Há alguns anos atrás, em tarde de Domingo, quando me encontrava ao cimo da Praça Brandão de Vasconcelos, desta vila, com várias pessoas, apareceu um casal, talvez na casa dos 70 anos, que se nos dirigiu, perguntando se sabíamos alguma coisa sobre um ferrador que tinha tido a sua oficina no edifício seiscentista, que fica detrás da cadeia desta vila.

As pessoas presentes disseram que nunca tinham conhecido ali qualquer ferrador, apenas que tinha lá estado uma oficina de bicicletas e motorizadas e antes uma oficina de marcenaria. De ferrador não tinham nenhum conhecimento, apesar de alguns já serem de bastante idade.

Perguntei então ao sr. como se chamava o ferrador. Ao que ele me respondeu que era Abílio. Disse eu: – então era o Abílio ferrador.

Ao pronunciar isto, os seus olhos ficaram brilhantes e rasos de lágrimas; e perguntou-me: – você sabe alguma coisa dele. Respondi: – sei que ele matou a tiro nesta Praça, o Domingos Leite.

O homem, emocionado, quis saber o que se tinha passado. Disse-lhe que o que sabia era o que o jornal da época a “Gazeta de Arouca”, em 1919, falou sobre o assunto. Perguntou-me onde poderia ver as notícias sobre o acontecido, ao que eu lhe disse para ir comigo que lhe mostrava.

Disse-me que o dito Abílio era o seu pai, e que ele nunca em casa abordou tal assunto. Só veio a saber que tinha havido alguma coisa, em Arouca, quando em criança, um seu primo, na escola, depois de uma pequena zanga entre eles disse, para o ofender, que o pai era um assassino, pois tinha morto um homem.

Quando questionou em casa o que tinha sucedido, fez-se um enorme silêncio. Era assunto tabu naquela casa. Veio a falecer muito mais tarde, em 1955, sem dizer fosse o que fosse à família.

O sr. (disse-me na altura o nome, mas que já não me lembro), disse que foi durante a sua vida funcionário público e que se encontrava actualmente reformado. Que toda a vida quis saber o que se tinha passado com o pai; e então veio a Arouca procurar saber o que se passou naquela época, que o pai nunca revelou, nem há hora da morte.

Segundo ele, o seu pai desde que foi de Arouca nunca mais foi a mesma pessoa alegre que era, pelo contrário, viveu sempre muito triste.

Diz-me que era pessoa bem conceituada em Arouca, que se dava bem com toda a gente, tanto com as facções políticas da época, como com o resto da comunidade, que tinham por ele grande afeição devido à sua postura social e ao seu profissionalismo, como ferrador.

Não via motivo para o que aconteceu, a não ser que fosse qualquer assunto, relacionado com namoros… pois o Abílio era solteiro, e contava naquela época apenas 23 anos de idade.

Depois de ter visto os jornais, e se ter inteirado do que aconteceu, ficou mais aliviado.

Eu disse-lhe que ia procurar saber mais informação, e que depois lhe diria, quando cá tornasse.

Então indaguei; e pessoa que tinha tido conhecimento indirecto (pois tinha nascido muito depois dos acontecimentos), me disse que o Domingos Leite que morava na casa ao lado da Igreja da Misericórdia, e de que a parte de trás da mesma, ficava junto ao rio, hoje rua Alfredo Vaz Pinto, onde ele tinha a oficina de ferrador, que era casado e que morava com ele uma sobrinha, de que ele gostava como se sua filha fosse.

Ora o Abílio Henriques de Pinho, começou a namorar a dita sobrinha, contra a vontade do tio, que não queria o namoro (não se sabe porquê?), pois o modo de vida do Abílio com boa aceitação social e um ofício que, na época, era de muito prestígio (pois até tinha que ter alvará para o poder exercer), não seria motivo para a sua rejeição.

Assim quando o Domingos Leite se cruzava com o Abílio, fazia-lhe ameaças.

A notícia da “Gazeta de Arouca” é a seguinte:

«Agressão a tiro

Morte do agredido

Deu-se terça-feira última na Praça Brandão de Vasconcelos, cerca das 22 horas, um lamentável acontecimento que profundamente emocionou todo os moradores desta vila.

