OPINIÃO | Pensamento duplo

Pensamento duplo indica a capacidade de ter na mente, ao mesmo tempo, duas opiniões contraditórias e aceitar ambas” escreve George Orwell no seu romance distópico, 1984, uma obra citada no documentário Ícaro, vencedor de um Óscar nessa categoria na edição deste ano. Ícaro, do realizador e também protagonista Bryan Fogel, conta a história de um ciclista amador que quer correr a Haute Route, uma corrida em França de sete dias, elaborando um esquema com doping de forma a melhorar o seu desempenho e, com isso, revelar as deficiências dos controlos anti-doping no desporto, um velho problema no que toca à verdade desportiva e que vem assombrando o mundo do ciclismo, tendo o seu maior exemplo em Lance Armstrong. O que o documentário nos revela e que nos faz ter um interesse maior é o acompanhamento dos contornos daquele que foi considerado pelo New York Times como o maior escândalo de doping de sempre, baseado nas revelações proferidas pelo cientista russo Gregory Rodchenkov, diretor do laboratório da agência mundial anti-dopagem de Moscovo, que encabeçava um esquema que contornava os testes anti-doping, que era apoiado pelo governo e com o conhecimento do Presidente Vladimir Putin. O espaço temporal em que é gravado ocorre entre os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, no qual a Rússia conquistou 33 medalhas, sendo 13 de ouro, e antes dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, em que a participação de atletas russos nas provas de atletismo esteve envolta em polémica, devido às investigações decorrentes do referido caso.

Recentemente, as próprias eleições na Rússia não tiveram grande atenção mediática, apenas sendo noticiada a eleição de Putin com perto de 70%, sendo curioso que, no documentário, é referido o seu enorme aumento de popularidade com os resultados obtidos pela Rússia em Sochi. Também é bom recordar que o Campeonato de Mundo de Futebol se realizará em solo russo.

Mas, para nós portugueses, o que mais causou impacto e obrigou a uma tomada de posição política foi a tentativa de envenenamento de um antigo espião russo no Reino Unido, recorrendo para isso a métodos que não se viam desde o tempo da Guerra Fria. A resposta dos países ocidentais, como consequência da condenação veemente e da retaliação do governo britânico, passou pela expulsão de diplomatas russos, sendo já a maior expulsão coletiva de agentes de espionagem russos da história, como referiu a primeira-ministra Theresa May. Portugal, com um governo sustentado no apoio parlamentar de partidos com uma visão diferente daquela até agora seguida pelo nosso país, e que estava assente na fidelidade à União Europeia e à NATO, preferiu não seguir o exemplo desses países e não expulsou ninguém, ao mesmo tempo que, de forma a dar um “sinal”, resolveu chamar o embaixador português em Moscovo para consultas.

A história dirá o quanto a decisão do governo português foi a mais correta. Poderei sempre dar o benefício da dúvida e não seguir aquilo que à primeira vista me parecia mais óbvio, isto é, estar ao lado dos nossos aliados de sempre. E, se formos a ter em conta os receios exprimidos pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, de que estamos a chegar a uma situação muito similar à da Guerra Fria, gostávamos sempre de ver Portugal no lado certo, no lugar onde pertence, solidário com a NATO e a UE, ao lado de países que não estão a cometer algumas das más práticas que acima referi. E não nesta espécie de limbo, com esta decisão de um governo que tem uma espécie de… pensamento duplo!

Texto de Artur Miler

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