Páscoa em Arouca: fé e tradição

Fotos: Carlos Pinho

Já lá vão os tempos em que a Semana Santa, em Arouca, era rodeada de grande solenidade, fé e tradição. Festejado o Dia de Ramos, (os ramos guardavam-se para afugentar a trovoada) os senhores padres revezavam-se nas confissões, na «desobriga», dos púlpitos ribombavam os sermões e não faltavam lágrimas e corações aflitos perante o sofrimento, os lava-pés como símbolo da humildade, da insignificância dos homens vergados aos mistérios de um Deus que se deixou crucificar e ressuscitou para os salvar.

Para além da fé, em algumas freguesias restaram tradições onde, como sempre acontece, a superstição também ocupa o seu lugar. É o caso da «ementa das almas», em Fermêdo, promovida pelo Grupo Etnográfico e Folclórico de Fermêdo e Mato.

Sem o brilho de antigamente, quando os párocos residentes percorriam todas as casas, nas freguesias do concelho passou de novo o Compasso e também foi dia de muitos, vindos de longe, se unirem às famílias e confraternizarem.

Nas ruas da vila realizou-se a tradicional procissão do Enterro e a Procissão dos Fogaréus que, como habitualmente, saiu da capela da Misericórdia e foi ao Calvário. Esta é, aliás, uma procissão emblemática e com um longo historial. No passado alguns dos seus participantes levavam uma tocha, fogaréu, o que proporcionava um misterioso e arrebatador espectáculo. No púlpito, instalado no Calvário, o habitual sermão sobre o significado e mistérios da Páscoa.

Mas, como se disse, em vários locais, um pouco por todo o país, a Semana Santa, além de se tornar atracção turística, também encerra práticas milenares, onde à fé o povo foi acrescentando tradições e superstições de que a ementa das almas, que se realiza em Fermêdo, é apenas um dos exemplos mais conhecidos.

Esta recomendação das almas, tinha como grande objectivo sufragar os grandes pecados, cumprir promessas e esconjurar os espíritos maus das encruzilhadas.

O ementador chamava as almas boas: «almas boas acompanhai-me e as más deixai-me», e dirigia-se a três altos onde, no silêncio da noite, se fazia ouvir:

«alerta pecadores, alerta»

A terminar dirigia-se de novo à porta da igreja para retribuir as almas a Deus:

«Almas boas arrecolhei-bos e más arretirai-bos»

Diga-se, finalmente, a título de curiosidade, que em algumas paróquias do concelho ainda há livros muito antigos de «desobriga», onde existe o registo do dia da confissão dos respectivos paroquianos praticamente todos já falecidos.

E é este misto de religiosidade, de superstição e de fé que também faz parte da vida do povo de sucessivas gerações.

(A.)

Bênção do Lume Novo
Bênção dos Ramos
Ementa das Almas
Enterro do Senhor
Procissão dos Fogaréus
Compasso

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.