OPINIÃO | A reconciliação

No último texto que escrevi, abordei a temática do perdão. Dei um exemplo que distinguia perdão e reconciliação. Hoje aportarei a temática da reconciliação. Só o perdão nos levará à reconciliação: connosco, com os nossos sonhos e com a nossa realidade. Só assim nos podemos reconciliar com os outros.

Reconciliarmo-nos é estabelecer vínculos de união, recuperar histórias, voltar a construir ajustando perfeitamente as partes afastadas. Trata-se de possibilitar, encarar o futuro sem rancor, com esperança e alegria.

A reconciliação tem a ver com uma visita ao nosso interior e a partir daí, olhar para fora e para cada pessoa.

Na reconciliação connosco é fundamental aceitarmo-nos como nós somos. Muitas vezes questionamos a nossa maneira de ser ou de pensar, porque há momentos em que fazemos o que não queremos, nomeadamente o bem que queríamos fazer, mas o mal que não desejaríamos. É próprio de ser humano. É assim que nos devemos compreender, não para justificar o mal, mas para nos transformarmos e crescermos, para aprofundarmos a vida que levamos e oferecemos.

É importante conhecermo-nos, encontrarmo-nos com a nossa realidade, para sabermos quais são as nossas limitações, as nossas potencialidades e os nossos desejos; entender que não somos o gigante dos nossos sonhos nem o anão dos nossos medos.

Trata-se de compreender as nossas limitações porque não somos tudo nem podemos tudo: não somos uns “santos” nem medíocres; como também situar os nossos desejos para que não nos paralisem, mas que nos impulsionem a viver na direção mais adequada tendo em vista a realização pessoal.

Reconciliar-se consigo significa repensar os ideais, aprofundá-los, escrutinar as motivações que nos movem e as bases sobre as quais assentam a nossa existência e sobre aquelas que nós queremos que assente.

Reconciliarmo-nos connosco é importante, mas não podemos esquecer os outros, porque a vida é vivida com os outros. Os outros ao mesmo tempo que connosco.

É assim como nos ajudamos e nos configuramos, como nos vamos fazendo e construindo. A vida não é separada, mas vivida uns com os outros.

Assim, a reconciliação com os outros supõe a sua aceitação. Por isso, não pode ser sempre como nós queremos. Há que aceitar o outro como ele é e descobri-lo. Aceitar significa reconhecer a pessoa que temos ante de nós tal como ela é. Isto coloca-nos perante ela numa atitude de humildade e de serviço; que lhe podemos dar e receber; que a sua presença é um presente de afeto e consideração; é um enriquecimento mútuo entre pessoas iguais. Saímos enriquecidos e enriquecemos o outro, descobrimos o seu ser e valor.

Reconciliar implica dizer que temos responsabilidade uns para com os outros, para com a vida; significa valorizar e aprovar o outro, aprovação que todos necessitamos.

Um dos problemas do nosso tempo é o medo: do desconhecido, do diferente. Para nos defendermos desse medo criamos estereótipos, ideias preconcebidas que nos levam a escolher com quem nos queremos relacionar ou não. Aqui reside o problema porque poderá ser um obstáculo à reconciliação. É na relação que temos a oportunidade real de descobrirmos a pessoa para além dos danos realizados e valorizá-la por aquilo que ela é. Só a relação nos valoriza. Se não nos valorizarmos não estabeleceremos novas relações. O que se passa comigo?

Texto de Carlos Matos

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