OPINIÃO | SOMOS DO ADJECTIVO OU DO SUBSTANTIVO?

O Paiva é o rio mais limpo da Europa”

In Almanaque Um De Abril

Li com agrado a competente entrevista da Presidente da Câmara Municipal de Arouca à revista Sábado, edição nº 732, de 10 a 16 de Maio de 2018. Texto e imagem de forte pendor publicitário, os quais, sem dúvida, promoveram Arouca e os passadiços, os existentes e os vindouros.

Sobre os vindouros, provavelmente a ponte transparente trará ainda mais gente a Arouca, pelo menos enquanto a moda durar. Contudo, uma interrogação fica: esta conversa moderna da valorização do território deve estar centrada no adjectivo ou no substantivo? Isto é, a essência estará na coisa em si ou no seu qualificativo?

É verdade que percorrido o Paiva, mais ainda junto à linha de água, contemplando o majestoso relevo envolvente até o eucaliptal contínuo se desconta e o som do rumorejar das águas faz esquecer que ali, outrora, foi rica a biodiversidade.

A questão, porém, é se a intervenção significativa a fazer não deve estar centrada no ordenamento da floresta, na qualidade da água e no repovoamento do rio. Uma aposta com um problema sério: não é instantânea, publicitariamente não é forte, exige muitos recursos, partirá obrigatoriamente de nichos e avançará lentamente.

Mas é possível, aliás, em bom rigor, não é sequer incompatível com foguetório para inglês ver. Exige é sensibilidade e determinação. Dois exemplos concretos: é ou não possível iniciar um processo progressivo de repovoamento e valorização dos inúmeros afluentes do Paiva, do Paivó e do Arda? Não é possível replicar pelo concelho o que uma pequena associação ambiental fez em Rossas? Um outro exemplo: é ou não possível congregar vontades, identificar determinadas áreas prioritárias e iniciar um processo de reordenamento florestal, que faça regressar as pessoas aos montes, seja por trabalho ou por lazer, sejam autóctones ou visitantes?

É verdade que os tempos são mais propícios à imagem do que à substância. Ilustrativo disso mesmo é a americanada que se está a propagar pelas Escolas, com os “Dias Especiais”, autênticos festins de vaidades. Comentava comigo há dias um amigo, estudioso do Micro Business, que num concelho aqui bem próximo, as velhas modistas e costureiras são as verdadeiras Start Ups concelhias, tal é o volume de fatiotas exigido para os inúmeros eventos sociais – batizados, comunhões, casamentos, dias do diploma, festas de encerramento do ano lectivo, bailes de finalistas (do pré-escolar ao secundário)…

Regressando “à vaca fria”, apesar das modas do tempo, Arouca vale mesmo pelo património que tem, não pela sua imagem. O adjectivo qualifica, mas é no substantivo que está a essência. Por isso, cá na terra, a intervenção estrutural a fazer é no Património Arouquense, na sua preservação e valorização e não na reducionista ideia de que projectar a imagem é suficiente.

Texto de Francisco Gonçalves 

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