Outubro também é mês de vindimas e, à semelhança dos anos anteriores, cumpriu-se a tradição um pouco por todo o país. O Discurso Directo falou com diversos produtores de vinho dos concelhos de Arouca e Vale de Cambra, que nos contaram de que forma correram as vindimas e quais são as dificuldades que enfrentam diariamente. Na generalidade, todos concordaram que 2016 foi um ano marcado por uma quebra na produção mas que deixa antever vinhos de qualidade nesta região, conhecida pelos vinhos verdes que produz.

Quinta D’Alagoa

A poucos quilómetros da vila de Arouca, onde se encontra o majestoso Mosteiro da Rainha Santa Mafalda, neta do Fundador de Portugal, estão implantadas as vinhas da Quinta D’Alagoa em terreno de meia encosta, beneficiando de uma “excelente exposição a nascente, sul e poente e abrigadas de norte pela mesma encosta”. 

Conforme nos contou António Rocha, este ano a produção teve uma redução significativa: cerca de 50% no branco e 40% no tinto, em comparação com o ano passado. Acrescentou ainda que “as vindimas já estão terminadas. Com a ajuda de familiares, amigos e pessoas contratadas conseguimos fazer tudo mais rápido porque a produção também foi menor”.

Segundo o produtor, o vinho verde branco “é um vinho macio, frutado, de boa qualidade e com excelente graduação. O vinho verde tinto é um pouco diferente, mas também é um vinho de boa qualidade, já venci três prémios com esse vinho”.

No mercado há 41 anos, António Rocha referiu que a maior parte do vinho produzido na Quinta D’Alagoa é para comercialização, nomeadamente, em restaurantes da zona e hipermercados fora de Arouca. A grande oferta e a diminuição do consumo, aliados à quantidade de burocracias necessárias para comercializar o produtos nas grandes superfícies comerciais, são as maiores dificuldades que enfrenta. Atualmente, o seu principal objetivo é “continuar a vender o produto e arranjar sucessão para a Quinta D’Alagoa”.

Quinta da Sra. do Monte

Produzido em Jugueiros e Santa Maria do Monte, na freguesia de Santa Eulália, ao longo de mais de dois hectares de vinha, o vinho “Quinta da Sra. do Monte” apresenta um “aspeto e cor citrinico, aroma típico e sabor jovem”. Quem o diz é Américo Miguel, um dos produtores deste vinho, referindo que as vindimas decorreram de 7 a 14 de outubro. Segundo nos contou, este ano a produção de vinho verde branco “foi muito menor”, mas a quantidade de vinho verde tinto manteve-se igual aos outros anos.

O vinho “Quinta da Sra. do Monte encontra-se à venda no mercado português, nomeadamente, na região de Arouca e na zona de Fátima, sendo que a “garrafeira de Fátima exporta para outro país”. O produtor confidenciou-nos que, enquanto vitivinicultor, as maiores dificuldades que enfrenta são a falta de mão de obra e a concorrência de preços dos adversários.

Portas da Tulha

O vinho “Portas da Tulha” é produzido e engarrafado na Quinta das Regadas, Cepelos, concelho de Vale de Cambra e tem origem numa vinha com cerca de 1,5 hectares.

Nos últimos anos, tem sofrido uma evolução significativa que orgulha o produtor Armando Russo Valente. Era um vinho fresco e com baixo teor alcoólico, um típico vinho de verão e presentemente apresenta-se como um vinho estruturado, com aroma de fruta citrina e muito floral, e na boca revela grande frescura. Segundo refere, é “muito marcado pela casta Loureiro, é vinificado com uvas das nossas vinhas velhas de Loureiro e Arinto e vinhas novas de Loureiro”.

Este ano, as vindimas decorreram no segundo fim-de-semana de outubro e envolveram cerca de 30 pessoas e, para este produtor foi também uma oportunidade para rever amigos e com eles celebrar a vindima e o ano de atividade.

No que respeita à produção, considera que este ano foi excecional em termos quantitativos, resultado de uma enorme intervenção e investimento que fizeram na terra e nas videiras. Em termos qualitativos, “estamos francamente otimistas pois tivemos sorte de não ver as nossas videiras afetadas por qualquer doença, e as uvas foram apanhadas em estado de perfeita maturação”, refere.

Até ao presente, toda a produção tem tido como destino o mercado nacional mas, a partir de agora, terão forçosamente de procurar outros mercados internos e externos. Tarefa que não se antevê facilitada, pois para este vitivinicultor uma das suas maiores dificuldades prende-se com a colocação do vinho nos mercados, devido à sua pequena dimensão.

Para o futuro estão previstos vários projetos que passam forçosamente e em primeiro lugar pelo aumento da produção e consequentemente dos meios que dispõem, sem prejuízo da qualidade, pois “sem qualidade não temos produto apetecível”, argumenta.

