prisão. – Ah! Castanho!… – berrei eu agarrado às crinas do cavalo. Era como se fosse um cristão… À ponte de Alhavaite um tiro ainda me furou o chapéu, mas só em Santo António vi a coisa feia. O tiroteio aumentou. Virei a Paiva agarrado ao pescoço do macho e só parei na estação de caminho de ferro de Penafiel, porque estavam as cancelas fechadas.”

Chegou a estar preso na Cadeia da Relação do Porto (onde hoje funciona o Centro Português de Fotografia), fugindo da mesma, vestido de mulher, com roupas que uma rapariga, com quem ele começou a namorar através da janela da cela, lançando-lhe bilhetes, e que depois o começou a visitar.

Mais adiante, na entrevista, diz:

Ah! Não se esqueça que, depois daquela com quem vivi alguns anos, ainda tive uma Espanhola e outra rapariga em Ponte de Lima… Mas, como ia dizendo, de Lisboa mandaram-me para África… Fui bem tratado e cheguei a ser o chefe dos meus companheiros. Voltei ao fim de três anos, mas continuei na mesma, até que fui entregue ao governo e meteram-me em Monsanto. Para sair de lá era preciso que alguém se responsabilizasse por mim. Todos tinham medo e ninguém se responsabilizava pela minha conduta moral, até que apareceu o sr. Almeida Brandão… Só a ele, a mais ninguém devo a liberdade.

Para alguns já fui o sr. Brandão algumas vezes, outras o Pilatos – é uma questão de dinheiro.

Já livre, ainda fui à África várias vezes a bordo dos navios. Arranjei dinheiro e cheguei, naquele tempo, a ter cá trinta contos. Então apareciam muitos amigos e eu, veja bem – era o sr. Brandão, o dinheiro acabava é o ladrão, o Pilatos. Chegavam-se a mim só para me comer. É assim este mundo… E agora, quando estou em casa… quando me recordo das ovelhas que nos montes roubávamos para comer, quando me lembro que em vez de me perseguir me podiam ter ajudado doutra maneira e podia ser honesto como agora sou… nem sei como foi possível passar o que passei…

Muitas histórias se contam do Pilatos. Muitas ficaram por contar. Pois quando deu a entrevista prometeu mais tarde contar mais ao entrevistador. É natural que o Prof. António de Azevedo Brandão saiba mais…

Este escrito é apenas a recordação de uma pessoa que, se tivesse sido ajudado quando ele precisava, não teria tido uma vida aventurosa de criminalidade.

Manuel de Pinho Brandão era pessoa de boa índole. Houve pessoas que ao verem a sua miséria, por vezes lhe davam de comer. Então ele, em forma de gratidão, dizia: «a sua casa não será assaltada por mim nem por outro qualquer, que eu não deixo, esteja, descansada».

Não resistimos a transcrever uma notícia, da «Defesa de Arouca», de 1958, onde mostra a sua ajuda para com o próximo:

«Vitimado por um mal que não perdoa, faleceu no dia 14 do corrente, no lugar de Valdasna, desta vila, Joaquim Pereira, operário-mineiro das minas de Rio de Frades, natural de Rosem, Marco de Canavezes, e que por caridade foi ali recolhido e tratado por Manuel Brandão “O Pilatos”.

O funeral realizado no dia imediato, foi feito a expensas da Misericórdia»4.

Quando exercia a sua actividade, nos sanitários, chegou algum tempo a viver na cadeia, agora com a porta aberta, pois estava devoluta, devido à sua extinção, o que levava a alguns ditos espirituosos.

Ainda nos finais da sua existência, com a sua vida honesta, já tinha amealhado algum dinheiro, então a uma rapariga solteira que tinha tido uma filha, ofereceu-se para casar com ela e perfilhar a filha, para que não ficassem desamparadas. Ela aceitou, e mais tarde deixou-o, sendo ele obrigado a meter a sua “filha”, numa instituição.

Faleceu a 12 de Setembro de 1981, no Hospital Geral de Santo António, da cidade do Porto, vítima de uma pneumonia.

1 A.D.A. – Registos Paroquiais da freguesia de São Miguel de Urrô. Livro de Baptismos, n.º 89 (1904), fls. 7.

2 Jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 578, de 8-10-1966.

3 Jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 831, de 23-10-1971.

4 Jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 177, de 25-10-1958.

Por: Alberto de Pinho Gonçalves