Dia do Património das Misericórdias: ‘Sem memória não há futuro’

Foto: Carlos Pinho

A décima edição do Dia Património, em Arouca, foi a mais participada em dez anos de reflexão em defesa e para promoção das potencialidades do património das Misericórdias, contando com 150 pessoas, entre técnicos, provedores, investigadores, parceiros (município, diocese, Direção Regional de Cultura do Norte, Cooperativa Árvore) e comunidade. Ao longo de uma década de trabalho, mais de 60 Misericórdias apresentaram a sua intervenção nesta área, a que se juntou ainda um leque de 30 oradores, 1000 participantes e 50 entidades representadas.

Depois de Lisboa, Guimarães, Mora, Braga, Redondo, Castelo Branco, Viseu, Monchique, Pedrógão Grande, esta jornada chegou a Arouca a 25 de outubro para, segundo o presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), Manuel de Lemos, reforçar a ação, trabalhar em parceria e projetar uma realidade única em Portugal. “Temos percorrido o território nacional porque em todo o país há este património imenso, não apenas o material, mas também imaterial, a cultura, os valores e raízes que nos ajudam a permanecer vivos. Um povo sem memória não tem futuro e por isso é importante que nos encontremos para mobilizar novos públicos e criar sensibilidade para a causa das Misericórdias”.

Ao longo do dia foram vários os oradores que defenderam a valorização do património das Misericórdias e outras entidades, através da promoção de projetos de turismo sustentável que respeitam os recursos (naturais, culturais, humanos) disponíveis em cada região.

No arranque do debate, Maria Celeste de Aguiar Eusébio, docente da Universidade de Aveiro, recomendou uma “estratégia assente em princípios de desenvolvimento sustentável, mediante a criação de redes e parcerias, que satisfaçam agentes, visitantes e comunidades, a utilização de tecnologias que tornem o património mais atrativo e a preservação de recursos”.

A aposta em produtos turísticos que geram riqueza nas regiões e que fazem dos visitantes “agentes ativos” em experiências originais foi apontada como “estratégica” nesse modelo de gestão que olha para “o património como herança que preserva uma memória”. Os turistas, continuou a docente, “querem falar com a comunidade, ouvir as histórias das pessoas e participar em experiências sensoriais que utilizam o património como recurso”.

Para manter vivo esse património, é necessário adequar os meios de transmissão e estratégias de divulgação desse legado a partir da infância e juventude. A ideia foi defendida pela presidente da Câmara Municipal de Arouca, Margarida Correia Belém, numa intervenção em que frisou a importância de “transmitir, comunicar, ensinar e educar para a valorização desse património, desde o pré-escolar. O património material e imaterial tem de ser vivido pelas pessoas, interpretado e descodificado, tem de se contar histórias à volta dele”.

No caso das Misericórdias convidadas a partilhar o seu testemunho, as estratégias são díspares, mas têm como denominador comum a valorização do património, com recurso a sinergias locais e interação com a comunidade.

Em Aveiro, foram destacadas como boas práticas o inventário e digitalização do acervo documental (disponível online), as obras de conservação na igreja e a divulgação do património através de concertos e eventos culturais. Em Santa Maria da Feira, a Santa Casa tem promovido visitas às obras de requalificação da igreja para envolver a comunidade e incentivar a equipa a concluir os trabalhos.

Quando não há recursos para criar núcleos museológicos, a solução pode recair na cedência das peças ao município, em regime de depósito, para criação de um museu de arte sacra. Assim optou por fazer a Misericórdia de Sesimbra, sem perder a posse do espólio artístico.

Para enriquecer a programação cultural da cidade, a Misericórdia de Lamego tem dinamizado um ciclo de concertos de música sacra, na Igreja das Chagas, com a participação de grupos convidados e do próprio coral da instituição, composto por irmãos e membros da comunidade.

Em Arouca, a Santa Casa anfitriã tem optado por valorizar o seu espólio (azulejaria, pintura, escultura, ourivesaria, objetos da vida quotidiana) com visitas abertas ao público e comunidade escolar, oficinas de artesanato desenvolvidas pelos utentes do centro de dia e atividades lúdicas ligadas às tradições rurais (núcleo da lavoura e do linho).

Louvando os exemplos apresentados, o responsável pelo Gabinete de Património Cultural da UMP, Mariano Cabaço, lembrou a parceria com o Ministério da Cultura, que envolve as Direções Regionais de Cultura na prestação de apoio técnico às Misericórdias (diagnóstico e acompanhamento de intervenções nos imóveis) e sensibilizou para a importância de solicitar aconselhamento de peritos nesta matéria antes de avançar com projetos de requalificação. Em representação do Diretor Regional de Cultura do Norte, David Ferreira mostrou-se “disponível para colaborar neste desiderato comum de salvaguardar e valorizar o património”.

Para concluir os trabalhos, o vogal do Secretariado Nacional da UMP responsável pela área de património, José Silveira, congratulou-se pela adesão das Misericórdias numa jornada que “deu a conhecer constrangimentos mas também muitas realizações e excelentes práticas de gestão do património”. Não partiu sem deixar um convite para a 11ª edição: “Este trabalho deve continuar e ser reforçado. Estaremos em Viana do Castelo no próximo ano”.

Ana Cargaleiro de Freitas (Voz das Misericórdias)

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.