OPINIÃO | Lideranças

As dinâmicas internas dos partidos são sempre interessantes de se acompanhar, quer para a comunidade em geral, quer para comentadores e jornalistas e, sobretudo, para os diretamente envolvidos em disputas internas. Em democracia, particularmente em Portugal, as consequências a retirar após um ato eleitoral são rápidas no que toca aos vencedores e vencidos, mais concretamente nos partidos que, maioritariamente, ocupam o poder.

No país, mesmo considerando os resultados de 2015 em que a coligação PaF formada pelo PSD e o CDS-PP conseguiu reunir maior número de votos, determinando inclusivamente o PSD como o partido com maior representação na Assembleia da Republica, a sua constituição determinou uma nova solução governativa já devidamente esmiuçada e que recentemente celebrou 2 anos. O CDS definiu um novo rumo na sua liderança logo após esta solução governativa ter vingado, com uma transição que acabou por ser pacífica e que saiu reforçada com o resultado da sua líder nas eleições autárquicas enquanto candidata à Câmara Municipal de Lisboa.

Como consequência destes 2 anos sobre esse momento histórico, juntando a isso os resultados das eleições autárquicas, estamos a assistir aos últimos dias de Pedro Passos Coelho enquanto lí­der do PSD. Muito foi dito e escrito sobre o ainda líder. Eu próprio terei a oportunidade de partilhar com o leitor alguma da minha visão sobre o seu legado quer à frente do partido e, principalmente, enquanto Primeiro-Ministro de Portugal, quando oficialmente for anunciado o novo lí­der do PSD no dia 13 de Janeiro. O que quero partilhar com o leitor é esta reflexão necessária de se fazer no que toca aos ciclos políticos dos líderes dos principais partidos. Se olharmos ao sucedido com Pedro Passos Coelho e com o que decorreu após as eleições de 2015 com os resultados que se conhecem, assim como se olharmos ainda recentemente para o que sucedeu com António José Seguro na liderança do PS após vitórias eleitorais nas eleições autárquicas e europeias, verificamos que podemos estar perante um novo paradigma que diminui ainda mais a margem de manobra das lideranças partidárias.

O que parece claro, do ponto de vista da análise política, é que situações como as que decorrem noutras democracias europeias, com lideranças que perspetivam ciclos um pouco mais longos e que não estejam diretamente associadas apenas e só aos momentos eleitorais imediatos dificilmente podem vingar em Portugal, com a clara exceção que decorre dos partidos mais à esquerda do nosso espectro político, com o PCP a ser o seu expoente máximo.

Como em tudo na vida, é necessário sempre encontrar o equilíbrio. É necessário uma maior e melhor ponderação! Não queremos lideranças eternas nem fugazes. Tenho a certeza que queremos acima de tudo projetos que envolvam cada vez mais a sociedade e aproximar os eleitos dos eleitores. Isto aplica-se tanto a nível nacional como local. Os partidos necessitam de dinâmica e também de estabilidade e perceber que, por mais que hoje exista uma maioria absoluta principalmente assente num lí­der que tudo absorve pode, de uma assentada e conforme as circunstâncias, estar de saí­da dando lugar precisamente aquele que durante muito tempo consolidou o seu projeto e vê agora a sua oportunidade.

O tempo ditará sempre a sua sentença. E existem sempre valores que devem acompanhar o cidadão: o valor da palavra, a sua dignidade e honestidade. Dos fracos e pobres de espírito não reza a história.

Texto de Artur Miler

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