OPINIÃO | Retrocessos

A mensagem política tem estado muito em voga nos últimos tempos. Através da opinião pública e publicada, muitos são aqueles que se têm debruçado insistentemente nas mais variadas teses sobre a realidade que vivemos e das mudanças que vão decorrendo em várias democracias, tentando enquadrar e encontrar explicação em diferentes períodos da história. Questões como as relacionadas com a distância que existe entre as instituições e a população, a deterioração dos serviços públicos na forma como são usados os mecanismos do estado e, principalmente, a cada vez maior desconfiança entre os eleitores e os eleitos fazem parte do quotidiano de todos nós.

Não quero, com esta introdução, induzir o leitor em erro e pensar que vou incidir este articulado sobre a cada vez mais propalada eleição brasileira, até porque nela podemos praticamente vislumbrar um culminar de duas fações extremadas a enfrentarem-se numa segunda volta, o que, por si só, é um retrocesso no que à democracia diz respeito. Quero, isso sim, falar essencialmente dessa questão fundamental do valor da palavra, do valor da confiança em quem nos governa e na forma como é importante não defraudar expetativas, principalmente nos tempos que vivemos. Muito por via das redes sociais, as quais, de um momento para o outro, conseguem arrebatar todas as atenções e promover divisões no seio da nossa sociedade.

Gostaria de partilhar com o leitor o desconforto perante certas decisões que, infelizmente, nos últimos tempos, acabaram por simplesmente denegrir mais uma vez o valor da palavra no âmbito da ação política. Atente-se no exemplo da descentralização, um tema consensual na sociedade portuguesa. Muitas das competências e funções do Estado devem deixar de estar concentradas no poder central, podendo e devendo ser delegadas em instituições e centros de poder mais próximos da população.

Apesar do desnorte que conduziu todo o processo que motivou a decisão do Governo de fazer a mudança do Infarmed de Lisboa para o Porto (transparecendo desde o início que havia sido uma decisão tomada ao sabor de uma já mal gerida e falhada candidatura portuguesa para receber a sede da Agência Europeia do Medicamento) nada fazia crer, perante o compromisso assumido no Parlamento e com as várias entidades envolvidas da região, que se deixasse cair de forma dissimulada esta decisão e se gorassem todas as expetativas criadas ao longo deste último ano!

Este último caso, por si só, poderia ser classificado apenas como um retrocesso. Mas a verdade é que para contribuir ainda mais para a descredibilização da classe política, nesse mesmo período, o Ministério do Ensino Superior deixava igualmente cair por terra uma decisão que havia tomado com pompa e circunstância sobre a equiparação que seria concedida às licenciaturas pré-Bolonha aos atuais mestrados integrados. Mais um retrocesso! Isto numa semana em que percebemos, pela nossa carteira, que os preços dos combustíveis voltaram a subir, atingindo agora novos máximos dos últimos cinco anos, quando ainda a troika aqui estava, estando o governo também aqui a faltar à sua palavra, quando havia prometido baixar estes impostos se se verificasse a subida do preço do petróleo, de forma a proteger as famílias portuguesas. Mais um retrocesso!

Esperemos nós, arouquenses, que não haja mais um retrocesso como estes, à semelhança daqueles com que fomos “presenteados” ao longo de anos no que toca à famigerada variante, depois do anúncio de António Costa. Já diz o ditado: “Gato escaldado de água fria tem medo!”.

Texto de Artur Miler

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