E quando sai raposa?

No velho mundo estudantil era costume dizer-se, sempre que um aluno reprovava – apanhou a raposa. É uma estória coimbrã, do tempo dos chumbos a rodos, hoje banidos da vida escolar (na terminologia é certo, na sua existência de facto se calhar não).

Vem isto a propósito de, neste mês de Maio de 2017, a DGEEC (Direcção Geral de Estatística da Educação e Ciência) ter publicado um relatório sobre os resultados escolares por disciplina, no 2º ciclo do Ensino Básico – Ensino Público, relativos ao ano lectivo 2014/2015, o último ano em que foram aplicadas Provas Finais de Português e Matemática a todos os alunos do sexto ano de escolaridade.

O relatório constata, entre outras coisas, que 65% dos alunos do 5º ano não tiveram nenhuma negativa, 14% uma, 9% duas e 12% três ou mais e que no 6º ano foram 61% os que não tiveram nenhuma negativa, 18% uma negativa, 14% duas e 7% três ou mais.

Mas os dados mais significativos surgem quando se dividem os alunos pelos três escalões económicos existentes na Escola e se contabilizam quantos, por disciplina e dentro de cada escalão, obtiveram negativa. Dois exemplos. No caso do Português, no 5º ano, onde 13% dos alunos tiveram negativa, constata-se que 23% dos alunos com escalão A obtiveram negativa, baixando o percentil para 13% no caso dos alunos com escalão B e para 7% no caso dos alunos sem auxílios económicos. No caso da Matemática, no sexto ano, esta tendência, que se repete nas outras disciplinas, é ainda mais forte, num universo global de 30% de alunos com negativa à disciplina, vemos a percentagem de alunos com negativa nos 48% no caso dos alunos com escalão A, baixando para 32% no escalão B e para 20% nos alunos sem auxílios económicos.

Estes números não trazem nenhuma novidade, apenas confirmam a dificuldade da Escola em combater a reprodução social. Mas um outro dado importa reter, é que apenas quatro em cada dez alunos reprovados a Matemática conseguem obter aproveitamento no ano lectivo seguinte.

Perante tal constatação, o Ministério da Educação e a sua Intelligentsia Académica de recurso avançaram, a três tempos:

I – definiram a pergunta – porque há tanta reprovação?

II – identificaram a causa – a prática pedagógica existente na Escola Pública!

III – prescreveram a terapêutica – inovadora pedagogia que depura a reprovação, pedagogia esta a inocular através de formação docente custeada por fundos europeus.

A tão douta análise atrevo-me a contrapor:

I – o problema não é administrativo, de transição ou de reprovação, é pedagógico e social.

II – há meninos e meninas que não aprendem o que era suposto aprenderem por limitações do meio de origem e porque o que a Escola Pública tem para oferecer fica aquém do que necessitam. Logo é necessário intervir na Escola Pública… e a montante dela!

III – isso custa dinheiro. Chama-se despesa (investimento) social! Há vontade política para tal?

Francisco Gonçalves

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