Oposição e poder, a árvore e a floresta

À medida que se aproxima o acto eleitoral que nos levará a escolher os nossos autarcas, tem sido curioso acompanhar a forma como quem está no poder tem a tendência para olhar para a floresta (porque o seu âmbito de acção é muitíssimo mais alargado, diversificado e estrutural) e como quem está na oposição persiste na tendência para olhar para a árvore (porque, a certo ponto desesperadamente, tenta apontar a mais pequena falha, na esperança de que o acumulado resulte em algo). Às vezes, o debate sobre a floresta, de tão genérico, resulta em nada, porque ou é demasiado complexo, ou demasiado abrangente. Outras, sobre a árvore, roça o ridículo, porque é feito de forma demagógica, pouco inteligente e demasiado picuinhas.

Entretanto, fala-se de descentralização de competências, do Governo para as autarquias, mas não onde se deveria falar. Daqui até às eleições, passando pela campanha eleitoral, é pouco provável que se fale disto. O debate, em vez disso, vai andar em torno da árvore e da floresta. Em torno do que se fez, do que se projecta, da visão estratégica para isto ou para aquilo. Ou em torno do paralelo que saiu do sítio, do sinal que não é respeitado, do meco que se retirou (a pedido) e não se devia ter retirado.

Não se fala que, em termos de Educação, as câmaras municipais terão de assumir responsabilidades alargadas, desde as refeições, à gestão do pessoal não docente, transportes escolares e acção social escolar, até ao secundário. Não se fala do papel importantíssimo que as autarquias desempenham (e terão de continuar a desempenhar) na Acção Social. Não se fala que terão, também, de participar mais activamente na gestão dos Centros de Saúde. Não se fala da importância que continuarão a ter ao nível da Protecção Civil. Não se fala da responsabilidade na valorização do património cultural e na gestão do património imobiliário público. Não se fala, pelo menos por enquanto, na questão do cadastro rústico e florestal, de que tanto se falou no rescaldo dos incêndios. Não se fala da transferência da gestão de estradas nos perímetros urbanos para as câmaras. Não se fala no alargamento da delegação de competências nas freguesias, mas desde que isso não represente aumento de despesas. Não se fala, também, nas competências inter-municipais, a vários níveis, estando mesmo em ponderação a possibilidade de eleição das entidades metropolitanas.

Os eleitores têm o direito de saber o que é que quem lhes pede o voto pensa de tudo isto. Mais do que olhar para a floresta, e, desta forma, olhar para tudo o que está para trás. Mais do que olhar para árvore, e, desta forma, não se saber o que quem está na luta quer para o futuro. O nosso futuro. E isso é muito mais importante do que discussões medíocres.

Ivo Brandão

Este texto foi escrito seguindo a antiga ortografia

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