A Floresta e os Incêndios: primeiras Jornadas da Floresta em Arouca

Foto: Carlos Pinho

Depois do trágico incêndio que consumiu grande parte da floresta em território arouquense em agosto de 2016, impunha-se uma profunda reflexão e um sério debate sobre “a floresta e os incêndios”. Numa iniciativa conjunta da Associação Círculo Cultura e Democracia e da Câmara Municipal de Arouca foi possível reunir um conjunto de agentes locais, profunda e dedicadamente empenhados no sector da floresta, bem como um naipe de reputados investigadores que, desde há muito, estudam o fenómeno dos fogos e das suas causas e consequências na floresta portuguesa. Foi assim que, nos dias 24 e 25 de março de 2017, surgiram em Arouca as primeiras Jornadas da Floresta.

Com uma formatação muito bem pensada e melhor conseguida, estas Jornadas permitiram, não só a partilha do testemunho de 10 agentes locais ligados à floresta e à problemática dos incêndios, bem como a divulgação do conhecimento científico partilhado por 6 investigadores ligados a diversas instituições universitárias e possuidores de uma vasta publicação sobre estas temáticas.

Testemunhos dos agentes locais

Realizadas no espaço do auditório municipal, na Loja Interativa de Turismo, estas jornadas foram abertas com a intervenção do Vereador Marcelo Pinho, em representação da Câmara Municipal, e Manuel Brandão Alves pelo Círculo Cultura e Democracia.

Depois de se congratular pela concretização desta iniciativa que conseguiu reunir um vasto e diversificado conjunto de pessoas, bem conhecedoras do universo florestal, que envolve cerca de 150 empresas, sendo um dos sectores económicos com mais futuro em Arouca, Marcelo Pinho informou das diligências, já em curso, por parte da Câmara Municipal, no sentido de vir a ser criado um “corredor ecológico” ao longo da estrada de Arouca a Alvarenga, para protecção de incêndios e ao mesmo tempo para embelezamento da paisagem.

Por sua vez, Manuel Alves manifestou a sua convicção de que a maneira como tratarmos da floresta e cuidarmos do ambiente são importantes sustentáculos da nossa democracia. Reconheceu, no entanto, que a problemática da floresta e dos fogos é muito complexa, dada a geologia dos terrenos, a tipificação das árvores e a interacção humana com o ambiente.

Dois olhares sobre a floresta

Nos diversos testemunhos que compuseram o 1º painel destas Jornadas, moderado por Cláudia Oliveira, delinearam-se dois olhares diferentes, mas complementares, sobre a floresta.

Enquanto agentes locais ligados à indústria da extracção florestal em Arouca, falaram da floresta como importante suporte para a empregabilidade e para a economia local e nacional, dois movimentos cívicos, a “Matéria-Prima” e o “Movimento Gaio”, partilharam um interessante e animador conjunto de iniciativas, levadas a efeito nas encostas da Serra da Freita, no intuito de devolver à natureza a sua matéria-prima, destruída nos últimos incêndios, chamando, assim, a atenção para o envolvimento da comunidade local e para o importante papel da cidadania na reflorestação e na sensibilização à educação ambiental.

No debate que se seguiu a este painel foram lançadas algumas interessantes sugestões, umas sobre a sobreirização da floresta arouquense, outras sobre a necessidade da reconversão do castanheiro bravo através da enxertia, bem como da importância da certificação da castanha arouquense. Ficou também no ar um alerta para os perigos da monocultura do eucalipto em detrimento das espécies autóctones.

O primeiro dia destas Jornadas da Floresta foi encerrado por duas importantes palestras, uma sobre a gestão partilhada da floresta, proferida pelo Dr. Américo Mendes, um especialista em economia e política florestal da Universidade Católica do Porto e a outra proferida pelo ex-Secretário de Estado, Eng. Victor Louro que abordou a mobilização dos cidadãos para a gestão eficiente da floresta. Constatando que grande parte das decisões políticas sobre a floresta parte mais dos gabinetes do que da auscultação dos cidadãos, Victor Louro defendeu um processo participativo que conduza a um maior papel dos cidadãos na gestão deste bem público que é a floresta portuguesa.

José Cerca

Mais desenvolvimentos na próxima edição impressa.

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