LENDAS E HISTÓRIAS DE AROUCA

Fotos: Carlos Pinho

Era uma vez….

Era assim que, antigamente, sobretudo aos serões, à volta da lareira e no aconchego familiar, muitas das histórias populares eram transmitidas oralmente, de geração para geração, criando mesmo aquilo que viria a ser designado mais tarde, como “literatura oral”, amplamente estudada em ambientes académicos.

E foi baseado nessa rica “literatura oral”, existente também em Arouca, que a associação “Círculo Cultura e Democracia” promoveu mais um dos seus serões, no dia 17 de novembro, na Biblioteca D. Domingos de Pinho Brandão, instalada em espaços conventuais.

Importância e atualidade da literatura oral

E para introduzir esse tema ninguém melhor do que Arnaldo Saraiva, professor emérito da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Através da sua grande capacidade comunicativa, Arnaldo Saraiva galvanizou a atenção do público presente falando da importância da memória sem a qual “não se pode viver”; descrevendo a linguagem como “um mistério” e as cordas vocais como “uma maravilha”; falando dos diversos tipos de comunicação, nomeadamente a comunicação oral e a comunicação escrita e privilegiando a comunicação oral, até porque qualquer ser humano começa sempre por falar antes de escrever.

Na sua fluente e cativante digressão pelo tema da oralidade, Arnaldo Saraiva considerou que os serões eram momentos e espaços favoráveis à transmissão da oralidade e referiu que são cada vez mais raros os informadores da memória oral, devido à evolução social e tecnológica em que vivemos.

Depois de fazer uma breve análise a um dos textos mais conhecidos da nossa literatura oral “A Nau Catrineta” (Catarineta, melhor dizendo, pois esta narrativa refere-se à nau Santa Catarina), o professor universitário referiu outros exemplos de oralidade tais como, contos populares, lendas, adivinhas, provérbios, anedotas, quadras populares e até mesmo cantares ao desafio e que constituem toda uma vasta e diversificada literatura oral que tem resistido à evolução vertiginosa dos tempos.

Exemplos locais de literatura oral

Depois desta introdução, entrou em acção o Grupo Cultural e Recreativo de Rossas que, de uma maneira criativa e bem divertida, interpretou alguns dos contos populares e algumas das lendas de Arouca, através de três dos seus elementos. E foi assim que deram vida à “lenda do preto de Terçoso”, à lenda das “laranjas do Burgo”, à lenda de “Soror Rosimunda” e à lenda das “pegas da rainha santa Mafalda”.

A intervalar estas interpretações, foram sendo lidos alguns contos populares, também relacionados com Arouca e recolhidos, junto de pessoas mais idosas, por alunos da professora Maria Antónia Soares dos Reis Brandão, quando leccionou na Escola Secundária de Arouca, durante o ano lectivo de 1994-95. Essas histórias viriam a ser reunidas, anos depois, em 2015, na colectânea “Histórias de Arouca”. Foi dessa colectânea que foram lidas, pela referida professora, três dessas histórias pertencentes ao  acervo do património oral de Arouca.

Lançado o desafio ao público presente, foram ainda acrescentadas ao reportório oral deste serão mais três narrativas, uma sobre a Fada Capuchinha, narrada por uma jovem (Ortelinda); outra sobre a lenda da Senhora da Mó, narrada por uma criança (David); e finalmente, a evocação do episódio das “relas” passado, há muitos anos, durante uma semana santa, na vila de Arouca, recordado pela memória de Carlos Esteves.

E assim, através da dramatização, da leitura e da narração de alguns exemplares do acervo oral de Arouca se realizou mais uma sessão dos “Serões do Círculo”, contribuindo assim para a preservação dos valores da nossa cultura oral. 

Texto de José Cerca

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