OPINIÃO | Era uma vez uma família com 16 filhos

Com este título pode parecer que vou falar de uma família numerosa, mas refiro-me metaforicamente às 16 freguesias de Arouca.

Num tempo em que os “bairrismos” deixaram de ser factores de guerrilha e egoísmo, a sociedade se tornou global, em que se fala de eficiência colectiva, se proclama a necessidade de gestão de recursos partilhados, mesmo assim, continuamos agarrados a limites territoriais rígidos e sem qualquer interligação comunicacional.

Falando especificamente das nossas freguesias, cometemos demasiadas vezes o erro de não as olhar como um pai olha para os seus filhos, de forma equitativa e solidária, mesmo sabendo que cada um tem a sua forma de ser e estar, com personalidade e identidade própria, mas que devem ser tratados, acarinhados e respeitados sem descriminação.

Efectivamente, tenho reclamado em sede própria e enquanto cidadão que não tenho visto nestes últimos tempos o mesmo tratamento entre todas; senão vejamos, por exemplo, a zona nascente/sul do concelho de Arouca. Esta encontra-se praticamente desertificada, envelhecida e empobrecida, falo entre outras, das freguesias de Moldes, Albergaria da Serra e Cabreiros, Covelo e Janarde. Os dias vão passando, transformam-se em meses e rapidamente em décadas onde se assiste num abrir e fechar de olhos há deslocalização das pessoas, ao abandono do interior e à desertificação das terras e lugares. As pessoas, na procura de trabalho e melhores condições de vida, vão sendo “puxadas” para o centro do concelho saindo das freguesias mais periféricas, para os municípios vizinhos ou mesmo para a zona poente do concelho, portanto mais próximo do litoral, deixando pouco a pouco Arouca para trás.

Algumas das razões têm a ver com a falta de visão/pensamento estratégico, diria mesmo, inconsequente e sem prioridades, associado entre outros, ao pouco investimento e aos poucos recursos que as mesmas dispõem e que em muitas vezes apenas acontece em momentos pré-eleitoralistas em que o frenesim é intenso (trabalhando-se dia e noite, sábados e até domingos), marcam-se estradas, remendam-se uns buracos, tiram-se umas curvas (na gíria popular “esburreiros”), compromete-se o orçamento, gastam-se recursos técnicos, físicos e humanos em obras megalómanas e, as necessidades básicas (fisiológicas, segurança e sociais…) que estão na base da pirâmide de H. Maslow, continuam por satisfazer.

Critica-se o centralismo de Lisboa, mas o Porto faz o mesmo, quando apresenta o seu slogan “Porto.”, ou seja, Porto ponto final, “o resto é paisagem”.

Também o poder local continua a aplicar e a afectar grande parte do seu orçamento em obras no centro da vila, ou em Escariz e Alvarenga, deixando os restantes “13 filhos” cada vez mais esfomeados, sem condições de fixarem as suas populações ou atraírem novos habitantes, traduzido, entre outras, nas fracas e lastimosas condições em que se encontram as estradas para Fuste, Forcada, Lourosa de Matos, Vila Cova, Espiunca,…

Se queremos um território coeso temos que trabalhar de forma pensada, estruturada e sustentada, assente num desenvolvimento equitativo de todas as freguesias, potenciando aquilo que cada uma tem de melhor e ajudando a colmatar as debilidades das outras, utilizando princípios e critérios de solidariedade e subsidiaridade.

Tratam-se naturalmente de opções, mas temos visto na realidade e “in loco” o que está a acontecer.

Abram-se as mentes e mudem-se os pensamentos, com acções concretas, coerentes, a pensar no futuro; desta forma, obteremos um resultado e uma realidade diferente da actual.

Quando não tivermos pessoas nessas freguesias, já não é preciso investir em escolas, ou num centro de dia, ou na limpeza dos rios, ou no planeamento e ordenamento da floresta, ou no alargamento de zonas industriais, ou…, em nada.

Texto de Vítor Carvalho

Nota:
Na edição impressa este artigo de Vítor Carvalho foi publicado associado à foto e nome de outro nosso colaborador: Artur  Miller. Pelo facto, em especial aos dois mas também aos nossos leitores, aqui fica o pedido de desculpas.
Este será também republicado na próxima edição.
O Diretor

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