O dia 25 do 4º mês do ano é o dia da liberdade, da voz para todos, é uma utopia transformada em liberdade e uma história de esperança.

A sociedade portuguesa sofreu profundas transformações nas últimas quatro décadas. O tempo desta mudança histórica é o tempo do 25 de Abril, da liberdade, da democracia, da descolonização, dos partidos políticos e da conquista de direitos.

Estamos em Abril, mês em que o povo gosta de sair à rua, pois esta continua a ser o espaço onde se faz “causa da coisa pública” e funciona como lugar de liberdade e participação, porque é na rua que quase tudo acontece. Aquele 25 de Abril de 1974 aconteceu na rua e quase parecia impraticável, por tão excessivo: tantos sorrisos, abraços, crianças deslumbradas, velhos atónitos, mulheres e homens vivendo velozmente, povo e militares irmanados na mesma alegria, bandeiras colorindo o vento, tanques a ondular, unimogues deslizando por velhas ruas, a ver florir a esperança no olhar de todos os que por ali passavam. Era um Abril tão ansiado, tão amadurecido e tão sofrido dentro do mais íntimo de todos nós, lá onde só a esperança e a confiança não morrem que ele irrompia das mãos, das bocas e dos olhos com tal ímpeto que, por vezes, estilhaçava a frágil luz de uma primavera tão recente. Abril jorrava como um rio inundando as margens com a democracia, a liberdade, a justiça social, a arte, a cultura e a dignidade. Um rio que muitos sonharam que um dia traria à flor das suas águas essa planta tão rara e impossível como o trevo de quatro folhas, mas que muitos jamais perderam a esperança. Abril abriu portas e janelas que não se podem fechar. Abril foi liberdade e soberania, foi a afirmação da dignidade humana, da igualdade, da democracia, da paz, do progresso social e cultural e do desenvolvimento da nossa sociedade.

Abril é um caminho salpicado de sonhos e projectos, uns já concretizados, outros ainda por cumprir, mas também é não aceitar estes sonhos e projectos adiados. O espírito e os ideais de Abril são um processo inacabado, enquanto houver:

– percentagens elevadíssimas de violência doméstica, da qual tem resultado um número assustador de mortes;

– crianças vítimas de maus tratos e abusos sexuais, muitas vezes no seio familiar e por quem tinha o dever de as proteger;

– um grande número dos nossos idosos com poucos recursos, a viverem sem o mínimo de dignidade e a serem menosprezados pelos próprios familiares mais próximos;

– deficientes a serem maltratados e explorados;

– uma das mais elevadas percentagens de corrupção;

– uma diferença salarial tão elevada, da qual resulta uma grande desigualdade social;

– tanta precariedade laboral;

– mais de metade da população empregada com dificuldades em pagar as despesas básicas;

– dezenas de milhar de pessoas a viverem na pobreza.

Comemorar Abril é lembrar os projectos adiados que é preciso concretizar para termos a sociedade com que a revolução nos fez sonhar.

Texto de Rosa Morais