Vivemos a época natalícia. Há muitos, mas mesmo muitos sinais, para além do calendário, que nos levam a fazer tal afirmação. Mas afinal quando deveria começar este tempo? Depende da perspetiva.

Na longa Tradição Cristã existe um tempo litúrgico de preparação para o Natal: a Novena de Natal. Nove dias antes, significando, cada dia, um mês de gestação.

Contudo, e noutra perspetiva, a que conta para a maioria das pessoas, o comércio é quem dita o início e o fim da quadra, porque nos quer envolvidos nas preparações natalinas até à última ponta do cabelo e o mais cedo possível.

O leitor lembra-se quando viu as primeiras montras enfeitadas, viu e ouviu as primeiras publicidades sobre o Natal. Os Centros Comerciais não perderam tempo em tornar-se um local apetecível e ideal com luz, cor, música, arranjos… para se estar longo e longo tempo. O comércio dita o fim por altura do Reis, pois há que preparar já o dia dos namorados, o Carnaval e por aí a diante!

Dá a entender que não nos é mais permitido viver e saborear cada momento. Esta avalanche leva-nos, sem nos apercebermos, “como se andássemos a ser cevados por tratadores dum matadouro qualquer. Uma das formas de dormência atual é esta hipnose coletiva, esta náusea gerada pela pressa e pela pressão.” R.S.

É impressionante como nós conseguimos transformar o Natal do avesso daquilo que ele deveria ser: fazer festas megalómanas com grandes “pançadas”, consumismo e materialismo; pessoas descontroladas a fazerem listas imensas de coisas, pensando única e exclusivamente nas compras e no dinheiro; crianças que escrevem cartas ao Pai Natal com uma infinita lista de brinquedos, caros, que viram na publicidade ou com os seus heróis da “bonecada”; pessoas que confundem afetos com presentes e onde não há tempo para a calma, serenidade e reflexão…

No entanto há muita gente a viver abaixo do limiar da pobreza; imensos jovens e adolescentes preocupados com as selfies e redes sociais, incapazes de diálogo e de paciência com os pais e mais idosos; pessoas excluídas e marginalizadas das quais o Papa Francisco destaca muitas crianças que hoje não são reclinadas num berço nem acariciadas pelo carinho da mãe e do pai, mas jazem nas miseráveis “manjedouras de dignidade”: fome, guerra, abandono e muitas que na mão não têm brinquedos, mas armas.

O mistério do Natal é um mistério de esperança. Por isso, o novo ano é o tempo propício para a vivência de uma nova esperança. Celebrar o Natal, é um ótimo sinal. Porque, de facto, os valores cristãos são extraordinariamente humanos e humanizadores, porque são libertadores e não opressores.

Jesus faz-se, não só homem, mas homem pobre, deslocado, sofredor, para que todos lhe possam ter acesso. Vem ao mais ínfimo lugar da história humana, para que o encontro pessoal com os que mais sofrem possa ser recriador de uma nova humanidade.

O próximo ano é o tempo de viver esta humanidade pela simplicidade, pela ternura afetuosa, pela construção da paz e pela coragem da humildade e da reconciliação. O tempo de dizer obrigado, de nos comprometermos realmente com um mundo mais justo. E ter a certeza de que o Amor incondicional por cada um de nós, celebrado no Natal, seja como for a nossa vida, acompanhar-nos-á sempre e não estaremos sozinhos. Por isso, a vida ganha sentido. Esta é a minha esperança.

Carlos Matos