OPINIÃO | BYUNG-CHUL HAN

Ditaram as coincidências da vida que, em duas iniciativas distintas, em dois sábados consecutivos, o nome do autor acima fosse referenciado. Curiosamente, as duas reflexões sobre a obra deste filósofo germano-coreano, professor na Universidade das Artes de Berlim, assentaram em perspectivas diferentes, a primeira numa apreciação crítica, a segunda mais num registo de fascínio intelectual.

A muito interessante proposta de olhar sobre o tempo que vivemos, apresentada por Byung-Chul Han, podendo ser arrumada como (mais um) ensaio neomarxista, que na sua conclusão renega o oitocentista filósofo alemão, não nos permite, contudo, deixar de a considerar, tal é a acutilância da análise que encerra. Uns aperitivos de reflexão.

O EMPREENDEDOR / COLABORADOR – “O sujeito do rendimento, que se pretende livre, é na realidade um escravo. É um escravo absoluto, na medida em que sem qualquer senhor se explora a si próprio de forma voluntária. Não tem diante de si um senhor que o obrigue a trabalhar. O sujeito do rendimento absolutiza a vida sem mais e trabalha.”(*)

A LIBERDADE – “A sociedade de controle digital procede a um uso intensivo da liberdade. Só é possível graças a uma exibição e uma exposição próprias de carácter voluntário. (…) Hoje expomo-nos por completo sem qualquer tipo de coação ou prescrição. Prestamos na rede todo o tipo de dados e de informações sem saber a quem, nem ao quê, nem em que ocasião ou que lugar cabe esse saber a nosso respeito. Esta perda de controle representa uma crise de liberdade que deve ser tomada a sério. Dados a quantidade e o tipo de informação que são lançados indiscriminada e voluntariamente na rede, o conceito de proteção de dados torna-se obsoleto”.(*)

OS AFECTOS – “O sentimento não é equivalente, não é idêntico à emoção.(…) O sentimento permite uma articulação narrativa. Tem longitude e latitude narrativas. Mas nem a emoção nem o afeto são narráveis. A crise do sentimento que podemos observar no teatro atual é também uma crise da narrativa. O teatro narrativo do sentimento recua hoje perante o ruído do teatro do afeto. Devido à ausência da narração, o cenário carrega-se numa massa de afetos.” (*)

DO CIDADÃO AO CONSUMIDOR – “A liberdade do cidadão cede ante a passividade do consumidor. O votante, enquanto consumidor, não tem interesse real pela política, pela configuração ativa da comunidade. Não está disposto nem capacitado para ação política comum. Limita-se a reagir de forma passiva à política, protestando e queixando-se, do mesmo modo que o consumidor perante as mercadorias e os serviços que lhe desagradam.” (*)

BOM, E AGORA? Agora, conclui Byung-Chul Han, como o indivíduo tem o explorador dentro de si, é dentro de si que se pode resolver o problema, desligando-se, desconectando-se, desinformando-se do mundo, incarnando o indivíduo a figura do “herege moderno”.

Não me parece, tal como na procura activa de emprego, que até pode resolver o problema do desempregado A ou do desempregado B, mas que não resolve o problema do desemprego, porque este é um problema colectivo, não é o indivíduo, não é dentro do indivíduo, que se vai resolver um problema de relações entre indivíduos, social, portanto. Duzentos anos depois do nascimento de Marx e uns milhares sobre o aparecimento das comunidades humanas, os problemas colectivos continuam a ter respostas, melhores ou piores,… colectivas.

(*) BYUNG-CHUL HAN, Psicopolítica, Relógio D’ Água Editores, Junho de 2015.

Texto de Francisco Gonçalves 

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