Depois dos incêndios que deflagraram em Arouca no mês de Agosto, muito há ainda por fazer. As paisagens continuam com um manto negro, os animais continuam sem pasto natural e as pessoas mantém na memória o “inferno” daqueles oito dias consecutivos de chamas. Canelas, Alvarenga, Janarde, Ponte de Telhe, Moldes, Santa Eulália, Arouca e Serra da Freita foram os locais mais afetados, com milhares de hectares de território reduzidos a cinzas e mais alguns que estiveram ameaçados. Dois meses depois, o Discurso Directo contactou autarcas, proprietários de terrenos, associações florestais, responsáveis pelos baldios, associações ambientalistas e população em geral, com o objetivo de perceber o que tem sido feito e o que se pretende fazer depois dos incêndios e que medidas estão a ser tomadas de forma a prevenir situações semelhantes no futuro.

Dos 328 quilómetros quadrados que constituem o concelho, 80% representa área florestal. 170 desses quilómetros arderam e 58% da floresta do município ficou arruinada. No total, foram 15 mil hectares consumidores pelas chamas. Na altura, o presidente da Câmara Municipal, Artur Neves estimou prejuízos na ordem dos 120 milhões de euros. As chamas foram combatidas por mais de mil bombeiros de diversas corporações do país e muitos foram os meios mobilizados para fazer frente aos incêndios que, ainda assim, conseguiram fazer enormes estragos.

E agora? O que fazer depois do grande fogo? Para tentar obter uma resposta a esta questão, o Discurso Directo procurou saber junto dos autarcas das freguesias mais afetadas, associações ambientalistas e população, o que tem sido feito depois dos incêndios e que medidas estão a ser implementadas tendo em vista a prevenção.

O trabalho da Câmara Municipal e Juntas de Freguesia | Tal como já havia referido em diversos meios de comunicação social, Artur Neves afirmou também na Assembleia Municipal, realizada no final de setembro, que não assume responsabilidade pelo sucedido já que não tem “nenhum poder sobre esta matéria”. O presidente da Câmara Municipal de Arouca defende a criação de uma política florestal de nível nacional, com indicações dadas às autarquias e uma autoridade que fiscalize o seu cumprimento. “Não faz nenhum sentido, os municípios terem a responsabilidade sobre a gestão urbanística e não terem responsabilidade sobre a gestão florestal” afirmou o autarca, defendendo que a implementação das medidas no terreno deverá ser da responsabilidade das autarquias. Admite que a recuperação das áreas ardidas deve obedecer a uma orientação nacional, mas propõe abertura legal para que cada concelho “adote um plano de ordenamento e gestão florestal próprio, a implementar de forma integrada com os territórios vizinhos”. José Artur Neves defende ainda a imposição de limites à plantação de eucalipto nos 170 quilómetros de área ardida no concelho. Segundo o autarca, existem espécies mais resistentes ao fogo e só assim se conseguem evitar erros do passado no que diz respeito a este tema.

Também Afonso Portugal e Artur Miller abordaram na Assembleia a temática dos incêndios, sugerindo o investimento na prevenção durante o inverno, com a realização de um cadastro e limpeza de caminhos florestais, para que os bombeiros tenham acesso facilitado aos locais mais remotos, e a criação de Centros Interpretativos da Floresta.

Joaquim Cunha, presidente da junta de freguesia de Canelas, umas das áreas mais afetadas do concelho, afirmou ao nosso jornal que “estão no terreno alguns projetos financiados pelo Governo”, nomeadamente, medidas de Estabilização de Emergência Pós-Incêndio, com o objetivo de melhorar as vias, colocar canalizações, arranjar caminhos e fixar terras. O autarca fez saber ainda que a junta de freguesia de Canelas encaminhou as pessoas que necessitavam de apoio para os sítios corretos, referindo que “a burocracia é de tal ordem que a maioria das pessoas acaba por desistir”. Cerca de “três partes da freguesia” foram consumidas pelas chamas, entre elas uma habitação que a junta de freguesia está, com o apoio da Câmara Municipal, a tentar reerguer.

Hélio Soares, presidente da junta de freguesia de Santa Eulália, afirmou que vai avançar com a “candidatura a fundos comunitários para a limpeza de caminhos florestais e limpeza de linhas de água”. Durante o período de incêndios ardeu também uma habitação no lugar de Celada, que a “Câmara Municipal vai ajudar a reconstruir”, fez saber o autarca.

Também José Costa, presidente da junta de freguesia de Moldes, referiu que vai avançar com a candidatura para a limpeza de caminhos e reflorestação, depois de ter ardido cerca de “80% da freguesia”.

Proprietário de Terrenos e Responsável de Baldios | Agostinho Abreu é proprietário de uma grande área de terrenos em Canelas e Vilarinho e viu 10 hectares da sua floresta consumidos pelas chamas. Depois de ter perdido anos de trabalho para o fogo, contou-nos que vendeu algumas árvores que já estavam criadas “a um valor muito inferior” ao que valeriam se estivessem verdes e anda a cortar a restante lenha para consumo próprio. Agostinho Abreu afirmou que não recebeu qualquer ajuda para cobrir os enormes prejuízos.

