OPINIÃO | Beijar os avós será uma violência ou um dever?

Num programa televisivo, um professor universitário afirmou que obrigar crianças a beijar avós é uma violência: “Quando a avozinha ou o avozinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho, estamos a educar para a violência sobre o corpo do ouro ou da outra, desde criança.” Continuou a afirmar que ter este gesto físico de intimidade com outra pessoa como uma obrigação coerciva pode ter consequências negativas no futuro, levando à violência.

Naturalmente, concordando ou não, respeito a opinião de cada um. No entanto, acho que este professor não deve ter tido avós, ou não os teve como devia ter. Como merecia. Talvez tenha tido “avozinhos”, como afirma!

É verdade que muitos avós estão doentes, alguns debilitados com doenças incuráveis, em casa, lares, hospitais. Mesmo assim, não acho aceitável impedir o confronto com a doença, com a velhice, mesmo com a própria morte. Faz parte da vida. Isso sim, leva a uma violência, o afastamento das crianças, ficando os idosos sozinhos e abandonados. É uma forma de humanização dos mais novos, visto que a realidade deles é virtual, marcada por jogos, computador, redes sociais, sem qualquer sensibilidade de proximidade com o outro.

Esta lacuna na educação faz com que prolifere o egoísmo, porque não há tempo para visitar os idosos. É uma seca! No futuro, nestas gerações, cada um pensará só em si e serão incapazes de lidar com o fracasso e com a dor.

Acho que as crianças não devem ser obrigadas a beijar, mas devem entender que é uma justiça e um dever fazê-lo. É um gesto de gratidão. Educar neste sentido não é educar para a violência. É educar para o reconhecimento de que estamos perto, junto da alma daqueles que contribuíram para a existência, para a transmissão da vida. Que em muitas crianças têm um papel central na sua vida, desde o seu nascimento, até à altura da escola. Os avós estão aí presentes aliviando a vida dos pais.

Transmitem um conjunto de valores que a criança, passado algum tempo, compreende que estão na base dos princípios da sua família, o que lhes transmite um forte sentido de pertença, tal como um sentido de comunidade. Quantas histórias, quantas canções…quanta segurança que transmitem aos netos. São um porto seguro.

Também permitem alguns “abusos”…por isso são avós e não pais. Os pais devem educar. Sem dúvida que também educam, mas também “deseducam”: permitem furar algumas regras, abusar nas coisas doces, mimam muito. Sabem que podem fazer umas coisas com uns e com outros não!

Estas pequenas transgressões, passar os limites, também são importantes, pois a vida não pode ser assim tão rígida e compreendemo-lo pela vida fora. É uma forma de desfrutar da vida e que há lugar para tudo equilibradamente.

Os avós deixarem-se beijar é sinal que os temos perto de nós; é sinal que o mundo ainda é humano; é sinal que o mundo será um lugar de memória, de paz e com futuro.

Eu tenho muitas saudades dos meus avós. Sonho com eles e recordo-os frequentemente e os seus ensinamentos. Sinto o seu contacto, o seu cheiro, o seu sorriso, as suas rugas sabias, a sua alma. Beijem-nos enquanto os têm.

Texto de Carlos Matos 

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