OPINIÃO | Houve um tempo… e agora uma mão cheia de quase nada

Houve um tempo em que…

As pessoas viam a floresta a arder e apagavam, viam perigo e actuavam sem serem julgadas por actuar, ou sujeitas a um julgamento que antes de o ser já o era;

O Estado dava o exemplo e fazia limpeza da floresta, contra-fogos nas linhas de alta tensão, ou na Serra da Freita, ou na Srª da Mó, ou no Viso, utilizando rudimentares instrumentos, sem máquinas potentes e sem floreados e designações faustosas como “floresta inteligente”;

As cabras que pastavam nas florestas davam o seu contributo, prevenindo e limpando montes… e não tinham que ser recrutadas, nem fazerem concorrência aos sapadores e bombeiros e baptizadas “cabras sapadoras”;

O som de um sino a rebate punha as pessoas a correr para apagar os incêndios fosse nos seus terrenos, fosse no do vizinho;

Os telemóveis não existiam e as pessoas apareciam com enxadas ou ramos, activas no combate ao incêndio, não sendo meros expectadores e fotógrafos da desgraça;

As casas florestais tinham vida e faziam vida, não se tornavam escombros e espaços abandonados;

A imaginação levava a que comunicássemos nas encruzilhadas, deixando um sinal às crianças dos outros lugares que já tínhamos passado por ali;

Os percursos eram caminhos, e os pedestres há muito que já tinham sido inventados;

As nascentes e as águas das fontes onde os nossos antepassados sempre beberam (e, porventura continuamos a beber) agora, com ou sem análises feitas, nos dizem estarem inquinadas, ou mais pomposamente “impróprias para consumo”;

O Eco se conseguia ouvir na Pena Amarela ou no Coto do Boi, sem necessidade de ir aos passadiços, nem imaginar pontes; e os peixes não navegavam mortos nos rios mais limpos da europa;

As pessoas olhavam para a mãe natureza e nela viam os maiores ensinamentos;

Subir a montanha era tão simples como morar nela;

As crianças tinham tempo para serem crianças e podiam brincar no recreio da escola, constituírem equipas e jogarem à macaca, ao peão, ao elástico…

As pessoas falavam umas com as outras “olhos nos olhos”, e não comunicavam exclusivamente com os dedos…

Não era preciso explicadores profissionais para além dos professores e os pais, irmãos, primos, avós, vizinhos; os mais velhos ensinavam ou conseguiam ensinar os mais novos…

As pessoas tinham tempo para ter tempo…

Não se trata de ser pessimista, saudosista, ou achar que antigamente é que era bom, mas de apelar a uma nova racionalidade que passa pelo respeito pelos valores humanos, a liberdade, a solidariedade, a justiça social, o amor da literatura, o apreço pelo diálogo franco e a escrita clara, a fé na honestidade natural e na correcção natural das pessoas, a preservação do antigo, a vontade de conhecimento da história, o reavivar das tradições, as preocupações ecológicas e o amor pela natureza, o prazer de constatar a diversidade dos homens, o patriotismo (que significa simplesmente o amor à sua terra e se opõe ao nacionalismo)…

E, citando Karl Popper, para isso reclamar uma nova ética para a sociedade: “A ética das obras em contraposição à ética dos resultados, da fama e do aplauso, isto é, que não sacrifica regras essenciais do comportamento à obtenção de resultados.”

Texto de Vítor Carvalho

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