O “bulling” não é um fenómeno novo, mas é uma problemática relativamente recente, sendo um comportamento agressivo, intencional, com contornos de repetição sistemática e desigualdade de poder entre os envolvidos, ocorrendo a maioria das vezes em contexto escolar. Estes comportamentos têm repercussões psicossociais de dimensão imensurável para todos os envolvidos, agressores e agredidos, levando-os, por vezes, ao abscentismo e até ao abandono escolar. O “bulling” pode acontecer durante ou depois das actividades escolares, dentro ou fora do espaço físico da escola, nos espaços circundantes, transportes e na internet. A escola é o local mais susceptível a esta prática, talvez, porque as crianças e jovens estão em fase de formação, têm necessidade de autoafirmação e falta de hábitos de convivência com a diferença. As crianças, vítimas de “bulling” podem sentir-se frequentemente com medo, com dificuldade de concentração, com piores resultados escolares, podendo afectar em vários aspectos a construção da sua identidade e personalidade, levando-as a não querer ir para a escola e a permanecer, muitas vezes, em silêncio para evitarem novas e mais fortes agressões.

O “bulling” não é normal, não faz parte de ser criança, de crescer e não torna as crianças mais fortes. Pelo contrário, é um problema crónico nas escolas, com consequências sérias tanto para as vítimas como para os agressores. É difícil saber exactamente as prevalências deste fenómeno que surgiu nos anos setenta do século XX, nos países nórdicos, generalizando-se rapidamente aos outros países da Europa. A palavra “bulling” é de origem inglesa e tem como significado o acto de ameaçar, agredir ou intimidar alguém física, verbal, material, sexual, virtual ou psicológicamente, de forma intencional e repetida. É, sem dúvida, um grave problema social, um fenómeno universal, multicultural, endémico, um problema de saúde pública, que exige esforços mais intensivos de prevenção e intervenção. Estudos evidenciam que a maior ocorrência de “bulling”, verifica-se nos primeiros anos de escolaridade (6 a 13 anos de idade). Ao longo do tempo, com o aumento da idade e do nível de escolaridade, o índice deste fenómeno tende a diminuir, verificando-se que no ensino secundário, a curva da agressão tende a descer.

Não é possível identificar, com exactidão, um único factor para explicação do “bulling”. No entanto, sabe-se que há factores individuais, familiares e sociais. O contexto familiar e escolar são fundamentais para se prevenir este fenómeno. Quando estas estruturas não são factores de protecção, podem desenvolver-se comportamentos de risco que desaguam no “bulling” com consequências que podem perdurar ao longo do tempo, face às atrocidades de que muitas crianças e adolescentes são vítimas, e em muitas situações sem resposta para prevenir a sua reincidência.

O “bulling” tem abanado as escolas e preocupado os professores pelas consequências negativas para os agressores e vítimas, assim como pelo prejuízo que acarreta ao normal funcionamento da instituição escolar, daí a necessidade urgente de fazer estancar esta violência com uma acção concertada de reacção ao problema com medidas preventivas e acções interventivas em parceria com a família e a comunidade. Em Portugal, os estudos sobre “bulling” são recentes. Contudo, são evidentes as proporções elevadas no número de casos já constatados. Esta problemática e a exclusão que deflagram na sociedade actual, reflectem-se, com acuidade, numa das suas células vitais – a escola. É urgente dotar as escolas de mais e melhores meios para que constituam, efectivamente, um espaço privilegiado de aprendizagem, salvaguardando o carácter emergente de uma educação para a cidadania.

Texto de Rosa Morais