OPINIÃO | 508 Arouca

Nada melhor que uma boa polémica para acrescentar visibilidade a um evento. Isto é tanto mais importante nos tempos mediáticos em que vivemos. Vem isto a propósito de um “post” aparentemente enigmático deixado sorrateiramente há dias pela presidente da Câmara Municipal numa rede social. 508 Arouca era a designação posta a encimar uma fotografia de umas estruturas metálicas, daquelas que servem para as cofragens de obras de construção civil.

Não era percetível para o comum dos cidadãos, como eu, decifrar o enigma que queria significar aquele 508 Arouca. Depois de algum esforço associei as estruturas metálicas ao início das obras de implantação da ponte suspensa que vai unir as duas margens do Rio Paiva na zona da garganta das Aguieiras, 508 à extensão que a ponte vai ter e Arouca a Arouca, simplesmente. Depois de algumas voltas à cabeça fiquei a perceber que 508 Arouca é a designação que se pretende atribuir à referida ponte.

De repente, do nada óbvio da denominação surge o muito evidente da intenção. Criar impacto. Impacto junto dos que gostam da ideia e impacto junto dos que vão lutar contra ela, como logo se viu nos comentários que se seguiram. Como todos são presidentes de câmara em potência e todos se acham chamados a apadrinhar a obra logo se apressaram a batismos alternativos: desde Ponte das Aguieiras, o mais prosaico, a Ponto do Éden, o mais ambicioso, só para falar dos que me recordo, viu-se de tudo. E não faltaram os que, não cuidando de discutir a denominação avançada, nem a oficial nem as alternativas, desviaram a atenção para a falta da variante, dos rails na estrada da Ponte de Telhe e até, veja-se, da contaminação provocadas pelas escórias das desativadas, há dezenas de anos, minas de volfrâmio! Misturando alhos com bugalhos como convém a quem em tudo encontra pretexto para apoucar o que de bom se vai fazendo em Arouca para tanto chamando à liça o que ainda falta fazer. Quantos velhos do restelo Arouca tem sentados nas suas tamanquinhas a desdizer dos que ousam.

Ora, por mim, que nada tenho a ver com a ideia (mas gostava de ter), acho-a muito interessante e, a menos que outra bem melhor ocorra, aposto nela. Tem tudo para dar certo. É enigmática e, ao mesmo tempo, muito simples, é imaginativa mas bem real. Afirma Arouca como o território onde tem de se ir para a explorar e lembra que ao fazê-lo se está a participar num feito europeu, porque será a maior ponte do género em toda a Europa.

508 Arouca não é seguramente o nome que a generalidade das pessoas esperava. Porém, não são as coisas óbvias as que perduram na memória nem fazem história. Não fosse o desafio das gigantes escadarias dos Passadiços do Paiva – que ao mesmo tempo que permitem apreciar a paisagem com vistas panorâmicas sem elas impossíveis e são um desafio para quem os percorre – e os nossos seriam apenas mais um de entre as centenas de passadiços incógnitos existentes no País. Isto lembra-nos que não basta ter um bom produto para oferecer (a preservada paisagem das margens do Rio Paiva), é preciso saber valorizá-lo e divulgá-lo. Fazê-lo único.

508 Arouca será a cereja no topo do bolo para continuar a somar galardões aos quatro Óscares de turismo que os Passadiços ganharam em apenas 3 anos. O êxito nunca é óbvio nem fruto do acaso. O que parece sorte dá muito trabalho e requer muita imaginação. Parabéns a quem teve a ideia de 508 Arouca e a quem a segurou. Vai dar que falar, como importa.

Texto de Gomes Ferreira

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