A taxa de abstenção verificada nas últimas eleições europeias deixam-me preocupado relativamente ao futuro do regime democrático em Portugal. Praticamente setenta por cento dos portugueses decidiram não exercer o seu direito de voto. Se é verdade que as Eleições Europeias possuem a característica de serem as eleições com menor taxa de participação, fruto do desinteresse por parte dos eleitores e até o desconhecimento de que o resultado das mesmas tem um progressivo impacto nas nossas vidas, também é verdade que essa alta abstenção é fruto da descrença no sistema político e nos partidos políticos.

Muitos defendem que os portugueses tem outras prioridades do que a definição do seu futuro, que o futebol, as novelas e outras vivências estão no topo das suas preocupações, discordo profundamente desta teoria para o não exercício de um direito cívico.

Com a implantação da democracia, em 25 de Abril de 1974, os níveis de participação em eleições mostraram-se elevados, os portugueses participavam na decisão bem como existia uma militância ativa nos partidos políticos.

Fruto de um percurso de décadas, em que o combate político foi efetuado com falácias, fake news, show off, em que a sedução para captar o voto raramente se fez com a apresentação de propostas para a resolução dos reais problemas das população provocou inevitavelmente um afastamento dos eleitores.

Ao mesmo tempo, o cancro da democracia foi alastrando, dentro do sistema público, nas instituições e nos partidos políticos. As constantes noticias vindas a público dando nota do aumento de situações de corrupção poderão ter como consequência trágica a saída do sistema democrático dos cuidados intensivos e a declaração do seu óbito.

São dezenas de casos de suspeitas de corrupção que envolvem governantes e ex-governantes, dirigentes da administração publica e autarcas. Teremos de partir do pressuposto da inocência, mas a verdade é que a inexistência de uma justiça rápida, eficaz e esclarecedora em nada abona para a credibilização de todo o tipo de gestores de dinheiros públicos.

A única forma de haver uma recuperação da democracia passará necessariamente por uma mudança de postura dos agentes políticos, mudança essa que terá de estar assente em princípios éticos fundamentais: a verdade e a honestidade, aliadas com a positividade e a credibilidade poderão ser o verdadeiro antídoto para o cancro da Democracia.

Se todos os partidos, todos os agentes políticos alterarem o seu comportamento da forma descrita, tenho a certeza que os portugueses voltarão a ter confiança nos sistema.

A mudança de postura dos políticos, um claro combate à corrupção e um esclarecimento cabal de todas as suspeitas de situações menos transparentes e legais serão os principais desafios que se avizinham. Ainda há tempo para recuperar a democracia, se houver respeito pela sua pedra basilar – o eleitor.

Texto de Pedro Magalhães