OPINIÃO | Pousada no Mosteiro

Pousado no Mosteiro, tem estado um manto tecido com a troca de palavras, acusações e um pouquinho de ideias (pouco, mesmo). O Turismo de Portugal criou um programa (REVIVE) que pretende revitalizar um vasto conjunto de monumentos, de norte a sul do país, dando-lhes uma vertente turística, associada ao alojamento de alta qualidade. Arouca sonha com essa possibilidade há largo tempo, e o sonho ganha outros contornos quando se torna móbil de campanha eleitoral. É fácil acusar uns de imobilismo e outros de oportunismo.

Mas tentemos observar o fenómeno de cima. Até que ponto é pertinente esta discussão? Fará sentido pensarmos nisto como uma espécie de desenrasque, que tem de ser executado rapidamente para se resolver? Ou é preferível pensar se há viabilidade, se é, de facto, disso que precisamos?

Um dos receios, legítimo, é o de estarmos a dar um passo maior do que a perna, ou a colocar o carro à frente dos bois. Estamos a abrir a possibilidade de termos alojamento de luxo, num edifício absolutamente único, que transpira história e cultura por todos os poros. Mas corremos o risco de esgotar tudo isso nisso mesmo. O que realmente faria sentido era pensar-se nesta estrutura como parte de algo maior. Numa reestruturação do circuito de visitação do Museu de Arte Sacra (já prevista pela Direcção Regional de Cultura do Norte), na implementação de uma dinâmica própria (funcional, educativa, estrutural) do Museu, na criação de condições para transformar todo o edifício num pólo cultural atractivo, funcional, inovador e de altíssima qualidade, a condizer com o resto.

Mais uma vez, podemos estar a correr o risco de confundir a árvore com a floresta, ao tentar defender apenas a parte, sem olharmos para o todo. O surgimento desta estrutura é pertinente e perfeitamente enquadrável na dinâmica turística atingida, tendo tudo para funcionar com o parceiro adequado. Escolhido de forma o mais ampla possível, e sem pré-compromissos que nos comprometam demasiado, de preferência. Mas, apertando a escala, verificamos que poderá não chegar, se o resto do edifício permanecer numa dinâmica de gestão corrente, em que urge articular a intervenção de todos os que ali desenvolvem as suas actividades (e bem).

Pousada no Mosteiro está, agora, uma dúvida, mais do que qualquer eventual certeza. Fazer para depois se ver, ou pensar de forma estrutural, e dar ao edifício mais significativo do município a dignidade que merece.

Texto de Ivo Brandão 

Este texto foi escrito seguindo a antiga ortografia

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