OPINIÃO | O respeito

A palavra respeito deriva do Latim – re, de novo e specere, olhar – se não estou em erro. Assim, respeitar é olhar o outro com um ver redobrado, com uma atenção especial e atenta. A falta dele é ignorar, rebaixar, humilhar, tornar o outro indiferente e ridículo, matá-lo em nós!

Respeitar quer dizer reconhecer a dignidade. Significa valorizar a vida e as pessoas. Que todos somos irmãos (no sentido judaico-cristão, irmão significa ser livre e igual, porque os irmãos não mandam nos irmãos, não são uns mais do que os outros) e todos nós merecemos respeito pelo facto de sermos pessoas. Que somos responsáveis uns pelos outros. Exige valorizar todas as pessoas por igual. Implica escutar e supõe reconhecer, o que é fundamental num mundo como o nosso. Respeito e dignidade caminham de mãos dadas.

Recuperar a dignidade que parece perdida é fundamental no nosso mundo. Basta ver o sangue que corre em tantos locais do planeta, provocado pelas guerras, e sangue de muitos inocentes, como se noticia na Síria, por exemplo; tantas pessoas, perto de nós, que vivem em condições miseráveis, sem o mínimo. Não podemos deixar de ouvir esse grito que surge das suas gargantas reclamando que demos conta que estão ali. Que são reais, que são humanos, que têm uma dignidade e que não temos o direito de a roubar ou a ignorar, que é uma outra maneira de roubo.

Valorizamos as pessoas pelo que têm e pelo que aparentam ter. Não pelo que são. Isto dificulta-nos encontrarmo-nos connosco mesmos e respeitar os outros. Respeitar supõe entender. Isto quer dizer reconhecer a vida dos outros.

Uma mania tremendamente ocidental, no nosso mundo, consiste em estarmos acostumados a ler tudo à nossa maneira, do nosso prisma: a vida é vida na medida em que é só a minha vida. Não nos apercebemos que a vida é mais que a nossa vida. Que há mais vidas e que todas têm valor e sentido.

O respeito convida-nos a acolher essas vidas, todas essas que pensam diferente, todas as que vivem diferente. Ao mesmo tempo, o respeito exige-nos respeito por todos. E a única maneira de universalizar o respeito é começar por aqueles a quem foi usurpado; por aqueles a quem foi roubada a dignidade. E por eles, por aqueles que não têm a oportunidade, toca-nos a nós, que se a temos, viver na responsabilidade de a respeitar e denunciá-la para que se converta em possibilidade real de uma vida digna e plena.

A dignidade tem-se, dá-se e recebe-se. Quem a não tem, por exemplo quem vive na rua, exige-se a necessidade de a restituir. O respeito fala-nos da necessidade de entender estas situações e cuidá-las. Trata-se disso. Por isso, uma das faces da moeda do respeito é a denúncia. É nosso dever denunciar todas aquelas situações em que se difama a dignidade: exploração laboral, tantas empresas a ganhar milhões e continuam a pagar salários miseráveis; o governo proclama que estamos a crescer na economia e hospitais, escolas, etc., sem condições; promessas eleitorais com poucos meses completamente abandonadas…

O respeito defende o reconhecimento da dignidade da vida humana.

Texto de Carlos Matos 

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