OPINIÃO | BRINCADEIRAS PEDAGÓGICAS

A conversão de vetustos mestres-escola em orientadores pedagógicos não é milagre, é tolice pós-moderna.” Anónimo

Cento e cinco anos depois de A. Faria de Vasconcellos ter criado “une nouvelle école”, em Bierges-les-Wavre, na Bélgica, e quarenta e um anos depois de José Pacheco ter arrancado com o projecto “Construir a Ponte”, a inteligentzia educativa portuguesa resolveu propagar as virtudes pedagógicas da Escola Nova.

Desde o início do ano lectivo, duzentas e trinta e cinco unidades orgânicas (agrupamentos) do público e do privado, entre as quais o Agrupamento de Escolas de Arouca, trilham caminhos de “autonomia e flexibilidade curricular”, uns num pequeno número de turmas outros com um número significativo, uns mais direccionados para alunos com menos sucesso outros para alunos com mais potencial, uns mais cautelosos nos passos a dar outros fortemente (ou loucamente) experimentalistas.

O que me vai chegando, daqui e dali, adensa ainda mais as reservas a este projecto, designadamente o erro de se considerar mais fácil fazer Escola Nova do que Escola Tradicional (numa escola de massas e sem recursos) e a redutora tese de que o insucesso é um problema meramente escolar, de prática pedagógica, cuja resolução passa apenas e só pela escola.

Umas notas sobre os três equívocos mais gritantes.

Abaixo a disciplina, não pode existir controlo!

Errado. Na Educação existe sempre controlo. Na Escola da Ponte existe, não é exercido pelo professor (orientador pedagógico) mas pela Assembleia de Alunos e na sua fase mais avançada pelo próprio aluno, o auto-controlo. E sobre a violência do controlo exercido pelo grupo, uma leitura do policial sueco da moda talvez ajude – porque é que Lisbeth Salander tem um tutor estatal, apesar dos seus 24 anos de idade?

Entre o Saber e a Alegria, o que importa é que os alunos sejam felizes!

Calma aí! A ignorância não é uma opção, menos ainda uma opção pedagógica. Convém não esquecer que a razão que levou José Pacheco a “Construir a Ponte” foi precisamente a de constatar que os meninos, os meninos pobres, não aprendiam o que tinham que aprender. A Escola da Ponte optou por um caminho alternativo ao da Escola Tradicional. O desígnio, contudo, é o mesmo, Atena e Minerva.

Aprender, só com projectos lúdicos e temáticas alternativas!

Cuidado! Não é cortando aulas e levando o recreio para a sala de aula que vamos lá. O currículo é para cumprir, o recreio é recreio e a aula é aula, espaço de trabalho, esforço e disciplina (maior no caso dos meninos pobres, porque partem atrás e não têm os privilégios dos meninos ricos). É bom lembrar, também, que o menino da Escola da Ponte tem um plano (curricular) de estudo individual, que gere e apresenta ao seu tutor e que quando não o cumpre (por exemplo por falta de trabalho e esforço) sujeita-se à auto-crítica perante a Assembleia de Alunos.

Uma impressão final. Conheço muitos professores, uns mais para o mestre-escola outros para o orientador pedagógico. O que os faz melhores ou piores na arte não é propriamente a opção pedagógica mais conservadora ou mais progressista, mas sim a disciplina, o saber e o trabalho com que exercem o seu ministério e que praticam com os seus alunos. O resto, o resto é conversa, excrescências do tempo e “nacional-porreirismo”.

Texto de Francisco Gonçalves 

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