O Discurso Directo esteve à conversa com Joel Pinho, diretor desportivo do Futebol Clube de Arouca, que integra a II Liga. Os condicionalismos causados pela pandemia, as condições em termos de infraestruturas, os conflitos com a Câmara Municipal, o processo de insolvência, as expetativas para a temporada e os objetivos para o futuro, foram alguns dos temas abordados.

Discurso Directo (D.D.): Como está o Clube a viver os condicionalismos criados pela pandemia e como luta quotidianamente contra as suas consequências?

Joel Pinho (J.P.): Temos vivido da forma que é possível, seguindo sempre todas as recomendações da Direção Geral de Saúde, todos os planos de segurança e recomendações da Liga. É um ano diferente, mas que se está a viver com alguma tranquilidade. Não temos os adeptos nos jogos, que fazem muita falta, mas temos de entender que é por um bem maior e temos de nos sacrificar por isso.

D.D.: O processo de formação dos jovens futebolistas está em causa?

J.P.: Este é um ano muito atípico e em termos da formação ainda não temos nenhuma diretriz até ao momento. Achamos por bem não iniciar os treinos, porque as recomendações assim o impunham e estamos à espera que seja tomada uma decisão de forma a que nos digam o que podemos fazer. Tivemos inscrições e os miúdos estão todos prontos, mal tenhamos uma indicação serão informados para retomarmos.

D.D.: Para que valores aponta o orçamento do F.C. de Arouca para esta época?

J.P.: Eu não vou falar ainda de valores, porque depois isso será informado em Assembleia Geral, mas temos um orçamentos modesto, se calhar um dos mais baixos da II Liga. Numa altura de pandemia em que não temos muita certeza dos apoios que poderemos vir a ter, jogamos pelo seguro e temos um ano tranquilo relativamente a isso.

D.D.: O clube tem atualmente todas as condições para trabalhar, nomeadamente no que diz respeito a campo de treinos?

J.P.: Este ano conseguimos a utilização do campo de treinos com alguma dificuldade, sendo que da parte da autarquia o apoio é zero. Fizemos investimento em termos de ginásio, aquisição de equipamento, melhoramos algumas coisas que precisavam de ser melhoradas, ainda precisamos de melhorar muito mais, mas vamos trabalhando da forma que é possível.

D.D.: São conhecidos alguns conflitos entre a Direção do Clube e a Câmara Municipal de Arouca. Há condições para que este conflito possa ser ultrapassado?

J.P.: Eu não chamaria um conflito, eu diria mais que é uma falta de boa vontade, porque com boa vontade e bom senso tudo se consegue. Da nossa parte estamos sempre recetivos, não somos pessoas rancorosas e queremos, acima de tudo, o melhor para o Futebol Clube de Arouca e é nessa missão que estamos aqui. Sentimos que, em comparação com outras autarquias e outros clubes, não temos apoio nenhum. Outros clubes, como por exemplo Leixões, Vizela, Braga, têm apoios que nós não temos. Se formos a analisar vemos nas camisolas do Leixões a dizer ‘Matosinhos’, nas camisolas do Vizela a dizer ‘Vizela’ e por aí fora. Aqui o apoio é zero, pagamos uma renda para utilizar o estádio, pagamos a água, a luz, a manutenção do relvado, temos uma série de despesas fixas que os outros clubes não têm. Toda a manutenção do estádio está a ser feita por nós o que implica custos acrescidos bastante altos.

D.D.: Em relação à última reunião e ao incidente com o Vereador António Tavares quer explicar o que se passou?

J.P.: O comunicado que emitimos na altura foi explicito, mas posso clarificar algumas dúvidas. Houve uma reunião promovida pela Liga Portugal, que pediu para estarem presentes as partes intervenientes, neste caso para falar sobre as instalações. Foi pedida a presença da Presidente da Câmara, dos responsáveis do Arouca e da parte da liga veio a diretora executiva e os responsáveis pelo departamento de infraestruturas. Nessa reunião a presidente não esteve presente e não apresentou qualquer justificação, fazendo-se representar pelo Vereador António.

