OPINIÃO | Ainda no rescaldo eleitoral

Passado um mês das eleições autárquicas pode parecer já tarde para continuar a fazer o balanço dos resultados eleitorais em Arouca. Será. Mas, como na última edição, analisei os resultados na perspetiva de quem ganhou as eleições e prometi que dos vencidos trataria nesta edição, não posso deixar de o fazer.

Assim, se a grande vencedora das eleições foi Margarida Belém e o PS, cuja lista encabeçou para a Câmara Municipal, os grandes perdedores foram os restantes candidatos e as forças políticas pelas quais concorriam.

O PPM e a CDU tiveram resultados absolutamente irrisórios, com menos de 300 votos cada, a lembrar, o primeiro, que uma candidatura sem projeto não faz sentido, o segundo, que o mérito dos candidatos não é suficiente, sobretudo quando a estratégia nacional do um partido se sobrepõe às questões locais. Por sua vez, o resultado do Nós Cidadãos, barriga de aluguer do eterno candidato Dr. Vitor Brandão, veio revelar o fim político deste ao fim de 5 candidaturas. Se nos lembrarmos que em 1993 teve 5.764 votos pelo PSD, em 2005 teve 3.426 pelo movimento independente UPA e agora apenas 341 está tudo esclarecido.

Mas o grande derrotado foi sobretudo o PSD, que se apresentou coligado como CDS/PP na Coligação Somos Arouca. Afastado que foi há 24 anos da presidência da Câmara e num momento em que terminava, por limites de mandatos, a gestão de Artur Neves (outro vencedor, a todos os títulos), a expetativa era a de o eleitorado que tradicionalmente vota nas eleições nacionais no PPD/PSD voltasse ao regaço do partido e optasse pelo seu candidato.

Só que toda a estratégia local daquele partido foi errada, desde a escolha do candidato a presidente até ao modelo de campanha eleitoral gizada. Sobre o perfil do candidato já me debrucei suficientemente em edições anteriores pelo que, uma vez copiosamente derrotado, seria deselegante estar a repetir todo o tipo de limitações que então lhe fui apontando para o exercício do cargo de presidente de Câmara. Noto apenas aquilo que de mais relevante a campanha veio confirmar, desde a falta de reflexão e de conhecimento sobre as grandes questões que se colocam à  gestão municipal moderna, à  incapacidade de transmitir e defender publicamente as ideias que constavam do seu programa e elaboradas pelos assessores da candidatura. Aliás, a debilidade demonstrada foi tão grande que se em vez de um debate público entre os candidatos se tivessem realizado dois ou três o resultado eleitoral seria mesmo humilhante.

Optaram os mentores da candidatura por fazer uma campanha populista, apelando aos sentimentos mais básicos dos eleitores e prometendo tudo a todos, julgando, erradamente, que essa era a melhor estratégia para prender os arouquenses. A ideia de encenar, num domingo, ao fim da missa e quase à porta da igreja conventual, a assinatura de um protocolo com um empresário para um suposto investimento de dez milhões de euros na instalação de um hotel no Mosteiro de Arouca se o candidato ganhasse as eleições, quando a concretização do projeto não dependia nem do gesto, nem da Câmara e muito menos do candidato, perdurará como lembrança ridícula do que não se deve fazer a menos que se entenda, como parecia o caso, que toda a demagogia é válida como estratégia eleitoral. O desfile do candidato ao lado de Passos Coelho, em plena Feira das Colheitas, na principal rua de Arouca, à frente de uma ruidosa claque de candidatos e apoiantes, invadindo a festa maior dos arouquenses, de nada serviu. A nível local, os arouquenses mais do que no partido votam nos candidatos, sem receio de serem tidos como ingratos ou traidores. Não perceber foi fatal, mais uma vez, para o PSD.

Texto de Gomes Ferreira

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