OPINIÃO | Polémica sem sentido

No passado dia 30 de Maio, tive a honra de poder estar presente na ante-estreia da curta-metragem «Opte por amar mais» da Direção-Geral da Saúde (DGS) que constitui a base da campanha nacional de luta contra o tabagismo do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Nesse dia, a DGS e a NOS Cinemas assinaram um protocolo inédito tendo em vista a divulgação de três campanhas anuais de promoção da Saúde Pública. Também foi assinado pela DGS e a Direção-Geral de Educação um protocolo com vista à implementação, no próximo ano letivo, de um programa de prevenção do tabagismo em meio escolar.

Nesse mesmo evento, foram clarificados os objetivos do Governo, nomeadamente no referente às campanhas de sensibilização e de comunicação junto da comunidade, principalmente através de uma nova forma de comunicação, mais moderna, e incidindo sobre determinados grupos de risco, à semelhança do que havia sucedido com outras campanhas como contra o abuso dos consumos de sal e de açúcar e da promoção da atividade física.

O que acima referi, no que toca ao foco definido, às ferramentas utilizadas para poder atingir determinado público-alvo e ao tipo de comunicação, e ainda no que às escolas diz respeito, foi igualmente pensado na altura da escolha do argumento da curta-metragem. A literatura e a ciência evidenciam um aumento muito significativo do número de jovens mulheres fumadoras. Partindo deste pressuposto, o argumento que foi seleccionado num concurso realizado junto dos alunos da Escola de Artes, Tecnologias e Desporto, foi aquele que mais se enquadrava na mensagem que se queria transmitir, com uma componente visual e emocional forte para “tocar” as pessoas, idealizado por duas alunas ao abrigo de um protocolo que havia sido estabelecido com aquele estabelecimento de ensino.

Qual não é o espanto quando, no mesmo dia, dispararam os alarmes junto de movimentos feministas mais radicais sobre todo um rol de estereótipos contidos naquele filme, afirmando que era uma campanha misógina e culpabilizante da mulher. Inclusivamente, a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género também se pronunciou contra esta mesma campanha baseada em pressupostos semelhantes! Porém, no filme em causa, a mensagem da DGS foi clara, sustentada no último relatório do programa nacional para a prevenção e controlo do tabagismo que referia que os homens portugueses estão a fumar menos, em oposição ao grupo das mulheres. Acresce ainda que o Inquérito Nacional de Saúde de 2014 revelou que uma em cada 10 mulheres com 15 ou mais anos fumava em relevante crescendo nos últimos anos.

Não podemos nunca confundir a árvore com a floresta! Recentemente, a Associação Capazes foi envolta em polémica com a alocação de uma elevada quantia de fundos europeus por forma a financiar uma série de iniciativas, as quais suscitam mais dúvidas do que certezas. Da mesma forma que as críticas e alertas dados por esta Associação sobre esta campanha não colheram grande compreensão junto da sociedade civil, como aliás seria de esperar, a importância da igualdade de género e dos problemas inerentes à afirmação da mulher são válidos em muitos e importantes temas a que a sociedade e a comunidade devem estar atentas.

Creio que, neste caso, podemos dizer que o objetivo da promoção desta campanha foi bem-sucedido e, registe-se, caricatamente, “à boleia” desta mediatização. Não creio que o Estado deva ter uma função paternalista sobre o cidadão, limitando a sua liberdade individual, mas pode e deve promover este tipo de campanhas e alertas fornecendo ao cidadão as bases e informação necessárias para ter a noção clara de como pode ter hábitos de vida saudável.

Texto de Artur Miler

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