Abílio Henriques de Pinho, natural do concelho de Oliveira de Azeméis e estabelecido há anos nesta vila com oficina de ferrador, de há tempos que, por questões pessoais vinha sendo ameaçado por alguns indivíduos, caso esse que o levou a munir-se de arma de fogo. No dia e á hora acima indicados, vendo dirigir-se para si o sr. Domingos Gomes Leite, negociante, de quem andava ressentido, intimou-o a que se não aproximasse, intimação que fez ao mesmo tempo que lhe apontou uma pistola.

Não foi, porem, obedecido, apesar de repetir a intimação, desfechando, voluntária ou involuntariamente, a arma que empunhava, indo o projéctil atingir no abdómen o seu antagonista, que ficou em melindroso estado.

Comparecendo imediatamente os clínicos srs. drs. Simões Júnior e Ângelo Miranda aconselharam a que o ferido seguisse para o Porto sem perda de tempo a fim de ser operado, o que foi feito.

Mas de nada valeram, infelizmente, as diligências empregadas, vindo o agredido a falecer naquela cidade no meio de horroroso sofrimento.

Lamentando sinceramente tão funesta ocorrência, lembramos ao mesmo tempo às digníssimas autoridades deste concelho a conveniência que há de proceder á apreensão de todas as armas de que quaisquer indivíduos andem munidos.

Só assim se impedirá que continuem a dar-se casos como os que, nos últimos tempos, teem manchado o nome desta linda terra.

Que falta de prudência e de reflexão vai dominando os espíritos!»1.

Passado quase um ano o Abílio é detido em Aveiro, de que dá notícia novamente a “Gazeta”:

«Prisão

Vindo de Aveiro, onde foi detido, deu entrada na cadeia desta vila, quarta-feira última, o infeliz Abílio Henriques de Pinho, natural da freguesia de Cesár, concelho de Oliveira de Azeméis, que há meses, conforme a “Gazeta” noticiou, desfechou um tiro de pistola contra o proprietário Domingos Gomes Leite, desta vila, produzindo-lhe a morte.

A chegada do inditoso rapaz era aguardada por numerosas pessoas, notando-se em todas – em todas as que possuem coração! – na ocasião do desembarque, uma bem visível e profunda comoção, tal o estado verdadeiramente lastimoso em que o preso se apresentou.

Alquebrado, mal se podendo suster de pé, o infeliz Abílio deixava perceber, na sua face emagrecida, lacrimosa, os vincos da amargura que dia e noite vem dilacerando um coração onde nunca, por sombras sequer, se albergara o instinto do crime.

*

Consta-nos que o integérrimo delegado do procurador da República nesta comarca pensa em remover o preso Abílio Henriques de Pinho para as cadeias da Relação. A ser verdade, – o que não cremos, visto terem permanecido na cadeia desta vila criminosos de instinto sobre os quais pesavam maiores responsabilidades – só teremos que lastimar mais amargamente a sorte do infeliz, devendo a digníssima autoridade judicial, certamente, tornar-se responsável por qualquer contrariedade que lhe advenha – e que facilmente poderá advir-lhe, atento o seu estado de depauperação»2.

O detido, como se depreende dos textos acima, era pessoa querida da maioria da população de Arouca, pois ao estabelecer-se com a oficina de ferrador, veio fazer concorrência ao único ferrador que existia, o José Botelho de Carvalho, a par do bom atendimento a quem o procurava para se servir do seu ofício. Talvez por tudo isso houvesse alguns que se sentissem ressentidos, daí as ameaças, que o levaram a munir-se de uma arma.

Passado algum tempo foi julgado e foi absolvido do crime praticado. Segundo a tradição oral, o Abílio disparou em auto defesa, pois o Domingos com uma chave de porta (que naquele tempo era de grande dimensão comparada com as de hoje), com a mão no bolso e empunhando a chave, como se fosse uma pistola, ameaçava o Abílio de lhe dar um tiro. Em face disso o Abílio disparou. O relato do julgamento não nos diz os motivos da absolvição:

«Julgamento

No tribunal judicial desta comarca efectuou-se, nos dias 28 e 29 de Janeiro findo, o julgamento em processo de querela, do indiciado, Abílio Henriques de Pinho, no assassinato de Domingos Gomes Leite.

