A entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1986, resultou de vários anos de difíceis negociações com os restantes parceiros. A 12 de Junho de 1985 Portugal assinava o tratado de adesão, o culminar de uma candidatura realizada a 28 de Março de 1977, depois de ultrapassadas diversas dificuldades de processos negociais que se arrastaram por oito anos e oito governos em que, sobre a mesa das negociações, entre outros temas, estiveram questões relacionadas com o comércio, a agricultura, as pescas e a emigração.

A 19 de Julho de 1987 realizavam-se as primeiras eleições para o Parlamento Europeu em Portugal, no mesmo dia de umas eleições legislativas. Ao consultar os resultados desse escrutínio, a abstenção situou-se nos 28%, o que contrasta com os números absolutamente desoladores que se verificaram nas eleições do passado dia 26 de Maio, em que a abstenção atingiu valores muito perto dos… 70%! Ora, numa análise puramente estatística e baseada nos números, o que se verifica é que a percentagem de inscritos e com direito de voto que não votaram em 1987 é praticamente a mesma daqueles que exerceram o seu voto em 2019.

No pequeno apontamento histórico referido no início deste escrito é curioso verificar que muitos dos temas que estavam na mesa de negociações continuam atuais, sendo de destacar a agricultura e, principalmente, as migrações. Este último muito presente e fator de afluência às urnas nas eleições que decorreram em todo o continente europeu. Mas, independentemente do grande “vencedor” destas eleições europeias, a abstenção, o qual merece mais reflexão do que simplesmente os meus anteriores 2 parágrafos, partimos para a análise dos resultados dos partidos. E, se podemos afirmar um vencedor dentro do referido universo reduzido de votantes, esse foi o PS que teve mais votos do que todos os partidos e conseguiu eleger 9 eurodeputados, mais um do que na anterior eleição. O curioso é que o PS venceu mas com um resultado que está apenas 2% acima daquele que foi designado por “poucochinho” em 2014 pelo então candidato a líder António Costa! A vitória torna-se mais expressiva pela distância de mais de 10 pontos percentuais face ao Partido Social Democrata. Num contexto adverso, mas diferente daquele pelo qual o partido passou em 2014 (à altura a concorrer coligado com o CDS), o PSD apenas conseguiu manter os seus 6 eurodeputados.

O CDS manteve o seu eurodeputado, tendo este resultado demonstrado e clarificado um pouco algum do deslumbramento pelo qual este partido enveredou aquando do seu congresso o ano passado. Quantos aos restantes partidos da “geringonça”, são evidentes as perdas em atos eleitorais sucessivos da CDU desde que decidiu cooperar com o PS, tendo o Bloco de Esquerda, muito por culpa da sua cabeça de lista, um resultado que os volta a colocar nos 2 dígitos, precisamente aqueles que obteve nas últimas eleições legislativas, recuperando do descalabro de 2014 e elegendo o mesmo número de eurodeputados que a CDU!

A surpresa surgiu com a eleição do Eurodeputado do PAN! Uma votação que demonstra o impacto de temas como o ambiente e o animalismo junto das gerações mais jovens. Este partido conseguiu, inclusivamente, mais votos que a CDU no nosso concelho. Em Arouca, o PSD conseguiu um resultado expressivo, uma vitória incontestável, principalmente quando verificamos que no distrito de Aveiro tal não aconteceu. Apenas em Sever de Vouga o PSD conseguiu vencer em idênticas condições, isto é, num município com câmara socialista.

Infelizmente, também em Arouca, a abstenção andou quase nos 70%. Começa também aqui, no nosso município, junto das nossas gentes, a haver necessidade de muito trabalho de forma a contrariar estes números. É necessário que os arouquenses sintam que fazem efetivamente parte do projeto europeu e o quanto ele influencia positivamente o nosso município.

Texto de Artur Miler