A Liga começou por expor as coisas que precisavam de ser melhoradas, porque com o passar dos anos os regulamentos foram alterados e se antes o estádio reunia todas as condições, neste momento não reúne as condições para que se possam realizar eventos desportivos. Uma vez que o estádio é camarário, passamos essa mesma informação à Câmara de forma a que possam proceder à retificações. Da parte da Câmara nunca há recetividade em querer ajudar, não lhes pedimos dinheiro, nem patrocínios, porque sabemos que da parte deles nunca virá. A única coisa que pedimos à Câmara foi a nível de infraestruturas, pois consideramos da responsabilidade da autarquia essas mesmas alterações. Isto é quase como quem arrenda uma casa, o senhorio é que tem de fazer as obras e não o inquilino. Nós aqui falamos desde melhorar o piso que está a descolar, as paredes estão cheias de humidade e a descascar, na sala de imprensa temos várias infiltrações, coisas que têm de ser melhoradas por parte da Câmara. A única coisa que a Câmara deu ok, depois dessa reunião, foi a reparação do piso, sendo que até agora, passados quase dois meses nada foi reparado.

O Arouca foi o maior motor de promoção do concelho desde 2006 até agora, esta é a realidade, mas a Câmara não parece ter a mesma opinião. Podíamos fazer todos uma parceira, se houvesse cooperação, mas da parte da Câmara não há.

D.D.: A Câmara de Arouca tem razão ao colocar o F.C. de Arouca em tribunal por dívidas sobre a utilização do estádio?

J.P.: O F.C. Arouca passou por um momento mais atribulado, que está a ultrapassar. Nós neste momento não devemos nada à Câmara Municipal de Arouca, isto é, temos um valor em dívida, mas a partir do momento em que estamos num processo de insolvência com um plano de recuperação, não podemos privilegiar credores. Essa dívida está congelada, está inserida no plano que vai ser definido e aprovado, a partir daí é uma situação corrente que em termos de gestão iremos cumprir. É uma decisão deles levarem a tribunal, acho que não é por seis mil euros que fará toda essa diferença.

D.D.: Há algum desenvolvimento relativo ao processo de insolvência do clube? Há algum plano em concreto?

J.P.: O PER (Processo Especial de Revitalização) não foi aprovado, apesar de ter 92% de votos a favor em termos de credores, a juíza achou que não deveria ser homologado. Depois tivemos de tomar uma decisão e fomos pelo caminho do Plano de Recuperação de Insolvência. Agora segue-se um processo semelhante ao PER, que julgamos será aprovado por maioria.

D.D.: Que balanço faz da prestação do clube esta época?

J.P.: A época está a correr bem, tem-se trabalhado bem, foi definida uma boa estratégia. Vamos continuar com tranquilidade. Os jogadores também mesmo com o Covid-19 têm-se adaptado bem, temos tido sempre uma relação de proximidade.

D.D.: Quais são os grandes objetivos para 2020-21?

J.P.: Penso que o futuro é bastante risonho. Neste momento queremo-nos consolidar o mais rapidamente na segunda Liga, de forma a que não tenhamos de voltar a sofrer mais. Depois sim pensar numa subida.

D.D.: Os arouquenses vibraram com as sucessivas subidas do clube até à primeira divisão, apoiando-o e tendo uma forte presença nos jogos. Depois da descida sentiu-se algum desligamento por parte de alguns desses arouquenses. Quais terão sido as razões?

J.P.: As pessoas quando tudo está bem vibram, quando as coisas correm mal gostam de apontar o dedo, penso que é uma situação que acaba por ser natural e acontece em todo o lado. Mas não conseguimos acertar sempre. Este ano também devido à pandemia e por não podermos ter público é um pouco mais difícil “medir” esse apoio.

Nós fazemos aqui um trabalho cívico, o presidente e eu não vivemos do futebol, estamos no futebol por paixão, porque é o clube da nossa terra e temos feito um trabalho meritório. A realidade é que o clube em 2006 estava nos distritais, nunca tinha passado de uma terceira divisão, e chegou a uma primeira liga, foi a uma Liga Europa, e é uma realidade que ninguém vai apagar da história do clube.

D.D.: Qual o momento mais feliz que teve enquanto dirigente do F.C. de Arouca?

J.P.: O que me deu mais gosto foi esta subida à segunda Liga. Estávamos dados como mortos, mas estávamos bem vivos e a prova disso é o que está a acontecer este ano. Foi mesmo o momento que me fez sentir mais orgulho. Claro que a subida à Primeira Liga e a participação na Liga Europa foram momentos muito felizes, mas aquele que me encheu de alegria máxima foi esta subida à segunda Liga.

D.D.: Tem sido há vários anos o braço direito desta direção e do presidente. Revê-se, num futuro próximo, como sucessor à presidência?

J.P.: Não penso nisso, o presidente está lá muito bem, eu não tenho a capacidade dele. Nós temos de saber as nossas limitações e eu neste momento, em comparação, não tenho comparação. É uma pessoa que tem outro arcaboiço que eu não tenho e acho que, acima de tudo, completamo-nos, e é esta cumplicidade o segredo do sucesso.

Fotos: Carlos Pinho