Presidiu ao julgamento o meritíssimo juiz desta comarca. O Ministério Público foi representado pelo sr. dr. Alfredo Camossa, a acusação particular pelo digno advogado nos auditórios do Porto sr. dr. Américo de Castro, e a defesa pelo brilhante advogado da Covilhã sr. dr. Elmano da Cunha e Costa.

Constituído assim o tribunal e sorteados os jurados que deviam decidir a causa que se ia julgar, decorreu o julgamento na melhor ordem, sem que nada de anormal haja a registar.

Abriu os debates o digno representante do Ministério Público, sendo o mais justo e imparcial na exposição que fez aos srs. jurados, seguindo-se-lhe o digno advogado da acusação, que produziu uma cerrada e bem fundamentada acusação, não deixando de por em relevo todos os factos que pudessem levar o júri a proferir o “veredictum” condenatório. Apesar do papel da acusação ser quási sempre pouco simpática e, muitas vezes, até odioso, s. ex.ª soube tão inteligentemente fazer a acusação do indiciado, que o seu discurso foi ouvido com religioso acatamento e até com apreço. A causa que s. ex.ª acusava é que não era de molde a captar as simpatias públicas, pois estas recaíam sobre o infeliz indiciado que por uma má sorte ocupava o banco dos réus.

Após o discurso da acusação foi, pelo integérrimo presidente do tribunal, dada a palavra ao ilustre advogado de defesa.

S. ex.ª, na brilhante oração que produziu, pôs bem em relevo as suas qualidades de orador de raça e os privilegiados dotes da sua máscula inteligência. Foi bela a sua defesa, deduzida em frases cheias de arte e emotividade que tão bem prenderam, durante algumas horas, todo o auditório que o escutava com o mais absoluto silêncio, preso dos seus lábios donde saíam, bem harmónicas, o lirismo, a eloquência, envoltos num misticismo ardente.

Encerrados os debates recolheu o júri para responder aos quesitos, cerca das 24 horas, regressando ao tribunal, uma hora depois, declarando, por unanimidade, como não provados os quesitos principais.

Pelo meritíssimo doutor juiz foi, então, lavrada a sentença absolutória, restituindo á liberdade, e sem custas, o indiciado Abílio Henriques de Pinho.

O “veredictum” do júri foi bem acolhido pela opinião pública»3.

O Domingos Gomes Leite era natural de Cabeçais, Fermedo, onde nasceu a 18 de Abril de 1862. Filho de José Gomes Leite e Rosa Raimunda. Faleceu pelas 22 horas, de 13 de Maio de 1919, no Hospital de Santo António, na cidade do Porto.

Casou em 10 de Maio de 1888, na igreja da freguesia de Carregosa, Oliveira de Azeméis, com Erminda Dias de Jesus, de 20 anos, do lugar de Silvares, daquela freguesia, filha de Francisco Ferreira dos Santos e Margarida Emília Dias. Faleceu a 26 de Janeiro de 18964.

Tiveram:

1-Gualdino Gomes Leite, n. 10-7-1890, na Praça.

2-Luciana Gomes Leite, n. 20-8-1895, Praça.

Casou em 2.as núpcias, a 1 de Setembro de 1898, na igreja de Carregosa, Oliveira de Azeméis, com sua cunhada, Leopoldina Ferreira dos Santos, de 19 anos5.

1 Jornal Gazeta de Arouca, n.º 390, de 17-5-1919.

2 Jornal Gazeta de Arouca, n.º 429, de 14-2-1920.

3 Jornal Gazeta de Arouca, n.º 479, de 5-2-1921.

4 Jornal Gazeta de Arouca, n.º 390, de 17-5-1919; e ADAVR – Regist. Paroq. freg. Carregosa, Oliveira de Azeméis. Livro de Casamentos, n.º 41 (1888), fls. 3 e 3v.

5 ADAVR – Regist. Paroq. Freg. Carregosa, Oliveira de Azeméis. Livro de Casamentos, n.º 72 (1898), fls. 4 e 4v.

Por: Alberto de Pinho Gonçalves