Simultaneamente, apostam na projeção da marca sempre com os olhos postos na dignificação do Vinho Verde da região de Vale de Cambra que, em sua opinião, está a revelar-se uma agradável surpresa, e é por isso que sem falsa modéstia refere “temos belíssimos vinhos nesta região, que apenas precisam de se dar ao conhecimento do consumidor, para reconquistar a fatia de mercado que outrora lhes pertenceu”.

Quinta da Companhia

O vinho “Quinta da Companhia” é produzido e engarrafado na quinta com o mesmo nome, com uma área de produção de 5 hectares, situada nas encostas de Algeriz, Macieira de Cambra. Prima por ser um vinho frutado, com ligeiro floral, encorpado e seco e medianamente alcoólico, sendo produzido com as castas Loureiro, Trajadura, Arinto e Fernão Pires.

Segundo nos refere o produtor António Fonseca Brandão é um vinho verde branco que na gastronomia acompanha pratos de peixe ou mariscos, carnes brancas, sendo também um excelente aperitivo em qualquer altura do ano.

As vindimas tiveram lugar na última semana de setembro e na primeira semana de outubro e a colheita deste ano é classificada de excelente, embora quantitativamente a Quinta tenha produzido menos 5% em relação ao ano anterior.

A maior parte da produção, cerca de 75% destina-se para venda no mercado nacional, e o restante destina-se à exportação. Futuramente, projetam aumentar a área de vinha para potenciar o mercado externo.

Quinta do Vale d’ Arca

O vinho “Quinta Vale d’ Arca” é produzido e engarrafado numa quinta com o mesmo nome, localizada na freguesia de Rôge (Vale de Cambra), com cerca de três hectares.

Produzido em meia encosta exposto a nascente, sul e poente, abrigado de norte motivo pelo qual tem um elevado teor alcoólico, é também caraterizado por ser um vinho leve, frutado, pouco acídulo e com sabores intensos, vincados pelo predomínio da casta Loureiro conjugada com Trajadura e Pedernã.

As vindimas na Quinta Vale d’ Arca realizaram-se nos dias 7 e 8 de outubro e envolveram cerca de 14 pessoas. Apesar da baixa produção, o produtor António Vale acredita que em termos qualitativos, o ano ficará marcado por vinhos de elevada qualidade, que têm como destino preferencial a venda para o mercado nacional.

Para este produtor, elevados custos de produção e falta de apoios só serão ultrapassados quando se produz vinhos de qualidade. No caso do vinho “Quinta do Vale d’ Arca”, o futuro passa por melhorar tanto quanto possível a sua qualidade e não embandeirar em projetos ambiciosos.

Os vinhos da Adega Cooperativa de Vale de Cambra, C.R.L.

Em Vale de Cambra, na época das vindimas todos os caminhos levam à Adega Cooperativa de Vale de Cambra C.R.L., tal é o afluxo de tratores e de outros veículos utilizados pelos seus associados para o transporte de uvas que chegam até a condicionar o tráfego viário. Este ano, a Adega abriu durante a última semana de setembro e a primeira de outubro.

As uvas entregues na Adega para a obtenção de Vinho Verde DOC respeitam o estabelecido nos estatutos da Região Demarcada dos Vinhos Verdes, nomeadamente quanto às castas permitidas e estado sanitário das uvas. No que se refere ao preço pago pelas uvas, este depende do tipo de uvas e de alguns parâmetros analíticos que são controlados na receção das uvas, sendo que nos últimos anos a adega tem privilegiado o valor a pagar pelas uvas brancas, uma vez que o mercado pede fundamentalmente vinhos brancos.

De acordo com o enólogo desta Adega, Nuno Vieira Silva, este ano foi bastante difícil para os viticultores, dadas as condições meteorológicas adversas que se registaram, particularmente até meados de junho. Segundo refere, houve uma quebra generalizada na Região dos Vinhos Verdes, bem como na quase totalidade das restantes regiões do país. A Adega não foi exceção, e registou uma quebra significativa, particularmente nas uvas brancas.

Apesar da produção de 2016 ser inferior à média, Nuno Silva, acredita que teremos vinhos de qualidade superior. “As uvas que chegaram à Adega apresentaram na sua esmagadora maioria um estado sanitário muito bom, e as fermentações que ainda decorrem, deixam antever vinhos muito interessantes”, testemunha.

Na Adega, o perfil dos vinhos e o destino das uvas é pensado e planeado muito antes da vindima. “Quando começamos a receber as primeiras uvas e percebemos o tipo de matéria prima com que temos que trabalhar são feitos, se necessário, os ajustes necessários ao inicialmente planeado para atingirmos os nossos objetivos qualitativos. Temos várias referências no nosso portfólio e cada uma delas exige um processo e e tratamento diferenciados”, argumenta.

Ficamos à espera do que a Adega nos reserva da Colheita de 2016… Cambra: branco, tinto, rosé ou espumante, estas são já algumas das opções no mercado, também este cada vez mais vasto.

Texto: Andreia Borges e Rosa Almeida