Foi o 3º diretor do Colégio Salesiano entre 1969 a 1973. Dos Salesianos que passaram por Arouca entre 1960 a 1982 foi, certamente, um dos que maiores recordações e saudades deixou na população arouquense, pela sua alegria, pela sua simplicidade, pelo seu desprendimento, pela sua capacidade comunicativa e pelas suas sedutoras homilias nas celebrações eucarísticas abertas à população na antiga “capela dos Salesianos”. Estamos a falar, obviamente, do Pe. Zé Maria.

Na tarde do dia 26 de outubro de 2020 viria a falecer na sequência de uma queda que deu na casa de banho da Residência para idosos em Manique. Tinha 90 anos feitos em março e apesar de, por vezes, revelar já algum esquecimento, estava fisicamente de boa saúde.

Arouca sempre manteve com o Pe. Zé Maria uma relação de grande amizade e de boa colaboração com as suas atividades missionárias em Moçambique, onde passou os últimos 30 anos da sua vida. Durante muitos anos, Arouca, através do Centro Juvenil Salesiano e dos Salesianos Cooperadores e demais amigos da Obra Salesiana fizeram-lhe chegar vários donativos que muitos arouquenses entregavam “para o Pe. Zé Maria”, mas que sabíamos que iam diretamente para os seus “meninos” do mato. Chegou, inclusive, a ser enviada uma bicicleta para as suas digressões missionárias através do mato para visitar e animar as suas “catedrais de colmo”, como ele gostava de chamar aos espaços onde celebrava a missa e fazia a catequese dos nativos.

Com Arouca no coração

Todas as vezes que regressava a Portugal, ao longo dos seus 30 anos como missionário em Moçambique, o Pe. Zé Maria sempre fez questão de passar por Arouca para saudar os muitos amigos que aqui deixou e também para agradecer essa amizade e todo o apoio que Arouca, generosamente, lhe sabia prestar para as suas atividades missionárias.

Com o seu espírito jovem e alegre e com a sua grande capacidade comunicativa, vários eram os momentos que este missionário aproveitava sempre para saudar, agradecer e também para falar da sua atividade missionária em Moçambique. Chegava mesmo a aproveitar a imprensa local para fazer chegar a sua mensagem de missionário à população arouquense.

Na sua última visita que fez a Arouca, em Agosto de 2010, escrevemos o texto “O missionário passou por aqui” que agora publicamos como homenagem de gratidão e de saudade a um homem que passou por esta vida fazendo o bem e enriquecendo com o seu testemunho de vida todos aqueles que com ele se cruzaram ao longo da vida.

O MISSIONÁRIO PASSOU POR AQUI!…

De mãos vazias, mas de coração cheio de amizade e com um sorriso nos lábios – um sorriso aberto e cativante que lhe vem do fundo da alma – o Missionário passou por aqui, distribuindo a todos os que encontrava, o seu gesto de amigo, o seu sorriso sincero e espontâneo, o seu olhar sereno de bondade e de simpatia, a sua palavra reconfortante e animadora e o seu abraço fraterno, como se todos fossem irmãos e amigos de longa data.

De muitos já não recordava o nome, mas reconhecia a fisionomia.

Com vários deles recordou episódios do passado, ou evocou factos dos velhos tempos, que se mantêm religiosamente arquivados na memória de muitos.

Conviveu com os mais pequenos e com os mais velhos, com doentes e com gente saudável.

Falou com amigos dos “bons velhos tempos” e com conhecidos de última hora.

Visitou idosos, já agarrados às suas muletas; reconfortou doentes em camas de dor e entrou em casa de paralíticos, impossibilitados de caminhar.

Para as centenas de pessoas que acorreram a ouvi-lo, falou da sua promissora igreja jovem de Moçambique, com eles cantou em “ronga” e para eles testemunhou a sua alegria e o seu entusiasmo em trabalhar com essa gente necessitada de pão e sequiosa de Deus.

A sua breve passagem por aqui, naquele fim de semana, foi como um bálsamo reconfortante para todos os que com ele contactaram e para os quais deixou palavras de fé, de esperança, de bondade e de confiança no mesmo Deus a quem entregou a sua existência ao longo dos seus 86 anos de vida, 30 dos quais em Moçambique.

O seu testemunho de homem de Deus, simples, alegre e desprendido de tudo, em todos deixou sementes de bondade e em muitos terá despertado estímulos de imitação.

Para este Missionário que não passou em vão por aqui, um grande “KANIMBAMBO” de agradecimento pelo rasto de bondade que cá deixou, pelo testemunho de fé e de vida que nos transmitiu e pelas sementes de estímulo, de amizade e de simpatia que largou no coração de muitos.

Descanse e paz, Pe. Zé Maria!

Texto de José Cerca