Também Jorge Sousa, responsável pelo baldio da Sra. Da Mó, viu arder 100% da área do local. No total, foram 110 hectares de baldio destruídos. Jorge Sousa referiu, em declarações o nosso jornal, que vai avançar com a candidatura aos fundos comunitários para estabilização do solo, arranjo de caminhos e posterior plantação. “Já havia árvores com cerca de 11 anos, foi muito investimento e trabalho”.

Habitação destruída: “Fiquei só com o que trazia vestido” | Manuel da Silva Cardoso, de 72 anos, viu a sua habitação destruída no grande incêndio de Agosto. “Arderam me três palheiros, o pasto todo, motor da rega, carro, as videiras, o moinho e a casa que estava toda mobilada e com eletrodomésticos”. Com morada em Mealha, Canelas, contou-nos que a Câmara Municipal lhe prometeu uma ajuda para reerguer a habitação. “Eu não posso disponibilizar nada do que recebo da reforma. O dinheiro vai todo para medicamentos e para as despesas do dia a dia. A engenheira disse-me para eu arranjar dois ou três empreiteiros, escolher o mais barato e para que, se eu tivesse 20 ou 30 mil euros ir reconstruindo os palheiros, porque depois poderia vir alguma ajuda. Se eu tivesse 20 ou 30 mil euros não precisava da ajuda deles”, confessou.

Manuel Cardoso afirmou que, no dia do incêndio, ligou diversas vezes para os bombeiros, mas “nenhum apareceu em Mealha”, e foi com a ajuda dos filhos que conseguiu salvar alguns bens e as duas vacas que tinha. “Os bombeiros só chegaram quando já estava tudo a arder. Se tivessem chegado mais cedo, poderiam pelo menos ter salvado a casa já que os acessos para os palheiros não são fáceis”.

A viver numa outra casa que tinha construído em tempos, o sr. Manuel da Silva Cardoso tenta refazer a vida. Conta com a boa vontade de alguns amigos de Castelo de Paiva que o ajudam com o pasto para os animais e vai esperando pelo apoio da Câmara Municipal.

As Associações ambientalistas | O Movimento Terra Queimada, associado ao GEOTA, trabalha há cinco anos na Serra da Freita na área de reflorestação, colheita de sementes, vigilância florestal e educação ambiental. Segundo Teresa Markwosky, uma das responsáveis pelo movimento, o foco é criar floresta autóctone sustentável e regras na gestão das áreas. O movimento Terra Queimada acredita que “o flagelo dos incêndios florestais em Portugal, tem a principal origem nas monoculturas de pinho e eucalipto” e defende a reflorestação com “folhosas: sobreiro, carvalho, azinheira, castanheiros, etc.”. Considera também que a Câmara Municipal deveria proceder ao “mapeamento das serras, cadastro dos terrenos privados, fiscalização das propriedades abandonadas e atuação junto das populações, no sentido de obrigar a limpar os terrenos”. Neste momento, a nossa maior preocupação, é o combate da prevista erosão nas encostas ardidas. Fazer sementeiras urgentes nas linhas de água e propor às autarquias um imediato lançamento de sementes (gramíneas) em aviões pelas encostas ardidas, antes que venham as chuvas e a terra desabe para os rios”, referiu Teresa Markwosky, em declarações ao nosso jornal.

Também a Associação SOS Rio Paiva considera que “é uma oportunidade para reorganizar a floresta do concelho e valorizar a paisagem num território altamente vocacionado para o turismo. Talvez fosse interessante aproveitar para submeter uma candidatura para a criação de uma Área Protegida de Âmbito Local ou Regional, com regulamento próprio que salvaguarde o património do Geoparque e do vale do Paiva. Assim, seria possível replantar grande parte da área ardida com espécies autóctones em detrimento da monocultura de eucalipto cada vez mais presente na região”. Em declarações ao nosso jornal, os responsáveis pela associação referiram que a SOS Rio Paiva “tem denunciado o surgimento de vastas plantações de monocultura de eucaliptos nas margens e encostas do Paiva” e “sensibilizado a população e visitantes para a adoção de comportamentos que não coloquem em risco o espaço natural, como por exemplo, a deposição de lixo nas margens do Rio Paiva”. A associação fez saber ainda que pretende “trabalhar em conjunto com outras associações ou entidades públicas (Juntas, Câmaras, ICNF, etc.) em campanhas de criação de viveiros de autóctones para reflorestamento”. A sensibilização e a educação ambiental são também de essencial importância no que se refere à prevenção dos incêndios, estando por isso “previstas algumas ações de divulgação que visam alertar e ensinar cidadãos e decisores para esta problemática. Não centrar as culpas apenas nos incendiários, vai permitir perceber que a nossa floresta está mal gerida e que isso é o factor com mais responsabilidade na frequência e intensidade destes fenómenos. Gostaríamos ainda de poder colaborar nas ações a tomar no imediato, uma vez que após um incêndio o solo sofre uma espécie de “reset” e se determinadas intervenções não forem imediatas, este pode ser lixiviado, ocupado por espécies invasoras, etc. Perde-se assim a capacidade de repor o ecossistema original”, informou a associação.

Muito há ainda a fazer no que diz respeito à prevenção dos incêndios tanto no concelho de Arouca como a nível nacional. Por agora, autarcas e população vão esperando pelos apoios que poderão surgir do Governo, para que Arouca possa renascer das cinzas e pôr em prática algumas das medidas necessárias para que os incêndios não continuem a ser um problema, ano após ano.

Texto: Andreia Borges